Bem cabeça dura. Fonte: Pexels.

O que fazer quando sua família e amigos são eleitores do Bolsonaro

…e você é “esquerdista”?

Eu sou filho, neto e primo de militares. Estudei durante toda a minha infância e adolescência em um colégio militar. Grande parte dos meus amigos de infância se tornaram ou são filhos de militares.

Em 2018, se eu não souber lidar com esse contexto, provavelmente terminarei o ano sem amigos e brigado com a família.


As eleições de 2014 já foram polarizadas. Era a briga entre “dar continuidade ao programa que tirou milhões da miséria” e “temos que tirar essa corja de corruptos do poder”.

Muitas amizades foram desfeitas naquela época devido as discussões acaloradas nas redes sociais.

Mas em 2018 estamos vivendo uma situação diferente. A clara e inegável ascensão de uma extrema-direita no Brasil, seguindo uma tendência mundial.

Há quem considerasse o PSDB de 2014 uma “direita”. Mas a gente sabe que, no final das contas, eles seriam muito mais centro que direita. Não tem “social democracia” no nome à toa.

Já faz algum tempo que Jair Bolsonaro vem ganhando “admiradores”.

As frases de efeito, a postura debochada e o fato de não ter o menor filtro na hora de opinar e as aparições no CQC e em vídeos de internet fizeram do ex-militar um “mito” entre uma parcela um pouco mais à direita do espectro político.

Nos preocupamos em ironizar o monotrilho do Levi Fidélix e suas frases homofóbicas, não levando-o a sério, e esquecemo-nos de nos preocupar com quem sempre levou esse discurso a sério.

Quando nos demos conta, Bolsonaro já liderava as pesquisas para presidente do Brasil.

Com um representante dessas ideias tendo voz e visibilidade, toda a camada brasileira “cansada disso tudo que está aí” se sentiu representada por esse cara que se considera um “forasteiro”, um político não-tradicional. Por mais que esteja há 30 anos na vida pública e tenha se esforçado em eleger quase todos os filhos para trilharem o mesmo caminho.

Contra ele, todo o resto. E se você não apoia nenhuma ideia que ele defende, você é o “resto”.

Se ainda não ficou claro, a maioria das pessoas que fazem parte do meu círculo social são declaradamente eleitoras do Bolsonaro.


Ser uma pessoa mais à esquerda no contexto social em que eu vivo requer um esforço enorme para evitar brigas.

Eu tive todas as condições favoráveis para me tornar policial.

Apesar de ter passado a minha vida inteira rodeado de policiais, eu nunca tive a grande vontade de me tornar um.

Ao completar 18 anos, em 2004, vindo de um colégio militar, fazer o concurso da PM era uma mera formalidade.

Era quase certo que os ex-alunos do meu colégio que quisessem seriam aprovados.

O concurso da Polícia Militar de Minas Gerais só foi ficar um pouco mais exigente alguns anos depois.

A questão é: com 18 anos, meu pai me perguntou se eu queria entrar para a polícia e eu disse que não.

Eu queria “conhecer” o mundo aqui fora primeiro. Eu já sabia que se entrasse seria a minha profissão pelo resto da minha vida. E não tinha muita certeza se queria isso, apesar de saber de todos os “benefícios” que a carreira tem e que sempre ajudaram a manter os meus privilégios.

Muitos amigos entraram para a polícia com 18 anos. E nessa idade, nós não temos vivência nenhuma para ter uma opinião formada.

Então, quem entra em uma corporação como essa, sofre todo o processo de doutrinação militar. E é muito difícil mudar o seu pensamento depois disso.

Eu acabei escolhendo cursar comunicação. E como todo mundo aqui deve estar cansado de saber, a galera de “humanas” sempre tende um pouco à esquerda.

O fato é que ao ter esse tipo de vivência, pude ter contato com todos os tipos de pessoas possíveis. Das mais variadas classes sociais. E foi muito importante sair da minha bolha “militar” para escutar o que as pessoas que estavam de fora tinham a dizer.

Eu nem sempre tive essa inclinação à esquerda. Já defendi o pensamento de “bandido bom é bandido morto”, que manifestante que faz quebra-quebra tem de apanhar (um dia espero que alguém me ame como algumas pessoas amam vidraça de banco) e que as únicas profissões realmente honestas eram a de militar e bombeiro (exceto no Rio de Janeiro — e até esse pensamento é uma construção social da nossa bolha).

O que me fez começar a questionar esse pensamento foi ter contato com pessoas que diariamente enfrentavam a situação de serem vistas como “suspeitas” mesmo indo ou voltando da aula/trabalho.

De pessoas que apanharam em manifestação por acreditar que professores merecem receber muito mais que qualquer outro funcionário público.

De pessoas que precisaram da polícia e foram tratadas com total descaso.

De pessoas que tiveram amigos, parentes ou conhecidos comprovadamente inocentes mortos pela polícia sem nenhum tipo de punição.

Tendo acesso a todas essas histórias, eu fui mudando a minha visão de mundo aos poucos e começando a questionar tudo aquilo havia ao meu redor.

Eu passei 18 anos dentro da bolha “só quem gosta de militar é a família dele” e ter a oportunidade de ouvir quem sempre esteve de fora e à margem, me ajudou bastante a crescer como pessoa.

Não que eu tenha passado a odiar a polícia. Muito pelo contrário. Eu só fiquei mais crítico em relação à sua atuação e função social.

Em 2012, completamente desiludido com o mercado de comunicação em BH, eu resolvi tentar o concurso da PM. Não podemos negar que é uma profissão que paga bem e trás muitos benefícios que não se encontra no setor privado. Acabei não passando e acho que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido em minha vida. De lá pra cá, ela mudou radicalmente.

A profissão policial no Brasil é estigmatizada. Nós sabemos que nem todos os policiais são truculentos, corruptos ou abusam do poder. Porém, há um corporativismo tão grande nessa profissão que é quase impossível separar o indivíduo da corporação. E o próprio policial deixa de se ver como indivíduo.

Dessa forma, quase 100% dos policiais que eu conheço não sabem lidar com críticas à polícia e levam tudo para o lado pessoal.

Quando eu compartilho um post no Facebook, tenho que tomar muito cuidado para que a minha opinião não seja interpretada como uma generalização. Que os meus amigos não entendam que eu estou falando deles e sim da instituição.

Mas com toda a popularidade do Bolsonaro com o público militar, essa questão está ainda pior.

Não gostar de Bolsonaro tornou-se o mesmo que “apoiar e gostar de bandido”. De “não ser patriota”. De “não querer um Brasil melhor”. E qualquer post sobre o “Mito” pode se tornar uma discussão sem fim que provavelmente terminará em briga e muito rancor.

O problema todo é que as discussões na internet terminam assim pois é difícil interpretar o tom de voz do outro. Quando você conversa sobre esse assunto pessoalmente e a pessoa consegue interpretar a sua linguagem corporal, o seu tom de voz, etc, dificilmente termina em briga.

Mas nas redes sociais isso é quase impossível. E em parte, eu acredito muito que seja pela falta de interpretação de texto, mas isso é assunto para outro texto.

Como estamos cada dia mais próximos das eleições, eu adotei a postura de não entrar em nenhuma discussão que envolva Bolsonaro, Lula ou qualquer outro político. Às vezes eu preciso morder uma mesa e socar minhas pernas de tanta raiva lendo alguns comentários, mas eu simplesmente não entro mais na pilha.

Também não compartilharei nenhum post sobre esse assunto para que a discussão não venha até mim.

Quer dizer que eu sou isento? Não.

Quer dizer que eu estou evitando ao máximo destruir amizades de mais de 25 anos por causa de política. Eu me recuso a brigar com um amigo de tantos anos por esse motivo.

Eu não posso adotar o pensamento de “se você apoia o Bolsonaro é melhor desfazer a amizade”, pois eu sei que entre meus familiares e amigos, muitos deles não são homofóbicos ou racistas.

Sei que acreditam em igualdade de gênero, pois muitos se tornaram policiais também para ter condição de dar uma vida melhor para as mães que batalharam sozinhas para criá-los.

Meu pai entrou para a polícia ainda no regime militar. Serviu por mais de 30 anos e absolutamente tudo o que ele tem hoje é graças a polícia. Você realmente acha que qualquer coisa que eu diga vai fazer meu pai mudar de ideia?

Não vai.

Eu sei que no meio dessa turma, tem gente que realmente não está se importando com as opiniões preconceituosas. Eles realmente enxergam o cara como alguém que “finalmente olhou para o lado dos militares” e eu entendo isso. Posso não concordar, mas entendo.

Eles tem o direito de pensar que o ex-capitão é o único capaz de dar um jeito no país. E eu respeito essa opinião, já que em uma democracia, cada um tem o direito de pensar como quiser.

Eu discordo completamente de tudo o que eles pensam, mas nada que eu diga vai fazê-los mudar de ideia. É uma batalha completamente perdida que não vale o estresse.

É claro que no meio de todos esses conhecidos, tem aqueles que realmente apoiam e concordam com tudo o que prega o candidato. Que não tem vergonha alguma em expor determinados preconceitos. Em muitos casos não são nem militares. Então, acredito que por esse motivo, não existe nenhum tipo de amarra que os impeça de fazer os piores comentários possíveis.

Eu já cancelei algumas assinaturas no Facebook de parentes e conhecidos simplesmente por não ter mais a menor condição psicológica de acompanhá-los sem passar raiva.

O máximo que eu posso fazer é tentar conversar com quem pensa em votar no Bolsonaro e falar sobre outras opções e explicar porque eu discordo das propostas (?) dele.

São essas pessoas, os indecisos, que tem a maior chance de proporcionar um diálogo que não termine em insultos e agressões gratuitas.

O mesmo também vale para os amigos que agem da mesma forma pelo lado da esquerda. As brigas não acontecem só de um lado do espectro político. Tem opiniões extremas nas duas pontas.

É um momento muito delicado pra mim, que valorizo as amizades.

Até o momento tem funcionado pra mim não compartilhar notícias de política e não entrar em nenhuma discussão.

Minha saúde mental não piorou e não perdi nenhuma amizade.

Quero ver até outubro.