O problema do feminismo da Marie Claire

Quinze dias após a morte de Marielle Franco, a capa demonstra que a revista está desatualizada sobre o que significa ser feminista no Brasil

Angela Davis: nome que vem sendo deturpado para se tornar palatável, a exemplo do que aconteceu com a imagem de Frida Kahlo

Bora lá emitir aquela opinião que ninguém pediu mas que eu sinto ser necessária diante da polêmica instaurada por causa da capa da Marie Claire deste mês.

Eu realmente gostaria de olhar os diversos lados, as diversas verdades sobre isso, e não impor a MINHA verdade. Todavia, depois de analisar todos esses vieses, naturalmente eu tomei um partido, mas quero deixá-lo claro, e não apenas dizer se sou contra ou a favor da tal capa usando o argumento “porque sim”. Sem mais delongas, eis que vamos à análise.

Para avaliar a capa da Marie Claire de forma mais justa, decidi compará-la a uma concorrente direta, a revista Claudia. Ambas compartilham o mesmo mercado e são direcionadas a públicos muito semelhantes. Não faria sentido comparar uma das revistas a uma publicação científica.

Também me limitei a falar apenas da capa por uma razão: é ela que chama atenção para o conteúdo. Embora o mais lógico seja consumir o conteúdo completo, para realizar o marketing em um mercado superlotado como o de publicações impressas, a capa faz um papel que equivale a uma porcentagem altíssima de venda e retenção do leitor — sad, but true.

A capa da CLAUDIA Online veio antes e traz seis nomes:

  • Pauliane Amaral — trabalha o debate sobre feminicídio após sua irmã Mayara ter sido vítima desse tipo de crime.
  • Maria da Penha — baleada pelo marido, deu nome à lei de proteção a mulheres contra a violência doméstica. A lei é referência mundial de combate à violência de gênero.
  • Monalysa Alcantara — miss que usa a voz contra a objetificação do corpo da mulher negra
  • Débora da Silva — uma das líderes do Mães de Maio, movimento que denuncia e luta contra o genocídio da juventude negra.
  • Juliana de Faria — publicitária que sofreu assédio na infância e criou um manifesto contra cantadas de rua, que são abuso fantasiado de elogio.
  • Valentiza Schulz — aos 11 anos, após participar de uma edição do Masterchef Junior, sofreu assédio violentíssimo na internet por parte de homens que insinuavam ações sexuais contra a garota. Hoje, ela discute o direito das meninas no Youtube.

A capa da revista Marie Claire traz cinco atrizes, sendo apenas uma negra. Na capa, não há indicação sobre projetos ou ações que as meninas tenham feito em prol do feminismo.

Aqui, abro um parênteses para frisar a importância da não individualização da questão. Não é para falar que as atrizes são desimportantes em seus meios. Particularmente eu não acho que caiba um juízo de valor aqui, algum tipo de colocação moral. Aqui, a análise é semiótica: analisar os signos de ambas as capas, e como tais signos buscam comunicar o que é chamado de feminismo. Estamos entendidos sobre isso antes que alguém venha falar que estou impedindo as atrizes de exercerem seu trabalho? Ok, fecha parênteses.

Dito isso, quais são tais signos que podemos ver nas capas? De um lado, mulheres que sofreram publicamente as muitas facetas do machismo (e do racismo, um braço poderoso da misoginia). De outro, rostos que estão na moda. E por moda, entendam a questão da sazonalidade, mesmo.

1. Falta de mulheres mais velhas

Foi argumentado que a capa da Marie Claire foca no feminismo do futuro, então obviamente traz a imagem de jovens que estão fazendo a diferença.
É muito perigoso que se fale de novos feminismos sem falar das mulheres mais velhas. Inclusive, acho um despautério que na mesma capa tenham colocado os nomes de Jurema Werneck e Marielle Franco em letras minúsculas.

Eu não sei exatamente o que é chamado de novo feminismo. Se for a atuação de mulheres abaixo de 35 anos, eu acho totalmente sem propósito. Não existe uma onda “nova” ou a colocação de novas teorias científicas, com base em metodologias. O que existe é a reunião de mulheres jovens que estudam e buscam por em prática aquilo que já vem sendo falado por mulheres que vieram muito antes de nós — e aqui a gente pode inserir a lista que sempre usamos quando falamos de feministas com história: Lélia Gonzáles, Bell Hooks, Sueli Carneiro, Audre Lorde, Angela Davis.

Temos figuras jovens lutando, é óbvio, mas tenho, pra mim, que é pouco verossímil comparar Malala com uma persona — e, mais uma vez, digo que isso não é uma diminuição da profissão de atriz, mas uma colocação sobre os pesos políticos quando temos dois exemplos distintos.

Falar de feminismo é muito importante. Quando temos uma capa que traz duas gerações, como Debora Silva e Valentina, o que vemos são duas mulheres de realidades distantes, mas que vivenciaram as piores faces da misoginia de alguma forma. Mas, apenas colocar cinco rostos em voga na mídia sem erguer um histórico político, esvazia bastante o signo do feminismo quando o leitor ainda não chegou no miolo da matéria. Na verdade, esvazia completamente, ao meu ver.

Então, falar de mulheres jovens que militam pelo feminismo sem falar das nossas ancestrais, é desrespeitoso demais. Usar os nomes delas pra ganhar fama por achar que feminismo é cool, sem ter a disposição de enfrentar o que elas enfrentaram, então…

2. A falta de mulheres gordas

Tão óbvio que dispensa o léxico. Cinco rostos que vestem manequim 38. Pode não parecer, mas é uma violência simbólica. A mensagem é: o feminismo é belo, alinhado ao padrão do frescor da juventude e da magreza. Bastante contraproducente. Mulheres gordas falando sobre feminismo, moda e body positive não faltam: Flavia Durante, Alexandra Gurgel, Thais Carla, Luiza Junqueira, Mariana Rodrigues, Preta Rara.

3. A falta de mulheres negras

Resguardando a fonte, também foi dito que Erika Januza foi a escolhida para a capa por ser a única negra de destaque da Rede Globo.

  • Mentira. Há também Thaís Araújo, Cris Vianna, Sharon Menezes, Maju Coutinnho, etc. São mulheres negras em destaque no que fazem.
  • Na verdade, minha questão não é por serem atrizes e nem que deveriam ser atrizes militantes. Fiz a comparação com a Claudia pra mostrar como uma editoria pareceu muito mais preocupada em mostrar o conteúdo das personagens da matéria sobre feminismo, enquanto a Marie Claire pareceu prezar apenas a estética.

Bom, a reação à capa é até previsível. Em pleno 2018, falar de feminismo sem trabalhar inclusão de diferentes mulheres, é tiro no pé. A população brasileira não é 80% branca e 100% magra manequim 38, então um trabalho mais apurado dos editores poderia ter evitado o problema.

Entretanto, não é o fim do mundo. Fim do mundo é bater o pé para defender um trabalho que claramente não está legal.

É possível mudar, é possível evoluir, é possível realizar um trabalho que seja realmente informativo e que não se assemelhe a só mais um editorial de moda. Esse trabalho da Marie Claire mostra que há uma deficiência interna na revista e que se quiserem entrar nessa seara precisarão estudar e investigar melhor sobre o que está sendo feito nos incontáveis coletivos e organizações feministas no Brasil. Precisarão saber que o feminismo, o conjunto de estudos e práticas em prol dos direitos políticos e reprodutivos das mulheres, precisa ser tratado com muita seriedade e comprometimento.

Relembrando: tudo isso foi dito com base na análise das capas. Tenho pra mim que as capas precisam informar melhor um conteúdo mais substancioso. A revista é um produto informativo, o mercado editorial nasce com esse propósito, e se tanta gente sentiu falta disso na capa da Marie Claire, cabe rever o trabalho feito, sem celeumas e egos feridos.