O que Girlboss ensina sobre ser feliz?

Inércia nunca foi um aspecto importante de uma vida cheia de conquistas ditas impossíveis

Imagem: ELLE

Todos os dias um sonho diferente fica exposto na vitrine pronto para a compra. Ir à Paris. Nadar com golfinhos. Iniciar um curso. Vender cupcakes personalizados. Ser colunista em um jornal de uma grande cidade. Roupas em forma de sonhos.

E todos os dias nem a metade delas chegam a serem​ vestidas por aí. A medida que olhamos a nossa volta, percebemos que a moda é seguir uma maré na qual um uniforme é mais aceito: nascer, crescer, adolescer, “universitar”, enquanto isso, ficar, namorar, depois casar, ter filhos, envelhecer e, por fim, morrer. Um look exatamente igual para todos e qualquer dita extravagância fora disso é vista com maus olhos pelos expertises da passarela da vida.

Se você estiver pensando em não fazer como manda o figurino, senta que lá vem sermão. Do tio que você não vê há trezentos anos e que não quis sonhar em ser dono do próprio negócio. Da vizinha que não vai nem na esquina comprar pão por que tem medo de se perder pelo mundo. Do amigo frustrado formado no sonho dos pais há seis anos. Todos eles vestidos com roupas de sonhos de golas que pinicam, com a barra por fazer e uma manga mais curta que a outra. Vestidos do que mandaram e, é claro, de quebra, infelizes.

Essa é mais do que meia dúzia de pessoas que tem medo de sair da zona de conforto, do óbvio. Têm medo de lançar uma moda totalmente fora do habitual. Pessoas que embrulharam sonhos em papel livre de ácidos e guardaram-os em caixas com o todo cuidado só para ficarem admirando de longe, pois algum dia alguém gritou que usar terno com tênis não combina ou que cortar uma calça pantalona para virar um shortinho é horrível. Que coisa sem cabimento!

Não é a toa que hoje a onda é “largar tudo” para ser feliz. Algo que divide as pessoas entre aqueles que consideram uma loucura largar uma vida estável e os que aplaudem como um ato de bravura colocar para fora o que desejam no íntimo. A verdade é que as mesmices, normas sociais, estão saturando. Graças a Deus!

Girlboss é a nova série da Netflix que, ao menos para mim, traz bem forte essa questão. Sophia é a protagonista que contrasta a certeza da estabilidade de uma vida com a incerteza da vivacidade de um sonho vestido. Ela é um exemplo do quanto que sonhar é palpável, real, do quanto é fundamental não dar ouvidos para os pessimistas, correr atrás daquilo que se deseja, tendo uma coragem sem pudor. No sétimo episódio da série, por exemplo, ela fica de frente com uma vendedora rival, de nome Gail, do ramo vintage na internet, e reflete, através de uma clara metáfora sobre se arriscar pelos sonhos, acerca de vestir as roupas antigas e não as deixar guardadas em caixas embrulhadas com papel livre de ácidos como relíquias.

Nesse ponto penso sobre todos nós. Não temos certeza do que realmente queremos, mas podemos saber de que rumo a nossa felicidade chega. Podemos escrever porque gostamos. Escolher uma profissão a seguir porque nos vemos assim. Jogar vôlei por hobby e por ser a única atividade física que fazemos e nos faz bem. Desenhar nas horas vagas como forma de livrar a cabeça de pensamentos ruins. Tirar umas fotografias legais. Por aí vai. Em resumo, a felicidade vem da pluralidade que permitimos em nossa vida. Aprender a não se limitar, a não seguir só um script de vida, a ver que podemos fazer além, inconformar-se de seguir vestindo o que todo mundo veste e não se culpar por chutar o balde. É um absurdo não se deixar levar por novas experiências e sonhos. É uma questão de autoconhecimento, de se explorar e, assim, conhecer maravilhas.

Felicidade é não postergar e começar logo as aulas de dança, as de teatro, as de equitação, fazer o intercâmbio na Austrália, abrir o negócio do ramo de hotelaria na montanhas que tanto se deseja. Abrir o coração. Tirar tudo da caixa, vestir, mesmo que seja algo fora da moda, que seja loucura aos olhos alheios.

Quando tiramos nossos sonhos das caixas, depois olhamos para trás e, espantosamente, percebemos que melhoramos, evoluímos, mesmo que, às vezes, lentamente, conseguimos diminuir cargas desnecessárias, partimos pra os nossos reais desejos, que precisávamos disso. De alguma forma, quando desapegamos de uma visão limitada sobre nós, encontramos toda uma maneira sábia de reformar o nosso guarda-roupa interno ouvindo os melhores gurus e vestimos a nossa melhor maneira de ser.

Não temos muita noção do que somos e do que podemos. Na maioria das vezes, tendemos a nos subestimar, duvidamos da nossa própria capacidade. Ah, a roupa do vizinho é mais bonita. Cá pra nós, a nossa também. Se liga! Pedimos desesperadamente para que caia dos céus algo para transformar o nosso guarda-roupa de sonhos. O que não precisa, já que tem tanta vida guardada para ser vestida. E não tem nada a ver com inveja, mas com o medo de acreditar no que é impossível, que é possível, que está ao alcance das nossas mãos.

Isso é a nossa mania de olhar para o que existe, pra aquilo que temos e somos, e, na maioria das vezes, desacreditar. Não cremos que o bom pode nos pertencer ou acontecer. Não imaginamos que a felicidade nos já é de berço sim. Que, se bobear, não só conheceremos Paris, como também New York, e que um dia moraremos por lá. Que tudo pode ser bem mais do que imaginamos. Uma liberdade de sonhar que insistimos em aprisioná-la em caixas.

Girlboss, com a Sophia, ensina que o mundo é feito dos que vestem a camisa. Que quem faz a moda e dita o que é antiquado ou moderno, dentro daquilo que vivemos cotidianamente, somos nós, e que para isso precisamos acreditar. É para quem pensa fora da caixa, entende? Quem corta e tinge uma camiseta esquecida no armário e veste sem medo do ridículo. Quem transforma uma calça em uma bermuda com dois rasgões sem receio. Esses são os, de fato, felizes. Inércia nunca foi um aspecto importante de uma vida feliz e cheia de conquistas ditas impossíveis.