O que eu aprendi desde que voltei do intercâmbio (quase desabafo)

Me veio a ideia, em meio a muitas outras coisas, de começar a escrever aqui no Medium, tanto pra passar um tempo, quanto pra que quem quiser saber o que tá rolando na minha vida e poder dar uma bisbilhotada. Creio que falando sobre assuntos mais pessoais eu darei ênfase na minha vivência, na maioria de alguns problemas que me circundam hoje, mas também sobre assuntos aleatórios da vida e sobre design e piras doidas. Esse primeiro post na real vem acompanhado de outros posts (c-c-c-c-combo breaker) a respeito de outros assuntos que resolvi explicar em outros posts pra quem se interessar.

Bom, já faz 9 meses que voltei do meu intercâmbio no Reino Unido. Foi uma decisão muito impactante na minha vida. Não pelo que eu vivi lá, mas por como eu vivo desde que voltei. Se imagine deixando uma vida que você considerava feliz para ir para intercâmbio, uma situação que você não conhece ninguém, nenhum lugar ou como as coisas funcionam. Naturalmente é uma experiência meio traumática, mas não ruim. Aprendi a viver sozinho (porque eu não conhecia sequer uma pessoa num raio de 300km), a defender minhas posições ou direitos. Aprendi a ser auto-suficiente. Pelo menos eu achava. Quando voltei, eu simplesmente caí de boca no chão. Creio que imaginei que deixaria uma vida desconfortável (porque nunca atingi um ponto de equilíbrio lá) para uma zona de conforto, onde eu conhecia a todos e era feliz. Expectativas nem sempre são boas.

Rolou muita coisa que nem eu tenho certeza ao certo como colocar tudo isso, então, eu dividi em tópicos, cada um falando sobre uma fase/acontecimento e tentei traçar meio que uma linhagem cronológica pra não se perder tudo. Vou tentar dar um panorama sobre tudo que rolou:

Procrastinar

Bom, é bem interessante esse tópico porque eu não me considerava procrastinador antes de ir. Sempre me enfiei em inúmeras organizações de eventos, Movimento Estudantil, cargos representativos. Eu sempre queria estar no meio de algo, sempre fazendo mais do que eu conseguia. Eu abdicava de sair com amigos para trabalhar, e as pessoas me admiravam por isso. Por eu “sempre estar em todas”, saber de tudo que estava acontecendo. Virei referência de eficácia e pró-atividade. Isto vem de uma outra discussão que eu faço aqui.

E quando eu voltei e tentei me enfiar em tudo que eu queria e achava que conseguia conciliar, algo deu errado. Eu não estava mais feliz (embora já não fosse novidade) e não conseguia tomar conta de tudo que eu precisava. E isso me deu um ataque de ansiedade, porque eu precisava fazer diversas coisas, mas não conseguia sair da minha cama, seja por nervoso, desmotivação ou qualquer outro motivo que minha cabeça conseguisse inventar. Eu havia me tornado inútil em meio a um mar de afazeres. Eu estava me afogando (olha as metáforas).

Até que eu vi esse vídeo e percebi que todos somos procrastinadores, e que eu não podia me sentir mal por isso. Todo aquele discurso de auto-aceitação nunca me fez muito sentido, porque parecia algo tão distante. Mas o simples fato de você entender que você tem que lidar com você mesmo, não importa o que você seja, aceitar sua condição atual, é simplesmente seu dever. Ficar se negando só te traz mal.

Deixando o discurso motivacional de lado, o simples fato de não conseguir fazer as coisas como eu fazia me deixou simplesmente devastado. Será que eu tinha perdido toda essa “capacidade” de compactuar com uma rotina delirante de trabalho incessante? Ou será que eu simplesmente tinha mudado, não necessariamente para melhor ou para pior, e que por isso eu só deveria me aceitar? (se quiser ler sobre aceitação, tem esse outro post aqui que eu falo sobre isso) O fato é que eu agora procrastinava e eu precisava lidar com esse fato. Ou postergar até surtar, que foi o que aconteceu. Mas agora eu vou voltar um pouco no tempo pra falar algo que pode ter dado origem a muito disso:

Depressão

Acho que talvez a depressão seja uma das grandes causas da minha procrastinação. Nessa ordem, parece que a depressão veio nessa sequência, fruto dos descontentamentos das terras tupiniquins comparadas ao primeiro mundo imperialista da rainha Elizabeth II.

A verdade é que começou durante o inverno de 2014 pra 2015. Você não sabe o que é ficar dentro de casa porque pra sair você precisa de 3 agasalhos e muita força de vontade. O inverno britânico é cruel para quem não está preparado. É aquela coisa de não sair de casa, ver menos pessoas, ficar mais tempo no computador, e as coisas que não deveriam vir na sua cabeça viram corriqueiras e de repente tudo que você pensa é sobre tudo que você não deveria pensar.

É difícil falar sobre o que te traz a depressão porque são tantas coisas que o simples viver te lembra todo dia sobre o quão ruim tudo pode ser, sem dar espaço para o que seria legal pensar. A minha depressão era simplesmente não conseguir pensar em coisas felizes (por mais genérico que isso possa parecer). Isso inclui pensamentos como “que dia bom!” ou “estou feliz nesse momento”, “sou grato por isso”. Acho que o ego cresce e os problemas aparecem mais do que eles deveriam, sem sobrar espaço pra pensar sobre diversas coisas que você deveria pensar.

E lidar com a depressão lá era uma coisa, até porque eu só percebi que me sentia assim quando as meninas que moravam comigo me chamaram a atenção, lá pro último trimestre de intercâmbio. Lá eu não tinha muitos dos deveres que eu tenho aqui, como pagar aluguel, alimentação, translado até a faculdade. E isso me pegou de surpresa, porque eu não conseguia lidar com ainda mais isso. Acho que você acaba percebendo que as coisas podem tomar proporções gigantescas se você não está tendo uma visão clara sobre tudo. E se você quer saber como é ter depressão: você se sente um merda 24h por dia. Você não confia nas coisas que faz, você não acha que pode fazer coisas, você só quer ficar na sua cama. Não por preguiça, mas porque você não tem motivos pra levantar da cama. Você não tem espírito para encarar um dia inteiro, e, por isso, prefere ficar deitado, porque as chances de algo dar errado são menores. E nesse processo você se distancia dos seus amigos, sua única fonte de apoio. E cada vez mais sozinho, você está num ciclo sem fim. (se quiser saber sobre um dia de depressão) E se combinarmos ansiedade nesse pacote todo…

Ansiedade

A ansiedade, como algumas pessoas descrevem, é quase o oposto da depressão, só que ao mesmo tempo complementar. Depressão, por senso comum, é a sensação de inércia, monotonia. A ansiedade é dar importância tremenda a certos assuntos e pensamentos. Então se você só pensa merda e começa a dar muito valor a essas merdas, bom, já sabemos o resultado.

A ansiedade foi meu gatilho. Eu estava organizando o TEDx que teve aqui em Bauru e um fatídico dia eu fiquei chorando na minha cama quase o dia todo. Convenhamos que quando isso acontece algo não está certo. No meu caso, algo estava muito errado. Foi o meu acordar, o momento que eu percebi que do jeito que estava eu não ia conseguir continuar. Foi quando eu desisti dessa organização, parei de pegar novos projetos e diminui minha carga sozinho em casa. Eu comecei a sair mais, ter mais momentos felizes, mais ócio. Mas isso não era suficiente. Eu ainda tinha crises de ansiedade porque eu não consegui parar de pensar que tudo estava errado e que eu tinha que dar um jeito nisso tudo. Foi minha segunda crise de ansiedade.

Mais um dia deitado na cama chorando por motivo algum, incapaz de fazer sequer uma coisa, nem meu almoço. Mas eu precisava de um refúgio dos meus pensamentos (estranho a solução ser parar de pensar né?), precisava parar de pensar no que não importava (até porque pouca coisa importava) e começar a pensar em outras coisas, quiçá mais felizes, significativas.

Já vou quebrar essa ilusão e falar que até agora não consegui fazer isso. Não é fácil e nem rápido. Preciso deixar claro que estou lidando com o que gera meus pensamentos. Eu preciso lidar comigo mesmo, eu preciso me fazer entender coisas que eu não tenho claro. Eu preciso sair de mim mesmo para conseguir ver as coisas sob outra perspectiva, para conseguir ver que no final de tudo, seu dia foi uma merda porque você fez ele assim. É um passo perceber isso, mas de nada adianta se você não sabe no que pensar, ou como não pensar nisso. Lidar com a sua mente pode ser a coisa mais complicada que você já fez. (mas isso também é um outro assunto muito longo que eu trato aqui)

Enfim, tudo isso que eu falei até agora foi só sobre como era minha mente, no que eu pensava. Chegou a hora de começar a falar sobre o que eu sentia.

Gastrite

Se você nunca teve gastrite, você não sabe o quão ruim é. Em teoria é só acidez elevada no seu estômago, gera desconforto e você tem que viver com isso. Parece simples.

Mas e se agora eu detalhar como foi minha gastrite? Primeiro isolado, depois tudo junto.

É um desconforto na boca do estômago (minha gastrite era localizada). Você sente uma queimação e isso gera certo refluxo. Então você sente uma necessidade de arrotar a todo momento, e esse arroto as vezes vem com refluxo, ou seja, coisas ácidas no seu esôfago. Até aí parece simples, mas quando eu ficava com fome eu sentia uma dor excruciante na boca do estômago, ou seja, eu não sentia fome. Eu sentia dor. Faz mais de um ano que eu desconheço a sensação da fome, e no lugar eu sentia dor (amenizou, diminuíram os refluxos e arrotos). E isso é pelo resto da vida. Sem fome eu comia menos, então eu tinha menos energia para fazer as coisas, logo, menos disposição. Comer não era mais um prazer e sim uma obrigação. Eu emagreci. Além de tudo, o desconforto continua. Toda vez, a toda pausa, a todo momento que minha mente não está ocupada por algo, eu sinto um desconforto na boca do estômago, no estômago inteiro e as vezes no torço (uma dor generalizada).

Existe um grande problema nisso tudo quando a gastrite tem causas nervosas (não depende de remédios para que ela acabe). Ou então quando você soma uma condição a um prospecto de que nada vai melhorar e que você está fadado a sentir isso pelo resto da vida. Por mais ridículo que isso possa parecer, era assim que eu me sentia. Um estado psicológico agravado com um pouco de dor e você tem uma crise de ansiedade. Simples assim. E lá se vai mais um dia da sua vida se sentindo um merda enquanto chora na sua cama.

Tudo junto e misturado

Eu fui pego num reboliço muito grande, que envolvia diversos problemas, todos juntos, unidos por um sentimento merda de depressão, implodidos pela ansiedade. Eu estava tentando viver dia após dia, porque era o que eu conseguia. Eu tinha tanta coisa na cabeça que sequer pensar no meu almoço de amanhã era difícil. E minha vida não parou por causa disso (e eu também não me permiti), trabalhos de faculdade, organizações, assuntos gerais, uma futura Iniciação científica. Não quero parecer ridículo, mas fazer tudo isso sendo que nem sair da cama você tem vontade é um grande problema.

E a faculdade, Moon?

Eu tinha decidido para mim mesmo que daria mais valor aos trabalhos de faculdade e por isso me dediquei a eles como se não houvesse amanhã. Isso tirava um pouco de meus pensamentos ruins da cabeça, e me reforçou enquanto designer, porque eu não tinha sequer confiança alguma em minhas habilidades e senso estético. Bom pra mim, algo bom no meio de tudo isso. Mas isso acabou que eu sempre queria fazer o melhor trabalho possível e isso me gerava ansiedade. Não preciso nem falar. Mais um dia na cama.

Prioridades

Foi nesse momento que eu estabeleci minhas prioridades, elenquei meus afazeres e consegui me sustentar. Afinal eu consegui me livrar de uma grande crise, aos prantos, mas consegui. Eu entendi que agora a faculdade era uma prioridade na minha vida, assim como amizades e lazer. Eu não queria mais me desgastar com muitas coisas ao mesmo tempo porque eu acabaria me afogando de novo. Eu creio que posso estar mudando, e isso é um grande problema porque não sei lidar com isso. Eu não quero me desprender das coisas que eu já me comprometi, eu quero continuar fazendo mas me falta vontade. Eu estou num dilema para definir se eu me obrigo a participar, achando que essa falta de vontade é mero sintoma da depressão, ou se paro com tudo e estabeleço novas prioridades.

Pessoas mudam sim

Eu mudei, e muito. Aos que não perceberam, eu sou outra pessoa, completamente diferente. Acho que menos energético, feliz, compromissado. Eu ainda não sei o que pensar sobre isso tudo porque é tudo muito recente. Eu não sei se isso é uma fase, ou se eu continuarei a me sentir assim. Eu realmente não sei.

E esse foi o ponto final da minha história. Depois que eu percebi que não era já mais o mesmo de quando fui viajar, as coisas se tornaram mais claras. As pessoas que eu conhecia se formaram, foram pra intercâmbio também, fui morar em outro lugar. Esquizofrenia minha achar que tudo estaria da mesma forma quando eu voltasse. Foi perceber que eu não era mais o mesmo que iniciou um estado de auto-conhecimento. Eu estou aprendendo quem é este novo eu, esta nova pessoa que eu sou. Não posso negar minhas mudanças. Se hoje estou procrastinando, devo aceitar isso, que é o jeito que eu estou sendo feliz. Não preciso de inúmeros trabalhos, comissões, projetos, etc, para ser feliz. Eu não preciso viver num ritmo frenético sem nem ter tempo para poder tomar café da manhã dignamente, sem tempo para ver os amigos, ou tempo para o meu ócio criativo.

Like what you read? Give Rodrigo Moon a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.