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O que eu aprendi 1 ano após tirar a primeira habilitação

Depois de anos sendo apenas um passageiro — seja de transporte público ou particular — acabei iniciando as aulas teóricas e práticas para obter minha primeira habilitação de carro, projeto o qual fui postergando, por causa da falta de tempo e, sobretudo, dinheiro.

Pois então, foram necessários meses e duas reprovações na prova prática, até que a grande glória da primeira CNH foi alcançada, após muito frio na barriga e indignação pelos erros banais cometidos no circuito da prova — eu te juro, já estava tão bem-ambientado ao volante que o instrutor já me deixava levar o colorido carro da autoescola pelo trânsito da cidade de São Paulo. Modéstia à parte, aprendi rápido a dirigir, mas eu cometia todos os erros ridículos possíveis durante a prova prática.

E, dentro desse ano em que estive com minha habilitação provisória, passei a viver situações nos quais somente motoristas passam, dentro na rotina diária do leva e traz de carros pelas ruas e avenidas da maior metrópole brasileira. Sendo assim, passei a enxergar o trânsito sob um outro olhar: a do condutor. E é um pouco dessa visão que vou passar neste texto, de alguém que vive tanto o lado do usuário de transporte particular quanto o do usuário de transporte público.


Indústria da Multa não existe, amigo(a)

Acredito eu que uma parcela considerável de motoristas de carro já utilizaram o termo “Indústria da Multa”, após receberem em suas residências a temida cartinha do Detran e, por consequência, sentirem muita raiva disso. É uma raiva imaginável, dado que nunca é bom perder dinheiro, mas acreditar piamente que exista uma máfia gigantesca por trás de cada infração de trânsito cometida por motorista é algo, na minha opinião, um tanto quanto bizarro. Mas por que bizarro?

Pelo simples fato de que, na imensa maioria dos casos em que se ocorre uma infração, o motorista, de uma forma ou outra, estava errado. Oras, se um veículo passa em uma via a uma velocidade acima do permitido, o que é isso? Um erro do motorista. Assim como avançar o semáforo fechado. Um erro do motorista. Estacionar em local proibido, buzinar em rua de hospital, desrespeitar rodízio, todos esses citados são infrações de trânsito. Uma vez que você o comete, você esteve errado. Sim, há uma grande quantidade de radares pela cidade, contudo se você conduz o seu veículo automotor seguindo todas as regras de trânsito, você dificilmente levará autuado. Claro, haverão situações em que o motorista, na verdade, não cometeu a infração, mas isso não vem ao caso e não justifica tamanha celeuma em cima da tal da indústria da multa.

Nesse aspecto das infrações, o ponto é: quando estamos estressados, nos tornamos mais suscetíveis a cometer infrações. E é disso que vou comentar agora.

O trânsito pode nos deixar loucos

Durante alguns meses, eu fiz de carro um trajeto que se iniciava aproximadamente na Ponte do Limão e ia, primeiramente, até o Itaim Bibi, para depois terminar na Avenida Faria Lima, próximo ao Metrô.

Considerando que eu fazia tal trajeto sempre em horário de pico, tanto na ida quanto na volta, você, caro leitor, já deve estar imaginando o trânsito nessas horas, nessas regiões. É algo simplesmente infernal, dependendo do dia (quase todo dia). Um bom paulistano sabe o caos que é a Avenida Sumaré, Avenida Henrique Schaumann, Avenida Brasil e a Avenida Faria Lima na hora do rush.

Se durante o tempo que fiz isso eu ganhei alguns minutos em relação ao tempo gasto de metrô e ônibus, é possível dizer que perdi muita qualidade de vida nesse período, pois o estresse adquirido dentro do trânsito é bem grande. O estresse é causado pelo excesso de veículos, pelo fato de muitos agirem de forma totalmente imprudente e/ou distraída, pelo fato de ser um ambiente hostil onde quase todos buscam tirar vantagem em relação ao próximo, de forma a obter mais alguns minutos. Trata-se de um clima tão agressivo que é algo contagioso. Eu mesmo, em diversos momentos, estive ao ponto de fechar outros motoristas, num comportamento igualmente agressivo, num toma-lá-dá-cá sem fim.

Como resultado disso, passei a estar sempre cansado, no aspecto físico e, sobretudo, mental. Já chegava ao trabalho estressado e voltava para casa com a sensação de estar moído, e a motivação para fazer qualquer outra atividade beirava a zero.

São muitos carros nas ruas (ou: sobre a necessidade de se investir em meios de transporte alternativos)

A cidade já está saturada de carros, um meio de transporte naturalmente individual e, consequentemente, “egoísta”. Não cheguei a fazer nenhuma estimativa, mas é possível afirmar que a esmagadora maioria dos veículos não possuía a capacidade máxima de transporte de pessoas. Provavelmente você já viu a imagem abaixo:

Fonte da imagem: Reprodução/Internet

E ela diz muito sobre a necessidade cada vez mais urgente em se investir em transporte público e também em transportes alternativos mais ecológicos, como bicicletas. Você talvez deva pensar, “mas o trânsito já é absurdo, tirar espaço dos carros para colocar ciclovia e corredor de ônibus é sacanagem, né”. Eu não concordo com tal linha de raciocínio, porque os órgãos públicos precisam pensar em formas de incentivar o uso de transporte público em detrimento ao particular. Não se trata de prejudicar o motorista de carro, e sim de incentivar todos a usarem os ônibus, trens e metrôs, na medida do possível. Isso, claro, somente é efetivo caso haja investimento no aumento da quantidade e qualidade dos meios de transporte públicos. Daí que surgem os corredores, os ônibus e metrôs com ar condicionado, Wi-Fi etc. Estando eu dentro desse cotidiano, como motorista de carro, somente me fez perceber que quase não há mais espaço para carros, corroborando com a minha visão de que transporte público deve ser priorizado em relação ao particular.

O trânsito, muitas vezes, é burro

Vejo duas razões para acreditar nisso. Primeiro, por culpa nossa. Na avidez em tentar buscar espaço dentro do congestionado tráfego, acabamos por cometer pequenas barbeiragens que interrompem o fluxo de veículos, o que gera um efeito onda de pequenas freadas que resultam num súbito congestionamento. Além disso, muitos motoristas de carro se distraem com muita facilidade, conversando com o passageiro, ou no celular, ou mexendo no rádio etc. Isso acaba resultando em situações onde há um delay de reação ao abrir um semáforo, por exemplo. O vídeo abaixo explica melhor esses e diversos outros conceitos que comentei ao longo do texto.

“Uma solução simples para o trânsito”, tradução literal

Outra razão para o trânsito ser burro é a forma como os semáforos são gerenciados. Sinto falta de semáforos inteligentes, daqueles que ajustam o tempo de parada de acordo com a dinâmica das vias de trânsito. Talvez essa fosse uma forma, além das citadas acima, de tornar o trânsito da cidade um pouco menor, pois já me flagrei diversas vezes em vias totalmente congestionadas por conta de faróis mal-programados.

Quase nunca conseguimos atingir a velocidade máxima das vias (em dias de pico). E trafegar em menor velocidade é muito mais seguro

Em dias de semana, nos horários de pico, é praticamente impossível fazer com que o veículo atinja 50km/h de forma constante. São pouquíssimas as chances em que isso acontece, de fato, e chega a ser engraçado como as pessoas aqui na cidade se apegam em algo tão supérfluo e, ao mesmo tempo, impraticável na maioria do tempo.

Talvez somente nos fins de semana ou em alguns momentos fora do horário de pico que é possível atingir o limite de “50 por hora” com alguma plenitude e alguma constância, ou os 70km/h das vias expressas nas marginais. E, quando é possível atingir, percebe-se que a redução de velocidade torna o trânsito muito mais seguro, justamente porque o risco de acidentes diminui razoavelmente em velocidade reduzida. E essa percepção torna-se muito mais clara para alguém que está começando a dirigir, pois a segurança e controle do veículo é muito maior quando estamos andando mais devagar.

Mas, mesmo assim, sempre haverão aqueles que clamam pelo aumento de velocidade nas vias, sendo que tem até CERTOS PREFEITOS que utilizam disso como, pasmem, promessas eleitorais, ignorando todos os estudos que comprovam a diminuição em acidentes desde a implementação da redução das velocidades nas avenidas de São Paulo.

Manter um carro na cidade é caro. MUITO CARO.

Conta de padeiro que fiz, mas considerando somente o valor de estacionamento e de combustível, foram gastos aproximadamente R$600,00 por mês no trajeto casa-trabalho e trabalho-casa. Nessa conta, não incluí os gastos referentes à manutenção do veículo, seguro, licenciamento etc. É caro ter um carro na cidade de São Paulo, principalmente se compararmos com a economia diante da utilização do transporte público (R$230,00, considerando o ostentador BILHETE ÚNICO MENSAL INTEGRADO ❤ ).


E, considerando todos os problemas de trânsito que existem na cidade, cheguei à conclusão de que muito mais vale a pena fazer o trajeto até o trabalho utilizando o metrô + ônibus. Claro, é preciso tratar cada caso individualmente. Para um amigo meu, que mora em São Bernardo e trabalha no Morumbi, o transporte público é praticamente inviável, tornando-se vantajoso (ou até mesmo um mal necessário) utilizar o carro para tal trajeto. Como o meu itinerário está dentro da cidade de São Paulo, as vantagens do uso do transporte público, em minha opinião, são bem maiores. A quase mínima economia de tempo não equilibra o negativo saldo do estresse, do maior custo financeiro, da eterna preocupação com a integridade física do veículo. Mesmo sendo um motorista de carro, ainda acredito que grande parte dos problemas de trânsito da cidade de São Paulo só serão resolvidos se houver priorização dos transportes públicos e também mais ecológicos.

Além disso, a existe a sensação de que é preciso reeducar muitos motoristas que, de tão acostumados a um comportamento totalmente agressivo, acabam colaborando com a instauração desse modus operandi em praticamente todos que estão ali, com seus carros, no congestionamento sem fim.