Airton Dias
Dec 11, 2017 · 3 min read

Como a filosofia de um filme dos anos 40 pode ser aplicada hoje.

Cena de Contrastes Humanos, 1941

Presidiários surrados pelo trabalho forçado lotam a capela da cadeia pesarosos; é uma sessão noturna de cinema na instituição. As roupas sujas de graxa e olhares distantes não passam outra imagem senão a de sofrimento. Luzes se apagam e um rato acompanhado do seu cachorro de estimação começam a mudar a atmosfera do ambiente com suas desventuras em tela. Agora, um riso ou outro aparecem nos homens desdentados. Não demora muito e verdadeiras gargalhadas são arrancadas.

O rato e cachorro em questão são, respectivamente, Mickey e Pluto. Já os expectadores, personagens do filme “Contrastes Humanos”, de Preston Sturges. A história nos mostra o diretor de cinema John Sullivan (interpretado magistralmente por Joel McCrea) em uma verdadeira jornada de herói na busca pelo maior drama humano que o cinema poderia filmar. Ele queria chocar a audiência, fazê-la sofrer, apresentar algo jamais visto em uma era de produções superficiais e comédias bobas na indústria do entretenimento.

Para isso, Sullivan decide se travestir de homem comum, vitimado pela grande depressão da época. Em seu caminho por respostas, vira andarilho, perde a memória e até é preso por um crime que não cometeu. Pulando um pouco a história e já alertando para spoilers, voltamos a sequência que iniciou o texto.

A epifania do personagem e uma das grandes cenas do cinema americano ocorre nesta noite, quando se depara com a felicidade repentina dos prisioneiros. Sim, eles eram miseráveis, mas aquela curta projeção de um desenho animado os coloca no paraíso por alguns minutos. Neste momento, o diretor recupera sua memória e descobre que a resposta procurada não estava no drama e sim na comédia - “O mundo precisa de uma risada verdadeira”- dizia extasiado olhando para Mickey e Pluto.

Famosa cena estrelada por Joel McCrea

Ali, ele percebe que não existe nada de bobo em uma comédia. Pelo contrário, o escapismo do gênero poderia ser um grande aliado para o homem comum dos anos trinta. Veja, estamos falando da Grande Depressão, de 11 milhões de desempregados somente nos Estados Unidos, dos regimes totalitários ganhando força na Europa, da crise da exportação do Café no Brasil - era um período sombrio, sem dúvidas.

E, se a vida real já é um drama, por que fazer a audiência sofrer também no cinema? Essa foi a linha de raciocínio apresentada por Sullivan junto aos produtores justificando a realização de um filme cômico.

“Uma risada é pouca coisa, mas às vezes é tudo que um sujeito tem.” John Sullivan

Contrastes Humanos é uma obra de ficção, datada e distante da nossa realidade atual. Mas, se formos analisar o que o personagem propõe, é possível trazer para os dias de hoje. Diz aí, temos Trump e Kin Jong-un se propondo a aniquilar o mundo em uma guerra nuclear, um governo disposto a acabar com os direitos dos trabalhadores no Brasil e muitos outros motivos para sentar e chorar. Não tá fácil pra ninguém - como sugere a expressão popular. Então, por menor que seja, uma risada pode sim ser o que salva o nosso dia. Um meme engraçado no grupo dos amigos de colégio, aquele vídeo de gatinho na sua timeline, uma piada no ambiente de trabalho, vale qualquer coisa, até desenho animado infantil.

A comédia não é apenas escapismo, muito menos conformismo. Além de Sullivan, a ciência mesmo constatou isso. Vários estudos comprovam benefícios da risada, como fortalecimento do sistema imunológico, combate do stress e aumento de energia.

Tá na hora de colocar isso a nosso favor, como um combustível para encarar as dificuldades e sofrimentos do dia-a-dia. Assim como o Mickey transformou aqueles presidiários (por mais que fictícios), existe alguma risada esperando para ser dada em sua vida.

E, se precisar de sugestões, pode começar com o próprio filme citado, pois a história de Sullivan nos reserva momentos de risos simples e verdadeiros.

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Ainda pego fila de banco, assisto filmes de faroeste e não tenho 60 anos.

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