O que uma criança de 5 anos pode ensinar sobre felicidade

Raphael Valenti
Aug 26, 2017 · 5 min read
foto por Stella Caraman

Em uma viagem recente, essas maravilhosas coincidências da vida me colocaram na cadeira de um teleférico, ao lado de uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Alguém que em poucos minutos me ensinou muito sobre felicidade.

Seu nome era Scarlett e ela devia ter uns cinco anos.

Scarlett estava aprendendo a esquiar. Não conseguia parar quieta, maravilhada com a neve. Seus olhos iam de um lado pro outro, mais rápidos que o grupo de japoneses passando embaixo de nós, com seus snowboards e casacos de cores vibrantes. Na tentativa de distrair Scarlett, a professora de esqui ao lado dela puxou uma música.

Se você está feliz e você sabe, bata palma.

Scarlett não pensou duas vezes e começou a bater palmas. Descoordenada, é verdade, mas ainda assim, Scarlett bateu palmas. Eu? Eu não sabia o que fazer. A pergunta se aplicava a todos no teleférico? Se eu respondesse, isso contava como aula e teria que pagar? Onde estão os pais dessa criança? E o mais importante: eu era feliz?

Não fazia ideia. A verdade é que nem sei como definir felicidade. Como saber se eu tenho algo que eu nem sei o que é?

O dicionário define felicidade como “estado de espírito de quem se encontra alegre ou satisfeito; alegria, contentamento, fortúnio, júbilo.” Muito bonito, mas ainda muito vago pra mim. O que mais? Tem muita gente que diz que dinheiro pode trazer felicidade, mas pesquisas recentes mostram que a partir de uma certa renda, ter mais dinheiro não promove aumento significativo no bem estar de uma pessoa. Dinheiro, então, não é felicidade. Até porque, Scarlett parecia muito feliz e duvido que ela tenha um emprego.

Onde está a felicidade, então?

Não sei, talvez felicidade não seja um destino. Talvez felicidade seja a viagem em si. Eu sei, você já deve ter ouvido essa frase. É um conceito antigo, mas resiste ao tempo porque funciona, diferente de outras coisas que não resistiram ao tempo como a pochete ou o Exagelado.

Acontece que a gente confunde felicidade com objeto. Felicidade é intangível, deveria vir de dentro, mas vivemos buscando ela no lado de fora. É mais fácil almejar uma promoção, uma casa nova, um celular novo. Isso sim vai trazer felicidade. Agora, quantas vezes você não desejou algo — seja um relacionamento ou uma promoção - e assim que conseguiu não ficou tão feliz quanto achou que ficaria? Quantos desses desejos realizados apenas alimentaram o desejo por mais coisas?

Como bem colocou o professor Clóvis de Barros Filhos: Quando você quer, é porque você não tem ainda. E quando você tem, aí você já não quer mais.

Ferrou, então. Qual é saída? Porque se as grandes coisas que desejamos não trazem felicidade, o que vai? Ai que entra a Scarlett. Era ela feliz. Por que? Bem, você pode dizer que é porque ela é criança e não entende da vida. Eu acho o contrário. Ela é criança e por isso mesmo entende da vida.

A gente vive projetando nossa felicidade no futuro. Eu sou feliz? Se comprar aquele carro daqui 3 meses, sim. Se eu ganhar aquela promoção, quem sabe. É sempre lá na frente, nunca no momento. Eu sei, é clichê, mas o presente é tudo que a gente tem. O passado já foi, o futuro não chegou. Impossível não concordar com isso. Mesmo sabendo disso, a gente gasta mais tempo pensando nas coisas que já fizemos ou deixamos de fazer e nas coisas que ainda não fizemos.

Scarlett, não. Ela simplesmente bate palma. Ela simplesmente está naquele momento e isso basta.

Por mais que a gente queira pensar o contrário, a nossa vida, 99% das vezes é mediana. Nem todo mundo vai dar uma volta ao mundo, ser um ator famoso, escrever a próxima Trem Bala. Nem todo mundo vai largar o emprego e abrir um café hipster no Itaim ou encontrar o amor da vida na fila do pão. Não vai ser assim. E quer saber? Tá tudo bem. Felicidade é democrática, todo mundo pode ter. A gente só precisa olhar nos lugares certos. Claro, essas coisas que eu mencionei podem acontecer com você — e espero que aconteçam, nunca achei um café bom no Itaim — mas matematicamente, é mais difícil, não?

Pensa comigo. O que tem mais chance de acontecer: você largar seu emprego agora e dar uma volta ao mundo ou ir no bar com suas amigas do colégio e lembrar das merdas que vocês faziam? Você ganhar uma promoção ou acordar sua namorada com um beijo de bom dia e o quarto cheio de pétalas de rosas? Você ganhar um carro numa promoção de SMS ou o shuffle tocar uma música que você adora e nem lembrava que estava na playlist?

Não, não estou falando pra gente desistir de nossas ambições ou nunca mais comprar nada. Nós somos apenas humano. É normal ter desejo por algo que não temos. E sim, é muito bom ser promovido, abrir a caixa de um celular novo, entrar no carro que você trabalhou anos pra conseguir comprar. Sair do aeroporto na cidade que você sempre quis conhecer. É válido. Mais do que isso, é do caralho. Nada mais justo do que a gente se sentir feliz. O problema é ficar sempre ansiando pela próxima coisa que vai nos fazer feliz, deixando de aproveitar aquilo que já temos. Pra nossa sorte, a felicidade está nos pequenos momentos e estes são muito mais frequentes. Acontecem todo dia. Temos 1 mês de férias por ano, mas quantas vezes por anos você senta no bar com seus amigos e apenas…..conversa? Comece a aproveitar os pequenos momentos e você vai ver como, na verdade, eles são os grandes momentos da nossa vida.

Cinco minutos depois da brincadeira, o teleférico chegou no topo da montanha. Com ajuda da professora, Scarlett desceu perfeitamente. Eu, no meu segundo dia de prática, tomei um belo tombo. Scarlett olhou pra mim e disse.

Você está bem?

É, até que sim.

Era mentira. Eu estava morrendo de medo descer a montanha. Scarlett, aquele 65cm de pessoa, parecia um monge budista de tão calma:

Ei, posso te perguntar uma coisa? Você não tem medo de descer essa montanha não?

Scarlett pensou um pouco e deu de ombros.

Eu só venho pela cadeirinha. Lá é muito mais legal.

Apenas cincos anos e ela já sabia que a felicidade não está na começo da montanha, muito menos no final. Ser feliz não é sobre onde você vai chegar. A busca pela felicidade é a felicidade em si.

E caso você esteja curioso, ela desceu a montanha tranquilamente. Sei disso porque fui descendo ao lado dela, um tombo atrás de tombo e sem conseguir esconder um sorriso, torcendo loucamente pra professora cantar a música de novo e eu poder bater palmas.

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Raphael Valenti

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pé frio, coração quente @naoevoce_soueu

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