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O que os árabes podem ensinar ao Brasil?

Cultura de planejamento

O Oriente Médio é um lugar espetacular. Infelizmente, por causa da constante imprensa negativa no ocidente, imagina-se uma região em constante conflito e instável. Não é. A maioria dos países encontra-se em paz e com alta qualidade de vida. Os povos árabes souberam olhar para frente e fizeram seu futuro por meio de visão e planejamento de longo prazo. Como faz parte do grupo de países emergentes, o Brasil pode seguir este exemplo e tem muito a aprender com a experiência árabe.

Pensar a longo prazo

Os países do Oriente Médio renasceram aproveitando bem seu maior ativo natural, o petróleo. A extração do óleo, da forma que conhecemos, começou em meados da década de 30 e tomou maiores proporções na década de 1970. A crise do petróleo relaciona-se a esse movimento.

A “Era Moderna Árabe” data de 1516 a 1920. Ela é anterior a era moderna ocidental e seu declínio foi com o desmembramento do Império Otomano, resultante da Primeira Guerra Mundial, determinando a atual geografia política da região. Desde então, os povos árabes buscam se reafirmar. A partir dos anos 70 encontraram um caminho sólido para reconstrução de seus países, mesmo diante de suas especificidades.

Os governos são monarquias, na sua maioria, e os descendentes se capacitaram, iniciando um planejamento de longo prazo para seus países.

Tais projetos tornaram-se mais evidentes depois da década de 1990. Emirados Árabes Unidos — onde estão Dubai e Abu Dhabi — , Qatar, Kawait, Bahrain, Omã e Arábia Saudita são os expoentes deste renascimento econômico árabe, fruto de visão e planejamento.

É importante salientar que estamos falando de uma região desértica. Para haver produção é preciso ter planejamento, pois as condições adversas são severas. Vê-se os governantes explorando pontos fortes, bem como criando novos atrativos — turismo, logística, etc — proporcionando vantagens competitivas para os países. Ao contrário, ficariam fadados à vida de beduínos.

Trazer pessoas qualificadas para qualificar

Tais países Árabes fizeram em 50 anos muito mais que diversos países emergentes ditos democráticos. Os líderes locais trouxeram os “cérebros” da Europa, dos Estados Unidos e de diversos outros lugares para ensinar aos seus. Estes imigrantes ocupam posições em todos os níveis, nas presidências de empresas, nas escolas e universidades e nos serviços rotineiros.

São países com baixa densidade demográfica e dado o crescimento econômico, não há mão de obra suficiente, abrindo postos para estrangeiros preencherem. É comum ver as estatísticas demográficas atribuindo esta característica: locais e expatriados. Veja Dubai: os Emirati representam só 17% da população local.

Os governos criaram cotas de contratação de locais, para forçar um “equilíbrio” da força de trabalho. Tal taxa varia de país para país. Em Omã, por exemplo — cujo governo atual está no comando desde 1970 e foi responsável pela guinada do sultanato — , conta com uma população de 4 milhões de habitantes, sendo 1/3 de expatriados. Há empresas que buscam o índice de 60% de mão de obra local, mas é a exceção. Mas veja o caso do Qatar, onde não há esta obrigatoriedade. Os qataris não querem — ou precisam — trabalhar! O país surgiu em 1971 e conta somente com 2 milhões de habitantes. A qualidade de vida do qatari é tão alta que boa parte dos postos de trabalho ficam para os estrangeiros.

Investir apropriadamente visando o futuro

Tais países estão pondo em prática velhos e bons modelos de gestão pública criados pelos ocidentais. Claro que o fator dinheiro faz a diferença, mas eles estão diversificando suas economias antes do final do petróleo, antes da existência de gargalos.

Um exemplo interessante é Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, país fundado em 1971. O petróleo e gás do emirado supre 9% e 5% da demanda mundial, respectivamente, e o PIB per capita em 2014 foi US$ 61.009. Além disso, estão usando o dinheiro para investir em pesquisa e desenvolvimento de energia limpa, como é o caso da universidade Masdar.

Em Dubai o óleo representa menos de 5% da economia local, dado o grau de diversificação que conseguiram implantar. Turismo, logística, comércio e indústria são os grandes focos da economia de hoje.

Desvio feito para reforma de uma das rodovias em Omã. Praticamente um nova foi feita, mantendo as duas faixas da pista e iluminação. Existem rodovias exclusivas para o tráfego de caminhões.

Outro exemplo é o Sultanato de Omã, uma monarquia absolutista em pleno século XXI. O Sultan Qaboos bin Said assumiu o governo em 1970 após depor o seu pai em um golpe de Estado. Naquela data, havia somente uma escola primária, um hospital e só parte da capital, Mascate, tinha energia elétrica, além de não existirem rodovias pavimentadas.

Desde então, o governo vem usando o dinheiro do petróleo para o desenvolvimento do país. Sua posição geográfica favorece negócios em logística, por estar numa área de águas profundas. Para aproveitar este potencial, foi construído o Porto Industrial de Sohar, localizado numa zona franca industrial. Empresas como a mineradora Vale, Oil Tanking, Air Liquide, dentre outros, são alguns grandes players sediados no porto industrial. O objetivo é reduzir a participação do óleo no PIB de 40% para em torno de 20% no próximos anos.

Omã ocupa a posição 47 no ranking do Banco Mundial como melhor local para realizar investimentos, numa lista de 189 países. Tudo isso alcançado em 44 anos de governo. O Brasil ocupa a posição 116. Para atingir esta posição, em 1996 o governo lançou um planejamento de longo prazo denominado “Visão 2020”. Faltando 5 anos para seu ciclo final, já conta o “Visão 2040”, tendo as metas do sultanato para os anos de 2020 a 2040. Em 44 anos de governo, o IDH é elevado (0.783), ocupando a posição número 56, enquanto o Brasil a 79, com os dados de 2013. Omã ainda subirá mais posições, é uma questão de tempo.

Foco na resolução de problemas

O foco do crescimento e investimento dos governos árabes é proporcionar um ambiente de solução dos problemas, favorecendo a qualidade de vida da comunidade, primeiro para o local, depois para o expatriado, sendo que o último é visto como suporte neste processo de desenvolvimento.

A atitude dos árabes para com a coisa pública nos últimos 50 anos é um exemplo que os brasileiros podem se espelhar. Se eles com muito menos conseguiram mais, há possibilidade do Brasil ir além, resolvendo seus problemas, crescendo com dignidade, ou seja, dando retorno para quem de fato necessita: a população.

Identificar potenciais e inserir-se no mundo

Os países árabes saíram do nada e tornaram-se relevantes no cenário econômico mundial. Apesar de darem um salto da vida nômade direto para a terceira revolução industrial, estão conseguindo tais resultados pela seriedade dada aos seus projetos. De fato, governos monárquicos, baixa população e dinheiro facilitam, mas não é tudo. Veja o Yemen, que possui as mesmas condições e nunca conseguiu estabelecer um projeto de país. Ou uma falsa democracia implantada pelo regime comunista, mas governada de forma hereditária.

Os que possuem uma política pública séria vencem em meio a adversidade do interesse político-econômico do ocidente, que criou uma imagem distorcida dizendo existir somente ditaduras no Oriente Médio. Isso não é um fato por completo. Disseminar tal imagem faz parte do jogo de interesses político-econômico de Inglaterra, França e Estados Unidos para a região. Tal “desestabilidade” favorece seus interesses. Mesmo que prevaleçam regimes monárquicos, sendo alguns deles ainda absolutistas, cuidam melhor da população que certas democracias emergentes.

A grande dificuldade do Brasil é o seu isolamento. Não o é legalmente, mas o é de fato. Nossa cultura ignora o externo. No entanto, é inevitável a percepção das novas referências, buscar absorver o bom, contextualizando-o na busca de fazer um país melhor.

O árabe aproveitou o óleo, seu capital natural, e soube reinvestir. A grande vocação do Brasil é ser o celeiro do mundo; não no paradigma colonialista, da monocultura, visando poucos produtores, mas inserido numa nova lógica, agroindustrial, tecnologicamente avançada, diversificada em produtos, em larga escala, com vários concorrentes internos produzindo. Como produzir no deserto ou nas terras frias da Europa? Eles gastam muito recursos para estender esta condição e “burlar” a natureza até o limite da tecnologia. No Brasil é diferente, podemos plantar e colher o ano todo. Nosso clima proporciona diversidade de alimentos. Isto é dito, mas poucos atentaram para sua grande importância. O bom uso pode trazer benefícios coletivos.


Quando se fala de países é muito difícil estabelecer comparações. Para isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o “Sistema de Contas Nacionais”, um parâmetro internacional permitindo comparações econômicas, sociais, políticas, etc, nas esferas do público, privado e não-governamental.

Trata-se de entender que as observações feitas ao Brasil são em função de situações possíveis de serem feitas por não existir impedimento interno para sua realização. Basta organização por meio de um projeto, reunir as pessoas capazes de torná-lo realidade e disciplina na execução. Junta-se a isso a necessidade de implantar uma cultura de desenvolvimento constante.

As condições naturais do Brasil, o gigantismo territorial, a unidade da língua e o povo aguerrido colocam o país em vantagem. O povo brasileiro é trabalhador, ao contrário do árabe que, por cultura, sempre tem terceiros para trabalhar por ele. Além do mais, o brasileiro é criativo. E não nos faltam os recursos, é só fazer.

Partindo dessa premissa, ao olhar para o Brasil percebemos maior tradição das instituições públicas. Não há falta de dinheiro no Brasil, mas há falta de projetos públicos, visão de longo prazo e políticos competentes com postura estadista.

E depois dizem que os governantes árabes são ditadores.

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