O Primeiro Homem é muito mais que uma mera biografia

Aos 33 anos, Damien Chazelle marcou seu nome na história do cinema como o mais novo diretor a receber um Oscar, em 2017. Com dois filmes no currículo, Whiplash e La La Land, o americano já se tornou uma daquelas figuras em que todos prestam atenção quando possui um projeto em andamento. O Primeiro Homem, adaptação do livro homônimo, que conta a história de Neil Armstrong, é o da vez.

A história gira em torno de todo o processo da viagem espacial Apollo 11 sob o ponto de vista do primeiro homem a pisar na lua, em 1969, que transformou Neil em um herói e um dos grandes ícones da história mundial.

O maior desafio de O Primeiro Homem é trazer a história com um ar de novidade. Desde criança o público sabe do que aconteceu, de como a missão foi bem-sucedida e de como Armstrong se tornou um herói. Chazelle, ao lado do roteirista John Singer, sabem bem como isso poderia influenciar no filme e conseguem colocar um novo olhar sob a missão, com menos foco na missão e todas as atenções voltadas para o personagem principal. Ao longo do filme, o desafio acaba se tornando o maior trunfo.

Além de mostrar como funcionam os bastidores de uma operação espacial, desde o seu projeto inicial até sua execução, a história reforça o lado humano de Armstrong e como foi todo o caminho percorrido até ele chegar na lua. Ali o público conhece sua estrutura familiar, seus amigos e todas as angústias do personagem, além de todos os sacrifícios que precisou fazer até chegar onde chegou.

E se a humanização do personagem é impressionante, a técnica do diretor também não fica para trás. Ver o filme na maior tela com o maior som possível, é quase uma obrigação, já que ele funciona como uma experiência imersiva, com a câmera fechada nos rostos dos personagens e as viagens espaciais coladas nos astronautas, sem muito tempo para a apreciação do espaço em plano aberto. O objetivo do filme não é proporcionar um deleite visual, ainda que o tenha, mas dar a impressão de que o público está ali, muito próximo aos acontecimentos. É uma direção dura, que as vezes cansa, mas se mantém impecável dentro de sua proposta.

Ryan Gosling mais uma vez se destaca no papel do protagonista. Seu perfil mais uma vez se encaixa com o personagem em um tom sereno e retraído, mas que sabe colocar uma carga de emoção quando necessário. Ele entendeu o tom do personagem, que não encara tudo aquilo como uma aventura, mas um sonho carregado de dores e custos. Gosling, que já havia trabalhado com Chazelle em La La Land, mostra que está no auge e se mostra maduro a cada filme.

Damien Chazelle em ação com Ryan Gosling (Divulgação)

Outro grande destaque, tanto quanto Gosling é Claire Foy, no papel de Janet, esposa de Armstrong. A personagem é forte, cresce em tela e marca presença de maneira independente, sem precisar ser uma escada ou apenas uma coadjuvante.

O Primeiro Homem é um daqueles filmes feitos para se digerir aos poucos, durante e depois dos créditos. Muito mais que um filme sobre espaço ou uma mera biografia, ele fala sobre seres humanos, todos eles, que possuem sonhos e precisam passar por sacrifícios e superações para alcança-los. Chazelle entendeu isso e faz com que o final ou desfecho pouco importe, aqui o que realmente vale é o caminho percorrido.