O porquê de você pensar o que pensa

Decerto que você nunca se questionou o porquê de você pensar o que pensa; não me refiro a um “por que” do tipo justificativo, por exemplo, podemos facilmente encontrar o porquê de nossa opção política, ou o porquê de nosso pessimismo. Esses porquês justificam nossas escolhas e não é deles que me refiro. Quero ir mais profundo nisso: O que há antes do pensamento justificativo? Como surgiu o “broto” do pensamento X em nossa cabeça?

Antes de escolhermos um lado na política, sequer sabíamos o que era política. Conforme vivemos em sociedade, vamos vinculando nossas vivências com nossos aprendizados e nossas interpretações pessoais. Nossos pais nos influenciam, nossos amigos, nossos professores, os filmes que assistimos, o bairro em que vivemos. Tudo ao nosso redor está em movimento, tal como nós estamos; um movimento contínuo de agregação. Toda essa dinâmica, desde nosso nascimento, vai guiando nossos pensamentos, evoluindo-os ou não, significando-os de incontáveis formas.

Pois bem, antes de você pensar o que pensa, muitas outras pessoas compartilharam contigo o que elas pensaram! Parece louco? Pois é verdade. Antes de você decidir que ama chocolate, sua mãe achou bonito oferecer um bolo de chocolate para você destruir enquanto ela fotografa (e você, como um bom e eficaz bebe, destruiu o bolo e degustou do bolo) assim foi apresentada(o) ao chocolate à luz da frase (em meio a risos, piadas, carinho e fotografia). O mundo do açúcar chegou cedo seu paladar e já te enfeitiçou. Hoje em dia você defende com unhas e dentes que ama chocolate (principalmente bolo) e, bem, não há problema nenhum nisso (quem é que não gosta de bolo afinal?) você pode amar algo que alguém lhe apresentou, só precisa se lembrar de que esse algo não surgiu, de repente, de você. Aos dois anos de idade você não disse, do nada, “quero bolo”.

Meu ponto é, assim como gostar de chocolate é algo completamente relacional, ou seja, você precisa que alguém te apresente o chocolate para que você goste; pensar segue o mesmo ritmo, a menos, claro, que você questione mais do que conclua.

O pensamento é assim, ele vem conforme nos relacionamos no mundo. E vai tomando forma de acordo com o que interpretamos (interpretar também é aprendido, vale lembrar disso). Para fugir do ciclo de eterna repetição de pensamentos que passam para lá e para cá, de cabeça em cabeça, num mar de interpretações meio bagunçadas, precisamos parar de 1) encontrar justificativas para firmar os pensamentos; 2) crer no que pensa mais do que pensar no que pensa; 3) pensar só quando se está com a mente agitada — este último é importante, pois, para que você pense por você mesmo, você precisa de solidão e silêncio, pelo tempo que for possível; pois, frente ao computador, entre amigos, entre família, lendo um livro ou frente à televisão NINGUÉM pensa; repito, ninguém consegue pensar por si mesmo nessas situações — talvez você diga que no caso do livro, ele incentiva a pensar; bem, depende do livro (depois a gente entra nessa questão).

Certo, agora você sabe que você pensa o que pensa porque não existe só você de humano no mundo e nessa dinâmica de relações, você vai aprendendo a pensar o que pensa, aprendendo a interpretar o mundo e sendo influenciado pelo mundo.

Agora você sabe que você pensa o que pensa porque anda lendo muita notícia na internet, muita corrente de Whatsapp e muito Jornal na televisão; e também porquê você está sempre com pessoas, virtuais ou não, sempre está discutindo com alguém, conversando, se envolvendo de alguma maneira.

Agora você sabe que você está seguindo um rumo de pensamento bem comum, parecido com as pessoas no geral; dentro de um ciclo que não é lá grande coisa, soa mais como autoenganação do que opinião própria. E diante disso, posso abrir minha experiência para você, para que, assim como eu, tente quebrar este ciclo.

Tudo começará quando você parar de encontrar justificativas (apenas pare de defender o que você acredita), e tão logo você terá um tipo de abstinência. Você sentirá necessidade de argumentar com todos ainda mais impetuosamente; tanto que começará a falar sozinho para provar a si mesmo que todos os seus pensamentos fazem sentidos. Calma, é bom que você fale consigo mesmo, faz parte do processo. Depois você passará a questionar seu comportamento meio maluco e, tudo bem, vai seguindo o ritmo.

O questionamento, um vez despertado, se torna rapidamente um monstro gigante de cinco mil cabeças, pois é, acredite, ele é um monstro bonzinho, mas assusta. Mantenha o foco nele e deixe-o ser o que é. Ah, antes de tudo, lembre-se de se afastar do mundo. Desligue os eletrônicos, desmarque com os amigos, dá um tempo na família; fique só, completamente só, caso contrário nenhum dos ensinamentos acima serão eficazes.

Pois bem, digamos que você seguiu os três passos, sentiu abstinência, conheceu o monstro do questionamento e agora está receoso, pois, tudo perdeu o sentido e você começou a questionar o que antes lhe era inquestionável — está sentindo uma angústia chata, um tédio imenso. Respire fundo, há um preço que deve ser pago para pensar por si mesmo e este preço é a destruição de algumas verdades; destruir verdades traz uma angústia sim, e um tédio tão grande quanto, mas tenha certeza, isso passa e essas verdades não farão falta depois. Nada é mais gratificante do que você mesmo criar os significados de sua vida, as verdades que moverão o seu ser neste caminho da existência, verdades tão dinâmicas quanto você é. Portanto, “continue a nadar”.

Importante: Não pare no meio. Não olhe demais para a angústia. Realmente, continue a nadar, caso contrário, você afunda. Pensar por si mesmo não é um mar de rosas, nem um mar de espinhos, está mais para uma montanha-russa. Se você está pensando que não é o tipo de pessoa que vive no ciclo de pensamento comum, é simples: Você está feliz e satisfeito com suas opiniões, crenças e pensamentos? Então você não está pensando por si mesmo. Pensar por si mesmo e ser feliz e satisfeito é uma utopia; até porquê, quem pensa por si mesmo logo compreende que ser feliz, satisfeito e ter certeza são coisas tão efêmeras quanto a vida.

Vou contar uma coisa para você: Hoje em dia, quando alguém pergunta minha opinião sobre algo, eu respondo mais com dúvidas do que com certezas; sigo o caminho da lógica, mas acabo me encontrando com as relatividades da existência humana, lembro-me o quanto a nossa mente é um universo imensurável… enfim, no final costumam me dizer: “Você é Filósofa?” — bem, não é que eu seja Filósofa, acontece que eu penso, por mim mesma e, quando você começa a pensar por si, alguma coisa muda ali na cabeça; como se o mundo se tornasse tão mais complexo do que imaginávamos que pensar em ter uma opinião e uma posição sobre coisas em movimento é meio tolo demais. Ao contrário da dar opinião e mostrar uma posição, você começa a preferir a troca, o compartilhamento de ideias, de dúvidas, de vivências.

Depois de tudo isso escrito e, por você, lido, agora sim você pode me responder: E aí, você, de fato, pensa?