O que as sucessivas tragédias ambientais nos ensinaram sobre gestão de crise?

Spoiler: nada

Nos deparamos com mais uma tragédia ambiental na região de Minas Gerais, com o rompimento de uma barragem em Brumadinho. Ainda estamos contando os mortos e já não há sequer espanto, já que a tragédia de Mariana serviu para absorver o primeiro impacto de um evento dessa magnitude. Todos assistem tristes e atônitos e perguntam-se como isto foi possível. A tragédia de Mariana não ensinou nada? Pois é, pergunta difícil, resposta fácil: não.

E aí é fácil também começarmos a relativizar dizendo que as coisas não são tão simples assim de se controlar e aí eu digo que são sim. Existem milhares de procedimentos e protocolos para os processos de qualidade, segurança, meio ambiente e saúde, existem centenas de profissionais extremamente qualificados, focados em prevenção, e aí se você não coloca esse background para funcionar não adiantar colocar o profissional de comunicação pálido na frente de um microfone fazendo um comunicado vazio de sentido. O que se pode dizer “sentimos muitos, mas não fizemos nada para evitar isso porque tinha custos e apostamos no cavalo errado?”.

É até bem inadequado falar em “gestão de crise” quando acontece uma coisa como essa. Gestão de crise no nível “catástrofe” é quando terroristas invadem, quando acontece um terremoto, quando cai um meteoro. O que acontece para culminar no rompimento de uma barragem é uma sucessão de erros que começam muito atrás e muito acima também, através de diretrizes que flertam com a irresponsabilidade e a omissão, cortando custos e investimentos em áreas vitais, abrindo mão da fiscalização e do controle. Uma barragem não rompe com um peteleco. É óbvio que muitas pessoas dentro da Vale sabiam do risco iminente. Sempre tem aquele um que avisa “isso vai dar merda”, e ninguém liga. Então o que acontece depois de um evento como esse não é gestão de crise é uma parca e um tanto inútil tentativa de redução de danos plus gestão de imagem porque mais uma vez uma correção efetiva de rumos está nas mãos das mesmas pessoas que invariavelmente permitiram que a situação chegasse onde chegou.

O problema é que entendemos (e via de regra tratamos) a “crise” apenas quando ela culmina e ceifa vidas. Ou dá um prejuízo grande demais para se ignorar. Quando na verdade a crise mesmo já estava instalada desde muito antes, refletida na visão descompromissada com a excelência dos processos em função da má administração. A crise está ativa e operante quando ninguém percebe (ou ignora solenemente) que uma barragem corre o risco de romper-se.

Em 2000 a Petrobras, um excelente case, esteve envolvida em uma série de acidentes ambientais com suas plataformas marítimas e a partir da consciência do severo dano que isso estava causando a sua imagem (que à época estava se tornando um dos seus ativos mais potentes), implementou uma série de mudanças estruturais nos seus processos de qualidade, segurança, meio ambiente, responsabilidade social, que efetivamente contribuíram para uma mudança mentalidade corporativa nos seus quadros de engenharia e tiveram um efeito real de qualidade e segurança. Perfeito? Claro que não. Mas mudanças possíveis e efetivas com uma simples mudança de foco.

Eu realmente tenho dificuldade de entender a contabilidade que passa na cabeça desses gestores. E não estou pedindo coisas como consciência social, responsabilidade com a comunidade do entorno, preocupação com o meio ambiente (até porque se qualquer um desses elementos fossem presentes nenhuma tragédia como essa aconteceria). Eu queria entender qual a conta que é feita para se achar que gerenciar os danos que um evento como esse causam custam menos que realizar ações preventivas. Porque é óbvio que é sobre dinheiro, não sejamos ingênuos. Isso que aconteceu é sobre ter balancetes azuis para mostrar para investidores, a custa de redução de manutenção e treinamento. O básico!

Eu poderia fechar esse artigo fazendo o popular chamado à consciência, mas é perda de tempo. Se a tragédia de Mariana, que foi imensa, não foi capaz de trazer isso, não serei eu que conseguirei. Se todas as outras tragédias ambientais pregressas e vindouras (sim, porque teremos mais, alguém duvida?), não são capazes de mobilizar mudanças gerenciais no intuito de fazer o mínimo, que seja então a boa e velha matemática. Ou será que os investidores internacionais ficarão felizes por muito tempo vendo como os processos brasileiros são relapsos e criminosos (eu evitei usar a palavra até aqui, mas é essa a palavra mesmo)? Será que os ativos continuarão fortes quando paira a desconfiança sobre a capacidade de se administrar um empreendimento sem que ele exploda e mate todo mundo em volta? Já que colocar a mão na consciência é difícil, coloquem a mão na calculadora.

Senão não há gestão de crise possível, não há milagre há ser feito para gerenciar imagem, as empresas não enganam mais ninguém com discursos bonitos.