O novo comercial da Nextel…

…e a discussão sobre rótulos em tempos de luta pela diversidade.

Você nasceu de um jeito. E não deveria precisar se encaixar no dos outros para ser aceito. Todos nós somos peças sem contorno exato.

Simpatizei logo de cara com o novo comercial da Nextel, mas por motivos bem menos nobres do que aqueles que vou escrever por aqui (é melhor deixar isso bem claro).

Sempre A-ME-I Sandy e Junior, juro, é sério, não ri.

Fui em vários shows, tenho todos os CDs e escuto tudo até hoje, cantando alto MESMO no trânsito, no banho, no trabalho e no videokê com o maior dos maiores orgulhos. Não foi só uma fase adolescente, não tenho problema nenhum em admitir isso. Respeito muito o trabalho de ambos e embora muitos torçam o nariz e critiquem até a última gota, o Junior, gente, não é só ex-Sandy. Você pode detestar o que ele já produziu, ok, é justo, mas dentro de toda a minha expertise (vastíssima!) em absolutamente nada do universo musical acredito que ele seja um excelente instrumentista. Minha opinião, tá? Não precisa se exaltar (E TÁ LIBERADO PRA CRITICAR).

Nunca me importei com o fato das músicas serem bobinhas, dele ser ou não gay, coadjuvante, vozinha de pilha fraca, magrelo, cafona, ou whatever: na música — e na vida — a gente tem que ter liberdade de seguir aquilo que deixa o nosso coração feliz. Ou, pelo menos, eu sempre encarei as coisas dessa forma.

E daí que apesar dessa belíssima introdução sobre meu gosto musical bastante questionável, o comercial da Nextel apesar de ser altamente publicitário e, por consequência, uma enorme bulshitagem para tentar nos emocionar e fazer consumir um serviço específico de telefonia, se mostra muito importante em tempos de luta, de diversidade, e de aceitação de tantas classes, gêneros, raças e, acima de tudo, PESSOAS.

Já parou pra pensar que mesmo que você não se identifique com uma luta social, existe gente de verdade por trás disso? Que acredita, sente, sofre e defende aquilo? É bom começar a pensar.

Nada é imposto. Você bebe aquilo que quiser, se relaciona com o sexo que quiser, veste, compra e frequenta o local que quiser. Se o universo ao seu redor não condiz com aquilo que te faz feliz, chegou o momento de mudar de ares. E de amigos, e de amores…Até se encaixar naquela realidade que te acomoda. Essa é a máxima para uma vida feliz, acredito eu, porque mesmo em tempos de ódio exacerbado ainda acho que o caminho para a tolerância é muito simples e evidente: não te convém? Não faça. Seja por religião, moralismo, seja pelo motivo que te convir, apenas mantenha suas convicções e mais importante que isso:

Pare de limitar a liberdade do outro. Você não tem e nunca teve esse direito.

Estou cansada de comportamentos de fachada. É desonesto. Com quem os tem, com as pessoas ao redor e principalmente com quem é oprimido por isso.

Olhe com carinho para os seus filhos, amigos, parceiros de trabalho. Somos micro universos distintos — o que te parece certo e te faz feliz, pode não servir para o outro. Pode não ser lógico ou correto. Guarde então, suas críticas e discursos do que deve ser ou não feito em relação a vida alheia: as escolhas pessoais de outras vidas não te cabem. E, sinceramente, não deveriam te incomodar dessa forma.

Sua vida não vai mudar se o seu vizinho for gay. Ensine, então, seus filhos a compreender e a conviver com o diferente. Com o muçulmano, com o cadeirante, com o indivíduo que não vive como ele. Isso fará deles — e de você também — melhores seres humanos.

RESPEITAR não significa ser igual. E se por alguma ironia cósmica isso acontecer, é o conhecimento e o seu modo de encarar o outro que vai te preparar para lidar naturalmente com o que quer que seja.

Quando deixamos aquilo que pensamos no nosso íntimo, salvamos vidas.

Literalmente.

Por que, diga-me uma coisa, de que adianta você justificar suas “opiniões” como um ato de amor e preocupação se elas só disseminam ainda mais ódio? Seus preconceitos não podem ser justificados como afeto.

Não é exagero. 318 gays foram mortos em 2015. O Mapa da Violência de 2015 aponta que o número de homicídios contra mulheres negras aumentou 54% em 10 anos. Não estamos falando aqui de ódio apenas contra o que as pessoas acreditam ser uma “conduta” errada, como se declarar homossexual, trans, ou qualquer coisa desse tipo, estamos falando da intolerância em relação ao gênero, ao sexo e, em muitos casos, à classe social, à profissão, ao time de futebol, ao partido político, peso, deficiência ou qualquer que seja a diferença do outro.

O comercial da Nextel, eu sei, foi raso. Usou a imagem de celebridades para se promover. Custou caro, é apenas mais um caso no qual uma marca quer usar de um discurso aderente à realidade social atual e blá blá blá. Mas me fez pensar. Se Cicarelli e Junior se sentem rotulados e à margem de certos padrões da vida pública, imaginem só a gente comum. Sem notoriedade, espaço, status ou dinheiro. A gente que não sai na imprensa se não for violentada de forma hedionda. A gente que é obrigada a conviver com tantos mini padrões que outras gentes inventaram.

Que outras marcas, ou meu texto, te obriguem a pensar além dos rótulos. E, quem sabe, a mudar tanta coisa ruim que é feita contra os outros, sob o preceito de justiça. Justo é viver o que a gente quiser. E ninguém tem nada com isso.

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