František Kafka tem um jeito peculiar de escrever e eu posso provar.

Ricardo Ramos
Aug 3 · 5 min read

“ — Neste mesmo instante, o juiz de instrução ao meu lado dirige um sinal de combinado a algum de entre vós. Há, portanto, entre vós gente que é manipulada a partir desse estrado. Ignoro se este sinal tinha por fim provocar os assobios ou os aplausos, e ao divulgar desde já este fato, renuncio em perfeito conhecimento de causa a descobrir o significado desse sinal. Ême completamente indiferente e autorizo publicamente o Senhor Juiz de Instrução a transmitir aos seus empregados, ali na plateia, as suas ordens em voz alta e inteligível em vez de sinais furtivos […]”.

Esse trecho do livro foi um dos ganchos mais incríveis que tomei lendo essa obra. O Josef K. personagem da trama que está sendo julgado, conversa publicamente sobre tudo que lhe ocorre de uma maneira austera, branda e ao mesmo tempo triste. Talvez uma boa intitulação que resuma O Processo de Kafka seja: Tragicômico.

Mas eu estou me adiantando bastante, calma lá

“Franz Kafka foi um escritor de língua alemã, autor de romances e contos, considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX. A maior parte de sua obra, como A Metamorfose, O Processo e O Castelo, está repleta de temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, conflito entre pais e filhos, personagens com missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transformações místicas”

Diz a Wikipédia

Toda a obra publicada de Kafka, com exceção de algumas cartas que escreveu em tcheco para Milena Jesenská, foi escrita em alemão. O pouco que foi publicado em sua vida atraiu pouca atenção pública. Kafka não terminou nenhum de seus romances maiores e queimou cerca de 90% da sua própria obra, grande parte durante o período em que viveu em Berlim com Diamant, que o ajudou a queimar os rascunhos.

Alguns dos livros de Kafka são influenciados pelo expressionismo, apesar de a maior parte de sua produção literária ser associada com o gênero experimental do modernismo. Kafka também explora a questão dos conflito do homem com a burocracia. Wiliam Burrows afirma que o foco da obra de Kafka são os conceitos de luta, dor, solidão e a necessidade de relações. Outros, como Thomas Mann, veem a obra de Kafka como uma alegoria religiosa: uma missão, metafísica por natureza, para Deus.

A Obra

“— Não resta qualquer dúvida de que por detrás de todos os procedimentos deste tribunal, portanto no meu caso preciso, dissimula-se uma vasta organização. Uma organização que não só emprega guardas corruptos, inspetores estúpidos e juízes de instrução modestos no melhor dos casos, mas sustenta além disso uma alta magistratura com seu incontornável cortejo de oficiais de diligências, de escrivães, de polícias e de outros auxiliares, talvez até mesmo os seus carrascos, a palavra não me mete medo.[…]”.

A historia de Josef K. é simples. O Processo é um romance, que conta a história de um bancário que é processado sem saber o motivo, este é Josef K.

Na manhã em que completara 30 anos, Josef K. foi detido em seu próprio quarto por dois guardas, que tomaram o café que devia ter sido dele, e depois, sugeriram estarem sendo subornados. Neste momento inicia o pesadelo de Josef K., que foi detido sem ter feito mal algum.

Em Kafka, há uma “ordem da desordem”, um mundo que se estilhaça e põe em discussão da razão do Estado e a não razão do Direito, uma concepção que subsidia, interpretações absurdas e distorcidas da lei. Não se criam espaços para que sejam questionadas as leis aplicadas/aplicáveis, tampouco a legitimação das autoridades em suas várias estratificações. A ordem jurídica é cúmplice da intervenção estatal opressora, na medida em que legitima sua atuação pela perseguição, por um desvario circular que não cessa.

As mazelas do processo Kafkiano desnudam os tráficos de influência, os conchavos, os descaminhos, os bastidores que levam às ações a caminhos já demarcados, onde o que paira sobre o personagem, dentre outras coisas, é a ilusão de estar respaldado por um estado de direito.

Kafka descreve a estranheza de uma condição onde o homem descobre que a realidade é pior que o pesadelo. Existe uma conspiração de elementos perturbadores que conduzem a uma desagregação da subjetividade do indivíduo que se configura como a metáfora do labirinto, onde o único elemento tangível e palpável é composto pelo medo de se sentir o bode expiatório.

Josef K se vê impotente e perplexo diante de manejos jurídicos em um caos gerado pela manipulação do aparelho judiciário, o que lhe gera uma obsessão metafísica diante da negação da credibilidade da sua condição humana. Não há, para Josef K, qualquer possibilidade de redenção.

Operários, Tarsila do Amaral (1886–1073)

Tendo então uma obra tão densa como essa, podemos também fazer um paralelo entre a vida de Josef K. e as nossas. Seres humanos na prisão que é o mundo, apesar de não parecer, todos nós sofremos uma alta alienação, somos em partes controlados o tempo todo, sem conseguirmos achar respostas e explicações para nada, frente à um sistema doutrinador que estamos inseridos e que a todo o momento lança informações.

Na cultura pop essa característica de estar em um mundo tão complicado e caótico onde isso afeta diretamente a psiquê de quem se insere nele e está acordado enxergando tudo isso, é a essência do niilismo. Não é necessariamente que a obra de Kafka fale disso, mas ao menos, dá para se traçar esse paralelo.

O texto original de Kafka contém algumas anotações extra-romance, como partes riscadas do manuscrito original, que evidenciam toda reticência e emoção do autor, ao por as palavras no lugar onde deveriam, e claro, optar por algumas em detrimento de outras. O motivo disto não é conhecido, uma das possibilidade aventadas seria uma “autocensura”, o que parece provável, outra talvez seria a tentativa de tornar a fala o mais universal possível, o que seria plausível, porque por mais que O Processo seja muito ligado a sua vivência, contém em si temas muito coletivos, profundamente ligados ao bem estar comum.

Kafka usa a história de seu personagem para demonstrar o quão diminuto pode ser o homem em comparação com o sistema que o cerca, sua crítica é certeira e pontual em tocar a alma do seu leitor.

“K. viu ainda, muito perto do rosto, os cavalheiros encostados um ao outro, face com face, a observarem o cumprimento da sentença.

“ — Como um cão!- disse ele, era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe.”

Quando Franz Kafka fala das irracionalidades do estado diz também sobre os Governos do mundo afora. Arte: Daniel Caseiro colagem de foto de Brasilia e quadro O Castelo dos Pirineus, de René Magritte.

“Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.”
— František Kafka

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Ricardo Ramos

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Graduating in Public Relations from the Federal University of Amazonas. Intern of the International Relations and Interinstitutional Relations Office.

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