Por Ivan Monteiro. Edição e Revisão: Renato Conceição.

O poder feminino domina as séries

Independentes, livres, confusas, poderosas… e rainhas.

“Adorei o fato de você apoiar o seu marido. Muitas pessoas da minha idade acreditam que é um retrocesso, mas eu acho que é um prenúncio de um novo tipo de feminismo. É como Huma Abedin, sabe?”

A frase acima está em um dos poucos diálogos que citaram o feminismo de forma direta durante as sete temporadas de The Good Wife, seriado que teve seu final exibido na metade desse ano. Mas quem é a figura citada por Hannah ao tecer um elogio à protagonista, Alicia Florrick?

Huma Abedin é assessora pessoal de Hilary Clinton desde os tempos em que esta era primeira dama. Cercada de controvérsias, ela colaborou para que Hilary chegasse ao centro do debate mundial e se tornasse a primeira mulher com chances reais de ser eleita presidente dos Estados Unidos.

Alicia apoiou o marido e viu sua vida transformada.

Para quem assistiu à série, não é necessário dizer que a trajetória de Alicia (Julianna Margulies) é baseada na carreira de Hilary. As duas têm como maior ato, pessoal e político, o gesto de apoiar incondicionalmente o marido após um escândalo sexual de grandes proporções. O final da trajetória de Alicia foi simbólico, em um ano que a TV foi dominada por personagens que possuem um olhar feminino humanizado, passível de erros e equívocos, mas autênticos, frutos de uma busca pela liberdade.

Alicia recomeçou após o escândalo e voltou a trabalhar. Conciliou a tumultuada vida familiar com a pressão da profissão. O casamento de aparências atrapalhou suas escolhas pessoais, por isso abdicou de uma paixão que logo virou trauma. Com o tempo, “a boa esposa” foi mais do que se empoderando, ela assumiu sua individualidade, passando a colocar o sucesso profissional e de sua família acima de tudo.

Em um final bem metafórico, Alicia leva um tapa de sua parceira de longa data, Diane Lockhart (Christiane Baranski) — esta que desejava abrir uma firma apenas de sócias do gênero feminino, visando a atual conjectura do mercado. Alicia teve uma atitude controversa, oriunda de um desejo particular. Mereceu o tapa. Mas, ao mesmo tempo, poderia ter levantado bandeiras, como assessores políticos almejavam para sua carreira, mas ela, no fundo, desejou apenas se libertar da única maldição da sua vida: ter escolhido viver na sombra do marido por tanto tempo.

Na sombra da coroa

A Netflix estreou neste ano The Crown, série que resgata um dos maiores símbolos de líderes do gênero feminino da história: a Rainha Elizabeth II, vivida por Claire Foy. Focada nos primeiros instantes após a morte de seu pai, George VI, na série, Elizabeth é uma jovem que precisa conciliar os interesses da monarquia, suas leis e regras, com o momento político de uma Inglaterra em grande transformação e protagonista do cenário mundial pós-guerra.

Sua ascensão ao poder acontece junto com a nomeação do conservador Winston Churchill (John Lithgow) como Primeiro Ministro (pela segunda vez) e problemas familiares, como o desejo de sua irmã de casar com um homem divorciado e a constante presença de seu tio, que anteriormente abdicou do trono para se casar com uma plebeia considerada indigna para viver na corte real. Para completar, o marido, Philip (Matt Smith) começa a se sentir incomodado ao ficar sem grande atividade, à sombra da coroa.

Churchill que nunca se sentava para manter certa soberania, no final se rende.

Essa sombra, na verdade, atinge todos personagens em The Crown. Quebrar paradigmas seculares não é tão fácil, afinal, aos poucos, a realeza vai perdendo sua influência, tornando-se útil apenas para a indústria de fofoca. Resta a quem está no comando tentar manter a dignidade do título e utilizar do seu simbólico poder para fazer alguma diferença. Isso pede coragem e autoridade de rei ou rainha.

Elizabeth questiona alguns costumes que estão diretamente relacionados a educação de mulheres durante o amadurecimento. Não teve aulas específicas de escolas normais. Aprendeu principalmente costura, etiqueta e legislação (o que, segundo a mãe, é o que importa para o seu cargo). No entanto, aos poucos, ela vai correndo atrás de instrução para não fica à mercê das intrigas que estão ao redor, sejam elas políticas ou relacionadas ao funcionamento da monarquia.

Uma bela cena que retrata o interesse da Rainha de buscar o conhecimento, é quando ela está à espera de um professor que contratou para lhe dar aulas, quando ao fundo, seus filhos, entre eles o príncipe Charles, está aprendendo astronomia — algo que revela o tratamento diferente de meninos e meninas na época, e não uma questão de importância estratégica, como sua mãe acreditava.

Outras mulheres, mesmos dilemas

Outras séries como The Fall e House of Cards também contribuíram para com o hall de personagens que estão buscando seguir o próprio rumo ou que ao menos cogitam isso.

Na série irlandesa, a investigadora vivida por Gillian Anderson perseguiu um serial killer que tratava, literalmente, suas vítimas (mulheres) como objetos para saciar seu obscuro prazer. Todavia, o principal embate nem sempre acontecia entre ela e o monstro, mas sim em seu cotidiano no ambiente profissional, sendo julgada por ser uma mulher imponente e sexualmente dominadora, seja por seus colegas de trabalho, pela imprensa ou pela opinião pública.

Lado a lado: Claire se impôs ao ver sua popularidade com a opinião pública.

Em House of Cards, Claire, evocou Evita Perón para sair das sombras do marido e se sobressair. Na ausência do marido, ela, por pouco, não tomou as rédeas das estratégias políticas. Foi tão longe, que assumiu a vontade de assumir a cadeira da vice-presidência. Um absurdo, se considerarmos a forma como ela o faz, claro, mas não para quem tem o objetivo de ser tão poderosa quanto o parceiro.

A jornada de Claire é tão sombria quanto a do seu marido Frank Underwood (Kevin Spacey). Mas ela é mais popular do que ele, o que já garante boas conquistas no jogo pelo poder.

Ainda são várias outras séries que estão no ar com mulheres que não almejam, necessariamente, ser símbolos feministas ou que torcem contra os homens. São personagens humanizadas, com o desejo de conquistar seus objetivos custe o que custar. Utilizam de seus princípios (éticos ou não), de sua coragem, inteligência e perspicácia para avançar nesse mundo ainda dominado por pensamentos retrógrados e machistas.

Elas não levantam bandeiras, longe disso. Almejam apenas seguir suas vidas, vencer lutas diárias, ter liberdade para acertar ou errar quantas vezes precisarem. Buscam o poder necessário para, quando levarem um tapa da vida, rapidamente, se reerguerem com mais vontade de seguir em frente.