O Poder de um Machado Negro

Fatos como esses não podem ser negligenciados

Os mais jovens conhecem a história do Django de Tarantino, aquele com o D mudo. O negro alforriado que jura vingança aqueles que torturaram e maltrataram sua amada. A história contada por Tarantino reflete questões atuais, mesmo em um contexto situado séculos atrás. Comoveu o público no lançamento, mostrando o herói negro subjugando o branco dominador da época. Django Livre é um dos diversos títulos contemporâneos que da voz a essa quebra de padrão do herói idealizado: branco, loiro e moralmente justo. Django trás dentro de sua essência aquele desejo de vingança, aquela revolta com o status quo que determina que sua pele o torna inferior.

Os mais antigos também se recordarão de como essa história é um paralelo cinematográfico do autor da seguinte frase:

“Já mostrei como um homem foi feito escravo. Agora, conto como um escravo se tornou novamente um homem”

Frederick Douglass (1818 - 1895) foi um progressista, um revolucionário, um dos homens mais importantes da história dos Estados Unidos, e um escravo. Viveu na pele a servidão involuntária devido ao sistema que cresceu, mas através da intelectualidade e de sua inteligência, se tornou um homem livre. Douglass foi um dos primeiros símbolos da luta pela igualdade nos EUA, se tornando uma figura importante na Guerra da Secessão e na consequente abolição da escravatura.

Não acho tão difícil acreditar em como a figura de Frederick Douglass influenciou Tarantino no desenvolvimento do seu Django, aquele com o D mudo. A história, mesmo séculos passados, continua influente no presente, na criação de ideais e no mantenimento de lutas por igualdades sociais. Temos todos esses exemplos internacionais de luta pela liberdade e igualdade de direitos, independente de suas cores. Mas, chega de falar sobre as terras além de nossas fronteiras. Quero falar aqui sobre aquele é um dos meus escritores favoritos de toda a história da literatura nacional.

Fonte: Campanha Machado de Assis Real

Ele nasceu no Morro do Livramento enquanto o Rio ainda era capital, não da República, mas do Reino. Era filho de pardos, descendentes de alforriados. Vinha de família pobre e, não se adequando a escola da época, teve seus estudos de latim guiados através do Padre Silveira Sarmento, religioso da região.

Nunca fez uma faculdade sequer (algo que sugerem ser elementar para a formação de um “bom escritor” hoje em dia). Era ligado a vida boêmia da capital. Graças ao seu intelecto, assim como Douglass, pode subir na vida, chegando a jornais, grupos seletos da sociedade e até aos mais altos patamares da literatura, sendo o primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

Machado de Assis (1839 -1908) era negro. Não se diz isso nas escolas. Não se comenta sobre isso nos livros e em seus prefácios, nem mesmo na última edição que li, feita pela Companhia das Letras, chega-se a falar sobre sua pele e sua origem em família pobre. Esconde-se o Machado real, como se ao fazê-lo branco aos olhos da sociedade ainda fosse lhe conceder algo a mais. Como se suas obras não fossem suficientemente geniais por si só. E isso é um imenso crime, pois deixar esse fato de lado é fechar um dos olhos para o poder magnânimo que a escrita de Machado de Assis tinha.

Machado teve seu berço na periferia, na pobreza, no esquecimento social. Quase tudo no ambiente ao seu redor poderia conduzir um dos maiores gênios da humanidade ao ostracismo, ao esquecimento. Uma combinação de golpes do destino e o próprio talento da criança, apresentado desde pequeno, fez com que ele saísse do circulo pela tangente e começasse, a partir dai, sua jornada rumo a eternidade. E mesmo, assim, durante essa jornada, a sociedade conseguiu empalidecer sua tez. Como se fosse necessário.

A imensa inteligência e culturas deste autor fizeram com que ele se tornasse um mago (ou melhor, um Bruxo do Cosme Velho) na arte do sarcasmo, da ironia e do humor por entrelinhas. Tudo isso é explicito em obras como Alienista, Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Agora, adicionando a tudo isto a lente factual de sua cor, sua origem e como isso tudo influenciava os pensamentos e preconceitos da época (e ainda influenciam) podemos enxergar mais uma camada de toda essa habilidade de Machado de Assis. Suas obras, diferente de Douglass, não retratavam principalmente a jornada do negro, mas realizavam a crítica social através da sátira. Machado escrevia sobre a realidade daqueles que o prejulgavam, mostrando-o com todos seus defeitos e problemas através do Realismo. Isso era genial, único e incrivelmente engenhoso. Abrir os olhos para essa realidade só aumenta o poder das habilidades de Machado, muito superiores a outros escritores da época, com seus bacharéis e famílias ricas.

Agora, um rápido pulo para o presente. Até 2014, segundo a Universidade de Brasília (UNB), apenas 2,5% dos romancistas brasileiros eram negros. Vejam, passaram-se mais de dois séculos do nascimento de Machado de Assis. O quanto saber de sua origem e seu tom de pele poderia mudar isso? o quanto influenciaria positivamente jovens que cresceram com a sociedade pensando como Baco Exu do Blues nos descreve em Bluesman:

Eles querem um preto com arma pra cima
Num clipe na favela gritando “cocaína”
Querem que nossa pele seja a pele do crime.
Que Pantera Negra só seja um filme.

Querer que Pantera Negra só seja um filme e que Machado de Assis seja só um escritor como qualquer outro é fechar os olhos para o que esses filmes e autores não se tornem referências para próximas gerações. Negligenciar as causas e lutas que esses símbolos defendem é ser condicente com um racismo histórico. Machado era negro e essa errata deve ser aplicada em toda publicação futura. É importante deixar claro para a juventude periférica que do mesmo lugar onde ela vive nasceu um dos maiores escritores da humanidade.

Eu quero ver um novo Machado Negro saindo do Morro do Livramento. Eu quero ver os artistas da Zona Leste de São Paulo e de todas as regiões periféricas do Brasil e do Mundo voarem pela Terra espalhando suas culturas. E quero, acima de tudo, que a sociedade jamais deixe tamanho erro acontecer novamente na história.