O novo nome da felicidade.

porque uma vida interessante é mais importante que uma vida perfeita.

A gente adora idealizar uma vida perfeita na vida dos outros. Instagram taí pra isso, pra gente morrer um pouquinho por se comparar àquele corpo, por não estar vivendo aquela viagem incrível, por não ter um amor pleno como aquele, uma casa, um carro ou um iPhone X. Nós, humanos, gostamos de nos torturar. Gostamos de enxergar o que há de vazio nas nossas vidas, reclamar é praticamente parte da rotina dos povos latinos , eu diria— somos tão próximos dos nossos deuses/deus/Deus que nos julgamos no direito de exigir sempre mais.

Ainda que não façamos nada em relação ao melhoramento da nossa própria existência, nos julgamos merecedores de uma intervenção religiosa, cósmica, paranormal, de uma resolução astral para os problemas práticos. Às vezes, ficamos tão presos a como acreditamos que as coisas deveriam estar sendo na vida da gente que não conseguimos ver o quão boas as coisas estão. Ou o que de bom podemos colher do que está sendo ruim.


No ano passado li uma entrevista muito boa com o psicanalista Contardo Caligaris sobre felicidade. "Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante", foi uma frase que mexeu muito comigo porque sempre associei uma vida interessante a uma vida feliz e nunca parei para pensar sobre essas duas frentes de forma dissociada. A questão é que em um país tão cheio de dissonâncias como o Brasil, os conceitos de "interessante" podem ser muito amplos e, praticamente todos, intimamente ligados aos bens materiais — e a nossa capacidade de "gerar felicidade infinita", tendo o poder de consumir em parcelas qualquer coisa que desejarmos.

Contardo falou bastante sobre a modernidade, sobre as relações de consumo e sobre como nossas satisfações são breves e momentâneas porque não se baseiam nas coisas certas. Ao longo das suas respostas, ele toca também em um ponto muito profundo sobre o modo como lidamos com as nossas dores e com o luto. Afinal, parte de sermos felizes é também reconhecermos a existência das coisas ruins, sentirmos nossas mazelas e não ignorarmos aquilo de mal que nos cerca.

Taí o ponto que tenho tentado aplicar mais na minha vida e que gostaria de compartilhar com vocês: mais que reclamar, olhem para os seus problemas sem deformá-los. Nada é tão imutável que não possamos amenizar, juro. Nem a morte. Nem os abusos. Nem as tragédias, as falências, os fracassos ou os traumas. O auto conhecimento é a ferramenta mais importante da sua vida e, é olhando para si e não para o mal que lhe é provocado, que você faz as pazes com o seu destino — e passa a entender que não existem injustiçados, vítimas ou alguém onde todo o azar do mundo se concentra: você só é mais um num mundo adulto difícil pra caralh* de sobreviver. Não, não somos tão especiais assim, mas devemos nos tratar como se fôssemos.

Se não existe luz sem as trevas, não há também como reconhecermos que nosso estado é de graça sem passarmos pela desgraça, um paradoxo que faz da clássica máxima "só sabe exatamente como é aquele que vive", uma perfeita, sincera e dolorosa verdade.

O que julgo ser uma vida interessante é uma vida na qual nos permitimos ter alguma dose de surpresa. Veja bem, imprevistos também são surpresas, problemas são surpresas. Nossa felicidade implica em conhecer a parte ruim das coisas boas. Não adianta a gente achar que está com a vida ganha, o emprego garantido, as contas pagas e tudo estabilizado. Se você tem um coração batendo no peito corre o risco desse mesmo coração parar de bater, de sofrer porque alguém especial te deixou ou de perder todas as coisas que tinha certeza que jamais perderia.

Vivemos a nossa vida tão focados na tal felicidade programadinha, de revista, da novela da Globo, que cortamos as ousadias, evitamos os tombos e, em resultado disso, morrermos de tédio — e confundirmos a ausência de emoção com a infelicidade. Vivemos uma vida teoricamente mais segura, mas infinitamente menos saborosa. E são tantas as contradições que podem caber no tal conceito de felicidade, que se eu falar aqui que sei os caminhos para tal estado de graça, estaria mentindo.

Todos os dias, eu luto por uma vida interessante. Faço novos caminhos, construo diferentes amizades, mudo meus planos, me surpreendo experimentando algo novo, nem que seja um prato diferente no restaurante por quilo. Busque ouvir os outros, aprenda com eles. Somos sim, capazes de viver vidas inteiras apenas observando e contando, aqui e ali, os pequenos prazeres que nos cercam e que, quase sempre, custam bem pouco.

Se sua vida não for interessante, mude qualquer ponto dela, tente outra coisa, olhe para o outro lado, faça diferente. E, claro, não seja tão duro com as suas expectativas. Quase sempre, elas são mais dos outros que nossas.