O mundo diz para você ser “você mesmo”

Mas quem é você, mesmo?

Você já deve ter notado em inúmeros filmes, séries, músicas e livros, quando as pessoas estão nervosas em uma situação limite e, não sabem o que fazer, seus amigos as aconselham “seja você mesmo”. Mas afinal, o que é “ser você mesmo”? Esse conselho que o pretenso amigo está dando significa que em algum momento da sua vida você deixou de ser a pessoa que é? Como o slogan, “existem mil maneiras de se preparar Neston, invente uma!”, também existem muitas combinações e muito mais para constituirmos e preferimos nossa identidade, basta, é claro, sabermos gerí-la.

Fonte: Banco de Imagens/Freepik.com

Pensadores da identidade e da diferença como Stuart Hall, Kathryn Woodward e Tomaz Tadeu da Silva, advogam que a percepção da identidade de alguém como algo fixo e inquebrantável é uma ilusão da mente humana, ávida por personagens e narrativas. Para grande parte dos teóricos da identidade, esse é um fator que está em eterna construção no ser humano. Afinal, você não é o mesmo de quando era criança, ou quando foi adolescente. Também não será o mesmo na velhice, ainda que algumas características psíquicas e sociais se sobressaiam e se mantenham.

Ainda no século XIX, o pai da psicanálise Sigmund Freud já dividia a personalidade humana em partes como o ego (a forma como nos apresentamos), o superego (a nossa parte paterna, crítica e refreadora) e o id (nossa parte instintiva e criança). Para Freud, uma mente sã é aquela que consegue equilibrar essas três composições de nossa psique. Seu discípulo, Carl Gustav Jung, por outro lado, deu um outro passo na composição da mente humana, que talvez tenha corroborado essa idéia de “identidade única”. Ele acreditava que os seres humanos possuíam modelos de condutas baseadas nos mitos, que seriam chamados de arquétipos. Eles orientam nosso inconsciente coletivo sobre a forma como devemos nos portar em sociedade.

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Essa espécie de modelo de conduta que estão presentes na psicanálise vão ao encontro de preceitos da sociologia, que diz que a cultura molda nosso comportamento, seja seguindo a tradição ou rompendo com ela. Seja nos espelhando em ídolos ficcionais ou em pessoas da vida real que, na prática, serviriam como arquétipos. Assim são, por exemplo, os líderes visionários, os heróis dos quadrinhos e filmes de ação, as princesas da Disney, os pais e parentes, entre outros. Esse imaginário coletivo acaba criando mitos sociais que prezam pela organização da sociedade e faça com que ela funcione de forma progressiva e azeitada. Por isso, eu gosto de acreditar que não apenas a psicologia, mas também o estudo do mecanismos sociais através da sociologia, pode curar muitas pessoas das patologias psíquicas que padecem.

O pensador belga Guy Bajoit, diz que nossa identidade é formada por três níveis. O primeiro deles seja a identidade desejada, que é como desejamos parecer ao olhar dos outros, embora quase nunca consigamos obter esses resultados satisfatoriamente. É a imagem com a qual o sujeito se identifica e os projetos identitários que formula sobre si mesmo através da visão e expectativas dos outros. O segundo nível é a identidade atribuída, que, ao contrário da primeira, é aquela identidade que os outros dão a nós, mesmo que não concordemos com as suas conclusões.Por fim, a identidade comprometida envolve os compromissos que cada indivíduo assumiu para se comportar desta ou daquela maneira por diferentes fatores de sua vida. Esses compromissos podem ser feitos por vontade própria, ou ainda, subconscientemente, contra a sua vontade para atender às expectativas dos outros sobre ele, ou ainda para se ajustar às normas culturais impostas pela sociedade.

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A soma destes três níveis formam a identidade de cada um. Contudo, como as expectativas e normas socioculturais mudam de tempos em tempos, esse indivíduo também precisa se adaptar a essas evoluções, revoluções e revoltas na forma de como uma pessoa deve enxergar a outra e como todos devem se comportar de um modo geral. A interseção dos valores atribuídos por todos os níveis identitários formam “compromisso identitário consigo mesmo”.

Portanto, talvez, quando digam “seja você mesmo”, não quer dizer que você deve ser o ego, o id, o superego, alguma faceta sua durante alguma fase da vida, ou ainda algum nível da sua identidade, que poderiam gerar a expressão “quem te viu e quem te vê, hein”, por algum espertinho. “Ser você mesmo”, portanto, não é ser verdadeiro, ou ainda ser coeso, como uma pessoa que segue um caminho único sem se desviar para nada. “Ser você mesmo”, então, seria autêntico, ou seja, coerente com os valores e os compromissos da identidade assumidos consigo mesmo.

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Assim, para Guy Bajoit, a vida em sociedade compreende constrangimentos sucessivos, feitos pelo coletivo, que fazem com que os indivíduos sigam as normas para que ela siga organizada de certa forma. Porém, os constrangimentos só serão legitimizados, se possuírem um fundo cultural neles, gerando assim aquilo que Jung batizou de mitos arquetípicos de comportamento, que são desejados através de modelos de conduta. A relações sociais, os rituais, a rotina, sedimentam esses comportamentos e dão sentido a essas normas, fazendo com que as identidades coletivas (familiares, de classes sociais, culturais, de classes trabalhistas, etárias) se formem e gerem sociabilização e a inclusão.

Por outro lado, essas identidades coletivas sofrem tensões existenciais, assim, como não cabem dentro da caixa em que foram colocados, cada ser humano acaba construindo sua identidade pessoal. Para atuar perante aos outros, os indivíduos se comprometem com essas normas e regras sociais, para que, ao assumirem esse compromisso também reproduzam e alterem os constrangimentos e os sentidos que estruturam suas próprias relações sociais.

Então, o que acabamos aprendendo de tudo isso? Que quando as pessoas dizem para você “seja você mesmo”, elas querem que você aja exatamente como os outros. Condicionado e adaptado, sempre a determinados arquétipos e a determinadas normas e regras sociais. Por isso, o conselho “seja você mesmo” é uma balela. “Seja você mesmo” é o pior conselho do mundo. Porque dentro do esquema social em que vivemos, nunca ninguém conseguirá, por mais, apesar de, graças a, contra o que, tente será ele mesmo.

Mais Informações:
BAJOIT, Guy. Tudo muda: proposta teórica e análise da mudança sociocultural nas sociedades ocidentais contemporâneas. Ijuí/RS: Editora UNIJUÍ, 2006.

DA SILVA, Tomaz Tadeu. Identidade e Diferença. Petrópolis/RJ, Editora Vozes, 2000.