O que teria acontecido se eu tivesse estuprado aquela mulher

O caso a seguir poderia ter sido real — e, de fato, é real para centenas de mulheres

Noite de farra com a turma da faculdade. Som ruim pra caralho, todo mundo bebendo horrores.

Na pista a galera misturando de tudo: cerveja, vodka, tequila, conhaque e energético.

Alguns dropando um doce. Outros escornados pelos cantos. Eu já na última cerveja, querendo sair vazado, pela tangente. “Não quero mais saber dessa gente toda”, pensei.

Festa estranha com gente esquisita, essa música tocando na minha cabeça. Sinal de que daria merda. E deu.

Saí, não dei conta. Ia caminhando para casa, uns vinte minutos de estrada. Foi quando vi uma mulher cambaleando, já quase no meio da pista.

“Sai daí sua louca”, gritei. E fui lá prestar assistência.

Transtornada. Vestido curto, bêbada, sem controle nenhum sobre o próprio corpo.

No começo eu só queria ajudar mesmo. Impedir que ela se jogasse na frente dos carros e virasse mais um número no noticiário pela manhã. “Mulher morre atropelada depois de sair sozinha de festa universitária”.

SOZINHA.

Devia ter uns vinte e poucos anos. O vestido era azul, decotado.

Poderia ter perguntado onde ela morava, chamado alguém.

Resolvi pegar um táxi. Entramos, o motorista olhou estranho. Eu com uma mulher aparentemente dopada nos braços.

Temi que ele chamasse a polícia. O que eles pensariam? Eu só queria ajudar.

Abracei ela carinhosamente, simulando uma relação. Acho que foi o bastante, ele mudou o olhar e perguntou para onde.

Passei o endereço da minha casa. Para onde mais eu iria aquela hora da noite?

Questão de minutos estávamos na porta. Ela alheia a tudo. Começou a me chamar pelo nome de outra pessoa.

“Ei, você precisa dormir, amanhã te levo para sua casa”, falei. Eu não sabia o que fazer, na real. Estava pensando em que diabos fui me meter.

Entramos.

Segurava pela cintura, indicando o caminho. E foi exatamente nesse ponto que comecei a ter pensamentos obscuros.

O vestido curto, a cintura fina, os peitos saltando do decote.

E do nada comecei a pensar em tudo, desde o começo. Ninguém me viu saindo com ela. O taxista. Quantos taxistas existem nessa cidade? Ela estava sozinha. Provavelmente iria morrer se continuasse ali.

Que mulher sai sozinha?

E bêbada, drogada.

Roupa curta, chamando atenção. Se não morresse acabaria num beco com outros caras.

Agora não, estava protegida. Em casa. Longe das ruas.

Minhas mãos naquela cinturinha fina. Mulher de vinte e poucos anos.

Segurei com mais força.

Comecei a me esfregar para valer. E tudo parecia certo naquele momento. Afinal de contas, eu só queria ajudar.

Levei ela para o quarto. Beijei.

Ela não conseguia retribuir, nem negar. Só ficou ali, completamente alienada.

Tive coragem de ir além. O decote. Segurei nos seios.

E só.

Fui tomado por uma espécie de arrependimento.

Deixei ela na cama do quarto de visitas e fui dormir. Pela manhã emprestei um trocado para que ela pudesse ir embora.

Senti que ela lembrava de tudo que aconteceu. Ficou constrangida. Não pareceu capaz de me denunciar ou coisa que o valha.

Eu não fiz nada.

Já se passaram dois anos. Nunca mais a vi.

Consciência tranquila.

Ela estava drogada, sozinha, com roupas curtas e andando por ruas perigosas.

O que teria acontecido se eu tivesse estuprado aquela mulher?

Pensando bem, acho que estuprei.

Mas foi só isso.

Eu só queria ajudar.

**

Diga não à violência contra a mulher. Isso não é apenas uma ficção, é um relato daquilo que acontece diariamente nas grandes e pequenas cidades do mundo.

“Eu só queria ajudar” é o discurso utilizado para legitimar a violência, como se a culpa fosse da mulher. E, na maioria das vezes, nada acontece. Fica por isso mesmo.

Afinal de contas, ela estava sozinha. Roupas curtas. Sem controle sobre o próprio corpo. Percebe como esse discurso pretende abafar e tornar insignificante a violência?

Diga não.

Por um mundo onde esse tipo de pensamento machista deixe de existir.

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