O que uma lei de trânsito tem a nos ensinar?

Se você não tem carro como eu, saiba que a “lei do farol durante o dia” também vale para você: sejamos luzes, sejamos visíveis.

Hoje, 8 de julho, começa a vale em todo Brasil a lei que obriga o motorista a usar, durante o dia, farol baixo nas estradas.

Mas esse texto não é sobre o motorista, e sim sobre todos os cidadãos.

Já parou para pensar que você pode irradiar sua luz por todos os espaços não só de “noite”, mas também de dia?

Não entendeu? Explico.

Quando está escuro, a luz de um carro é bem visível. A escuridão deixa de existir na direção em que a luz é apontada e a luz cumpre o seu papel: fazer visível o que antes não era. Mas e durante o dia, que já está tudo claro e não há escuro, a luz continua a ser útil? Claro. A luz, mesmo envolta por toda a claridade do sol, marca sua presença, mostra que há algo ali, vindo em sua direção. Essa luz contribui para dissipar a escuridão? Não. Mas contribui para mostrar que existe algo ali que precisa ser notado. Algo que precisa ser visto.

Mas afinal, o que EU tenho a ver com isso? Nem carro eu tenho, camarada!

Bom, é exatamente ai que saíamos da estrada de asfalto e entramos na estrada da vida. Na estrada do cotidiano da sociedade.

Imagine uma situação: um período obscuro. Nele, direitos não são respeitados e leis são aplicadas de diferentes maneiras, com bases em privilégios que se atrelam desde a pigmentação da pele até a escolha do sexo que você prefere se relacionar. O órgão que foi criado para manter a ordem mata na periferia e supostamente protege no centro. As mulheres tem medo de sair à noite e serem violentadas. Pessoas transsexuais são mortas pelo simples fato de serem quem realmente são. Bom, imagine tudo o que você colocaria em um mundo obscuro.

Agora, imagine que você é a luz.

Sendo a luz, você buscará iluminar todos esses pontos que antes ficavam no escuro. Você vai denunciar. Você vai tentar ajudar. Você vai se irritar e desanimar. Mas, apesar disso, você vai continuar ligada ou ligado, afinal sem seu brilho de luz, seu mundo não é nada. Sem ele, você não enxerga e os outros não são enxergados, portanto você deve continuar ali. Iluminando. Muitos tentarão apagar a sua luz, mas você persistirá. Diferente da estrada material, nessa estrada de valores, ninguém te multará por não acender a luz. Mesmo assim, o seu gerador interno nunca deixará você apagá-la.

Agora, imagine que tudo isso que, antes, permanecia no escuro começa a ser iluminado. Diversas luzes como você passam a chegar a conclusão que os que estavam no escuro não podem mais lá permanecerem. Negligenciados. Invisíveis. Tratados com indiferença, mesmo sofrendo diariamente. Além disso, esses mesmos, que antes ficavam no escuro, passam a ver que o lugar deles não é lá, embora tenha sido jogados nesse cantinho esquecido. As luzes começam a se multiplicar e cada dia mais, vai ficando um pouquinho mais claro. Um grupinho de luzes, que aqui chamaremos de mídia, será chamado para iluminar também esses pontos escuros. Outro grupinho, chamado empresas, entrará na iniciativa também, embora nunca tenha sido chamado diretamente (e muitas ainda analisemo quanto poderão ganhar ao lançarem luz e se isso compensaria frente ao gasto de energia).

Nesse novo mundo de claridade, ainda há muitas luzes aprendendo a respeitar e valorizar as outras luzes. Tem luz ainda aprendendo que se juntando a outras luzes podem ser ainda mais fortes. Tem luzes que ainda piscam, mas logo voltam a iluminar de novo. Tem luz que se reconstrói luz todo dia. Mas, nesse ambiente, o importante mesmo é ser luz, irradiar claridade. Dissipar a escuridão onde nunca devia ter havido qualquer resquício dessa, em um trabalho conjunto que reúne tanto você que antes era jogado no escuro, quanto ele que sempre possuiu o privilégio da visibilidade, em seu aquário de claridade, mas não se dava conta do quanto era favorecido desde sempre.

Agora, já temos um sol. Já há muito clarão, embora espaços de sombra ainda persistam em existir. Nesse momento, contudo, você começa a reparar que os dois últimos grupinhos — as luzes mídia e as luzes empresas — começam a se apropriar desses espaços de luz. Esses grupinhos, que nos tempos de escuridão muitas vezes contribuíram para o escuro ou para a invisibilidade dos que lá permaneciam, passam a se considerar os únicos legítimos locais de claridade a partir de onde as luzes devem ser irradiadas ou pelo menos o local onde todos os portadores de luzes precisam passar para serem reconhecidos como luzes. Em alguns momentos, esse grupinho ainda deixa uns pontinhos de escuridão invadir o seu meio. Pontinhos esses que retiram sempre um pouquinho da claridade, ainda que brevemente, já que logo são criticados por aqueles que descobriram a luz e escolheram nunca mais abrir mão dela. Os discursos de ódio desses pontinhos de escuridão continuam a surgir no grupinho da mídia e das empresas, mas começam a ser combatidos com muita força. Combatido tanto pelas luzes individuais, quanto por umas luzinhas que se autodenominam de independentes ou alternativas. Há também as luzinhas coletivas. As luzinhas da militância. E as luzinhas amigas. E muitas outras.

É nesse ponto que, mesmo no puro clarão, se entende o porquê sua luz continua tão importante. Só você é realmente capaz de afastar os pontinhos da escuridão que ainda tem tanto prestígio e influência nos grupinhos que entraram por último na campanha da claridade. Só você, que acendeu sua luz antes e que, naquele passado de escuridão, ficava — ou tornava-se — invisibilizado, jogado nos numerosos locais escuros, tem conhecimento de causa para tratar de temas que só você passou: seja em sua campanha de acender luzes, seja em sua campanha de tirar a escuridão que antes haviam imposto a você.

Você LGBT. Mulher. Negro. Você marginalizado e antes totalmente excluído da sociedade. Você que sofre diariamente nas periferias da cidade na mão daqueles que se dizem protetores da ordem e da lei. Você que virava chacota dos defensores da “moral e dos bons costumes”. Sim, você! A luz é sua. A luz é você.

Embora, esteja clareando (e cada vez mais claro), a luz será sempre sua e você não poderá nunca deixar apagá-la. Mesmo de dia. Agora é lei. Mostre que você está ali. Não pelos outros, mas por você mesmo. E mostre que você se importa com as outras luzes. Nunca mais a escuridão pairará sobre nenhum de nós.

Mas, conforme a lei da estrada, não se esqueça que é obrigatório o “farol” (não confunda com a lanterna): forte, que ilumina, que marca presença, que não depende de pilha dos outros para existir. Se for para mudar de status, passemos longe da lanterna. Se for para mudar, que seja para sermos sol. Em um mundo, em que a escuridão não mais existirá e a posse da luz estará na mão daqueles que realmente sabem onde estiveram — e não querem nunca mais voltar para lá.