O que todos nós estamos perdendo por causa do WhatsApp e não percebemos

créditos da imagem: eu mesmo

Muito se falou sobre o WhatsApp recentemente, a respeito de seu papel na disseminação de fake news e na influenciação de resultados eleitorais. Não é sobre isso, porém, que esse artigo trata. Esta é uma reflexão sobre o papel do aplicativo no cotidiano de todos nós, influenciando a forma como organizamos nossas conversas, cuidamos de nossas relações e usamos nosso tempo.

Houve um tempo em que os contatos eram segmentados por plataforma, conforme seu tipo e importância. Assuntos profissionais eram preferencialmente tratados por e-mail, meio mais sério e impessoal; conversas de família tinham espaço reservado nos almoços de domingo, vendo os rostos e ouvindo os risos; problemas urgentes de trabalho eram resolvidos com uma ligação, e muitas pessoas ainda tinham um segundo chip (ou mesmo outro aparelho celular) para ser acessado apenas por familiares e amigos.

Com a força gravitacional de um buraco negro, o WhatsApp foi, aos poucos, centralizando a maior parte das comunicações. Sua comodidade e custo quase zero fizeram dele o nosso canal de comunicação número um. O uso generalizado do aplicativo criou, ao mesmo tempo, uma solução e um problema. Por um lado, facilitou os contatos ao concentrá-los em um só lugar. Por outro, porém, coloca todas as comunicações no mesmo plano de importância. Na mesma tela está a conversa com os amigos, com a secretária da clínica querendo confirmar a consulta, com a/o namorada/o, com o vidraceiro mandando orçamento, com o grupo dos ex-colegas de turma do colegial, com a/o chefe, com alguém que você conheceu em um evento da sua área, com os filhos, com a pizzaria, com o seu cliente pedindo informações, com o grupo do trabalho voluntário e com a tia que manda bom dia.

Acontece que as conversas e os contatos não têm igual importância. Algumas mensagens de fato precisam de uma resposta ágil. Outras podem muito bem esperar até o final do dia. Algumas — como aquele papo sem pressa — podem esperar até o final da semana. E há conversas, enfim, que não deveriam sequer acontecer pelo WhatsApp — seja porque simplesmente não são relevantes, ou porque têm detalhes a acertar e seriam resolvidas de modo mais eficiente por um telefonema, ou porque são especiais e mereceriam um encontro pessoal. No entanto, fazer essa distinção na prática não é tão simples quanto parece, uma vez que os contornos foram se borrando.

Quando o WhatsApp começou, funcionava como um canal de comunicação direta entre pessoas próximas — já que os contatos são localizados a partir dos números de telefone que o próprio usuário tem na agenda. Grosso modo, era um SMS gratuito e com mais recursos. Enquanto no Facebook se adicionava praticamente qualquer pessoa conhecida (que bem poderia te mandar um inbox se quisesse), o WhatsApp era o espaço consagrado aos mais íntimos. Não existiam desconhecidos ali. Tanto que, nas conversas com a/o crush, passar do Facebook para o WhatsApp era um marco simbólico: significava evoluir para o próximo level.

O design do Facebook deixou de ser atraente para a comunicação com pessoas próximas. O motivo? Tanta informação competindo por atenção, que ninguém mais ouvia ninguém em meio a tanto ruído. Restou à rede social ficar sendo a praça barulhenta em que cada usuário, com seu megafone individual, promove causas, acontecimentos pessoais, eventos, produtos, memes, notícias, vídeos, ideias, disputando espaço no feed alheio com anúncios e conteúdo patrocinado.

Por serem diretas e pessoais, as mensagens que chegam pelo WhatsApp tendem a receber nossa atenção especial. E atenção, coisa cada vez mais rara e concorrida nos dias de hoje, é artigo de luxo. Por isso, não é de se estranhar que o aplicativo tenha começado a atrair conversas para além do círculo pessoal, em busca desse acesso VIP ao nosso tempo e atenção. Chefes tomaram a liberdade de falar com seus funcionários por lá, para serem lidos mais depressa do que eram pelos e-mails. Escolas tiveram a ideia de enviar os recados para as famílias por WhatsApp, para tentar um maior alcance do que os bilhetes na agenda. Associações criam grupos para divulgar atividades entre seus membros de modo mais eficaz que cartazes no mural ou mesmo postagens na rede social.

O problema é que quando todos os contatos têm o mesmo acesso privilegiado a você, não existe mais privilégio. Quando todas as conversas ocupam um espaço exclusivo, não há mais exclusividade. A capacidade humana de atenção tem um limite natural. Só algumas poucas coisas podem ser verdadeiramente importantes de cada vez.

O que todos nós estamos perdendo com isso

É compreensível que a adoção massiva de um novo meio de comunicação leve a mudanças culturais e comportamentais que, nos primeiros momentos, pequem pelo exagero e pela falta de noção. Vai levar tempo até que a maioria das pessoas internalize princípios de bom senso no uso da ferramenta. Enquanto isso não acontece, o caso é que o WhatsApp já se facebookizou, e a sensação que eu frequentemente tenho é a de estar atirado em um oceano de braços, cada qual tentando avidamente puxar para si um pedaço do meu tempo e da minha atenção.

créditos da imagem: Ted Van Pelt

A eterna sensação de falta de tempo parece ter se tornado um problema crônico de nossa época. Ficou mais difícil visitar as pessoas, ler livros, iniciar novos projetos (e concluir os existentes), ou ter simplesmente um momento para não fazer nada. Tarefas, prazos e compromissos se empilham, trazendo a sensação de que não cabem na agenda. Estamos sempre correndo atrás do atraso, e faltam horas até para dormir o suficiente.

Recentemente, porém, comecei a desconfiar de que nossa rotina talvez não seja assim tão atarefada. O tempo continua existindo e seria o bastante para o que precisa ser feito, mas está sendo consumido pelo barato que sai caro. A suposta praticidade que a comunicação instantânea do WhatsApp proporcionou está custando muito mais do que o prometido, porque gera desperdícios de tempo que não são percebidos.

O instrumento certo nas situações erradas. Um aplicativo de mensagens no celular é uma ferramenta extremamente prática para a conversa rápida entre indivíduos e grupos pequenos, assim como uma tesoura é para fazer recortes livres em folhas de papel avulsas. Porém, uma tesoura não faz bem o trabalho de uma guilhotina para cortar grandes volumes de papel, nem o de um estilete para fazer contornos precisos. Ao nos acostumarmos a resolver tudo pelo WhatsApp — o que parece simples e ágil — , é como se abríssemos mão das demais ferramentas de corte para utilizarmos apenas tesouras.

O aplicativo não possui uma série de funções importantes para gerir mensagens like a pro (afinal, seu propósito é outro), como: criar filtros, respostas automáticas, separar mensagens em caixas de entrada / pastas diferentes, marcar uma mensagem como “tarefa”, etc. Resta-nos ter que cuidar artesanalmente de um volume enorme de comunicações e dispender um tanto a mais de tempo com isso.

O tempo perdido é maior do que a soma das partes. É muito fácil subestimar o tempo que leva uma conversa: “vou só responder aqui em dois minutos” e, quando vê, já se passaram vinte. Ficar digitando com apenas dois polegares, lendo, digitando de novo, é um processo bastante lento. Poucos têm noção do tempo que gastam no aplicativo, menos ainda estão dispostos a conhecer a verdade. Ficamos apenas na ideia superficial de que é uma forma rápida de se comunicar.

Acontece que não perdemos tempo apenas durante uma troca de mensagens enrolada ou lendo a conversa infinita que ficou acumulada em um grupo. Cada vez que checamos uma notificação no celular, nossa atenção é desviada. Além do tempo gasto na “pausa não planejada”, precisamos de um tempo extra para nos concentrar outra vez no que estávamos fazendo. Um estudo da Universidade da Califórnia mostrou que a cada interrupção, leva-se em média 23 minutos para recuperar o foco. Agora, imagine quanto tempo custa sermos interrompidos a todo instante.

Perdemos tempo procurando coisas importantes em um mar de irrelevâncias. Sou professor universitário. Um dia, no intervalo de uma aula, uma aluna veio me procurar para tirar uma dúvida; acontece que ela não lembrava de uma parte da informação, e foi procurar nas mensagens do grupo de WhatsApp da turma. “Espere só mais um pouco, professor”, ela dizia, ansiosa, depois de quase cinco minutos rolando a tela em busca de alguma coisa que estava perdida no meio de um zibilhão de mensagens, recados e assuntos paralelos. A conversa daquele grupo era desesperadora; me dá um calafrio só de pensar em chegar ao final do dia, encontrar algo na casa de 300 mensagens não lidas e ter que passar o olho em tudo para ver se não ficou nada de importante para trás. Essa situação, porém, é familiar para a maioria de nós.

A febre dos grupos de WhatsApp invadiu também o ambiente profissional, e substituiu meios de comunicação muito mais apropriados para a função, como o e-mail. Aqueles que têm experiência no mundo do trabalho provavelmente já formaram hábitos e rotinas no uso do e-mail para manter a organização e não deixar pendências esquecidas. É bastante agoniante agora ter que checar também seu meio de comunicação pessoal (é bom que se lembre) e ficar reunindo pedaços esparsos de informação espalhados em conversas e grupos.

E as vezes as coisas importantes simplesmente se perdem mesmo. Certa vez, recebi uma ligação inesperada pela manhã. Era a minha chefe, perguntando se eu não iria aparecer para uma banca de avaliação da qual eu era membro. Fiquei sem reação, porque eu simplesmente não sabia que tinha aquele compromisso. Diante do meu espanto, ela justificou: “estava no grupo do WhatsApp”. Naquele momento eu estava há mais de 150km de distância da faculdade, e não havia o que fazer.

Inconformado com o possível lapso, sendo a pessoa sistemática com compromissos que sou, vasculhei o grupo do WhatsApp a procura desse comunicado. Encontrei, então, uma mensagem de quase um mês atrás que dizia apenas: “segue o calendário dos TCCs”, acompanhada de um arquivo em PDF que, de fato, tinha meu nome assinalado em uma das páginas. Lembrei, então, de ter visto essa mensagem na época. Não cliquei no arquivo por uma única razão: em nenhum momento, desde a minha contratação, fui informado de que faria isso. Logo, não parei para olhar.

Parecia óbvio para mim que eu estava naquele grupo de WhatsApp para acompanhar os assuntos relacionados a mim, e que poderia economizar tempo passando reto pelo que não tivesse a ver comigo. Essa experiência me mostrou que eu estava errado. Espantosamente, as pessoas partem do pressuposto de que estamos usando nosso precioso tempo para abrir e ler toda e qualquer coisa que circula em grupos. E presumem que isso já está fazendo por elas, automaticamente, todo o trabalho de se comunicar.

Expectativa criada é dívida. Na época áurea dos mensageiros de computador, como ICQ e MSN, “estar online” era a parte do dia em que uma pessoa estava sentada em frente à tela, conectada à internet, podendo conversar por mensagens. O resto do dia era a parte em que não podia. Qualquer mensagem que chegasse depois teria que esperar até a próxima vez.

Hoje, que os mensageiros foram da mesa para o bolso e a conexão foi do cabo para as antenas, não existe mais a parte desconectada do dia. No mundo do WhatsApp, “estar online” significa apenas estar com o aplicativo aberto na mesma hora em que a outra pessoa está olhando (ou stalkeando) a janela da conversa.

créditos da imagem: Olhar Digital

Por sinal, essa é uma opção de privacidade que o Zuckerberg não te dá: a de não ser dedurado enquanto usa o aplicativo. Não há como impedir que outros vejam que você está online, a menos que faça gambiarras como desligar a internet ou recorrer a apps terceiros (que, em contrapartida, terão acesso ao conteúdo de suas mensagens).

E ainda que você desative todas as funções que dão aos contatos o poder de monitorar suas atividades (confirmação de leitura, visto por último, etc.), o fato é que a expectativa de que as pessoas leiam e respondam na mesma hora já faz parte da cultura. A prova é que, em muitos casos, nos sentimos constrangidos se demoramos para responder. É de praxe acrescentar um “me desculpe, estava na correria”, “o cel ficou no silencioso”, e outras variantes de justificativa. Mesmo quando você poderia ter respondido e não o fez simplesmente porque não estava a fim naquele momento. Quem nunca?

Ser acessível demais é um problema. Não quando é para as pessoas mais importantes da nossa vida, é claro. Filhos, esposa/o, irmãos, namorada/o, amigos/as. Mas o problema é que o WhatsApp trouxe contatos de todos os graus para o mesmo espaço e, simbolicamente, para o mesmo círculo de intimidade. Acontece que, na vida real, estar conectado o tempo todo não significa estar disponível a qualquer hora para responder demandas de trabalho do chefe. Estar online na hora do almoço trocando mensagens com a filha não quer dizer também estar disponível para falar com um cliente. Passar a madrugada online porque está em uma conversa muito animada com a paquera significa, você sabe, estar ocupado para todo o resto do mundo naquele momento.

Gostamos de poder acessar e ser acessados por algumas pessoas a qualquer hora. O problema é dar a todas as categorias de contato o mesmo privilégio.

foto reprodução: Ana Prado

A moça que recebeu cantadas do funcionário da NET pelo WhatsApp, após um atendimento, é um exemplo de por que banalizar esse meio de comunicação pode não ter sido tão boa ideia. Quando alguém que você mal conhece diz “me adiciona no zap”, quase não se leva em consideração que, na verdade, a pessoa está recebendo o número do seu celular. Quando você é adicionado em um grupo com um monte de gente desconhecida, quase não é lembrado que é seu contato pessoal que está sendo exposto. Por mais que isso tenha se naturalizado, algo me diz que deveríamos ter um pouco mais de reserva.

A zapificação nivela os relacionamentos não apenas porque eleva os contatos mais distantes a um status privilegiado de acesso a nosso tempo. Mas também porque frequentemente rebaixa as pessoas mais importantes da nossa vida ao espaço de uma janela de chat, em substituição a formas mais ricas de interação.

Ganhamos tempo quando a comunicação instantânea por mensagens ajuda a solucionar rapidamente um problema ou obter uma informação. Porém, quando a escolha por esse meio de comunicação é feita por inércia, substituindo a conversa olho no olho (que não é vídeo), o timbre da voz (que não é áudio), o riso verdadeiro (que não é kkk) e o calor do toque (que não tem substituto), há um enorme empobrecimento das relações.

Por exigir um esforço mínimo de engajamento — enviar algumas palavras e emojis demanda muito menos energia emocional do que sustentar um contato pessoal ou por voz — o WhatsApp se tornou um convite para permanecer na zona de conforto. Ao mesmo tempo em que deixa todo mundo ao seu alcance, garante que as pessoas, aparentemente tão próximas, irão manter uma distância mínima para não incomodar. E uma das coisas mais valiosas que estamos perdendo com isso, mais do que o próprio tempo, são as oportunidades de conviver mais profundamente com quem amamos.

Existe outro jeito?

É curioso aceitarmos como tão natural (e até inevitável) um comportamento social que sequer existia há 10 anos. Porém, uma barreira psicológica parece bloquear a reconsideração urgente que todos nós precisamos fazer sobre a forma de usar a tecnologia. Eliane Brum explica muito bem:

Percebi também que, em geral, as pessoas sentem não só uma obrigação de estar disponíveis, mas também um gozo. Talvez mais gozo do que obrigação. (…) É o gozo de se considerar imprescindível. Como se o mundo e todos os outros não conseguissem viver sem sua onipresença. Se não atenderem o celular, se não forem encontradas de imediato, se não derem uma resposta imediata, catástrofes poderão acontecer.
O celular ligado funciona como uma autoafirmação de importância. Tipo: o mundo (a empresa/a família/ o namorado/ o filho/ a esposa/ a empregada/ o patrão/os funcionários etc) não sobrevive sem mim. A pessoa se estressa, reclama do assédio, mas não desliga o celular por nada. Desligar o celular e descobrir que o planeta continua girando pode ser um risco maior.

Aos que já estão em estágio avançado dessa síndrome do imprescindível, tudo isso há de parecer mimimi, falta de realismo e nostalgia do passado. Não é a estes que me dirijo, mas a você que também já percebeu que essa lógica é insustentável e está buscando uma alternativa.

E se parássemos de usar o WhatsApp? Eu já tentei. Cheguei até a avisar as pessoas. Mas não consegui cumprir a promessa. Que frustração. Logo no dia seguinte, precisei organizar algumas atividades e percebi que a única forma de fazer os contatos seria por lá (também precisei de acesso VIP aos outros). Então, voltei e ainda estou até hoje. Confesso que não encontrei uma alternativa, mas ainda sofro. Vez ou outra, tenho uma crise de whatsappfobia e chego a ficar alguns dias sem responder a ninguém. O que também é uma perda, pois não quero parecer indiferente às pessoas que vêm falar comigo — gente que, de uma forma ou de outra, faz parte da minha vida.

No próximo artigo, irei compartilhar algumas estratégias que desenvolvi recentemente para usar o aplicativo da forma mais consciente possível. Será possível manter-se conectado sem sucatear seu tempo e suas relações?Acompanhe essa conversa aqui pela New Order.


Este é meu primeiro texto no Medium. A vontade de escrever nasceu de inúmeras reflexões que faço e gostaria de compartilhar. Se essa leitura te agregou novas ideias, deixe algumas palmas 👏. E adorarei ler todas as sugestões, críticas e comentários que você tiver a fazer sobre esse texto.