O mundo tem virado maniqueísta, pelo menos o mundo ao meu redor. É como se houvessem apenas dois times, duas cores, duas posições políticas, que existissem apenas dois sabores de pizza. Parece que qualquer coisa fora disso é invisível. Ok, isso é um perigo mas ‘ok’, por hora não temos como lutar contra. Talvez isso tenha a ver com o sentimento de disputa despertado por essa maneira ocidental de viver. Vai saber

De tanto estar exposto a esses debates maniqueístas, comecei a ficar paranoico também, outro dia uma conversa de Facebook me levou a mudar as minhas crenças sobre o futuro da arte ao meu redor. Quero que fique claro aqui, que, como não sou cientista social ou pesquisador, formulo minhas linhas de pensamento a partir da amostra que tenho, ou seja, da minha experiência e convivência quotidiana.

Certo de que fui entendido, prossigo minha análise bem pouco cientifica e mais baseada na experimentação diária. Este é um mundo de “exatas”, este é o mundo das fórmulas e resultados positivos, o mundo do sucesso financeiro, seja lá no que for. Este é o mundo que permitimos que fosse construído e ele foi assentado sobre valores de quem o comanda, para que fossem admirados, registrados na história, para que fossem eles a criar as teorias de produção, e quando falo de produção, estou falando da produção de qualquer coisa.

Mas nem toda industria conseguiu assimilar as teorias de produção desse mundo acima descrito. A industria cultural por exemplo ficou fora do script, ou pelo menos parte dela, pois é muito complicado também conseguir definir o que é arte. Isso já seria outro paradigma a ser discutido.

Eu observo em minha cidade um museu de arte contemporânea quase vazio, movido pela paixão de seu curador, que com escassos recursos, se conecta com mais uma data de ativistas. Nomes das letras, da pintura, da expressão corporal, da música e das artes cênicas, para criar movimento naquele lugar.

Eu tive uma matéria de arte na escola quando pequeno, mas ela era tão importante quanto educação física na altura, não reprovava ninguém, nenhuma outra escola avaliava meu desempenho em artes quando ia me matricular. Inteligente era quem tirava boas notas em matemática. Uma criança que fechava as provas de português, história, geografia só conseguia provar seu valor se fizesse o mesmo nas matérias de cálculo.

Devido ao caráter subjetivo da arte, nunca foi fácil avalia-la. Por exemplo, você pintava um quadro numa atividade de classe e a professora dava uma nota, a mesma do seu colega e você achava o quadro dele horrível e isso era uma unanimidade, assunto até no recreio, mas no fim, ninguém ligava. Todos passávamos!

Essa necessidade de mensurar a arte tornou-se estranha, cada um achava uma maneira de o fazer. Entre meus amigos, na adolescência, melhor era quem tocasse Wave do Jobim sem hesitar e quando chegava a minha vez na roda de violão, eu preferia não participar, para não sofrer bullying após tocar uma canção do Black Flag.

Não era raro um amigo perguntar se eu sabia fazer o exercício tal ou a escala de X em modo Frígio, Lídio ou Mixolídio. O exercício não é arte, os exercícios são extremamente necessários para desenvolver as nossas capacidades físicas e a compreensão de técnicas. Mas devemos lembrar que a arte é proposta.

Entre as músicas e os livros de ciências sociais, continuei me interrogando porque raios tratávamos tão mau a arte e quando eu acreditava que a resposta não me chegaria… heis que numa reunião de trabalho, ao analisar os anseios de um cliente me vem a resposta! Ele era justamente o reflexo da dureza, da exatidão e do sucesso financeiro que as “ciências exatas’ exigem do bom rapaz educado, estudado, frequentador de festas indoor.

Naquele momento de iluminação todas as frases que ouvi quando novo fizeram sentido, como quando mostrei meu primeiro projeto musical a um tio meu e ele disse: “Rock, pra que banana você está tocando rock? Pagode aqui na Bahia é o que dá dinheiro.” Dinheiro era o resultado do pagode, rock não tinha resultado aqui. Assim era fácil de entender, pois a gente já trabalha quase que o tempo todo com o que não gosta, não teria qualquer problema tocar algo que você não gosta. Afinal, dá dinheiro.

Assim, eu entendi como a convenção social ao meu redor conseguia mensurar a arte. Arte boa era que dava dinheiro e ponto! Talvez muitos de vocês discordem deste meu ponto de vista… talvez considerem ele meio caótico e tal. Mas eu vejo provas por aí, o tempo inteiro. Para o cidadão médio, não importa a história que a arte tenha, pouco menos ainda a do artista. Minha irmã acha Romero Brito fantástico… Certa feita expressei minha opinião sobre ele e de bate-pronto, ela respondeu: “Ele está estouradíssimo, meo beeeim! Quem é vocêêêê?”. Pra quem não está familiarizado com as gírias da minha região, ‘estourado’ é alguém solicitado, de sucesso, popular, bem sucedido… Em resumo “Ryco, Phyno e Bem Nutrido!”

Lembra lá em cima quando eu falei que o mundo era das ‘Exatas’? Prossigo… A ideia de produção é quase maniqueísta também. Quando falamos de produção, na maior parte dos livros só encontramos “bens ou serviços” e eu me pergunto sobre a arte, onde ela se encaixa nisso? A arte meu bem, as vezes é um serviço… Quando é mensurável. Por exemplo Wesley Safadão, ou o raio que o parta, lota o parque de exposição. As vezes penso que a música de Wesley Safadão é algo como o “design funcional”. Parece arte, “taste like art”… mas talvez não seja. Quem vai saber? Não dá pra mensurar a arte assim, não com esses termos.

No mundo das Exatas, você vale o que consegue receber em moeda. Você precisa ter pra ser e mostrar que tem, pra sobreviver e assim construir outras chances de ter mais, porque nunca é o suficiente. No mundo das Exatas, até dentro da arte precisamos dizer a que viemos e quase não há espaço para a expressão pela expressão. Este é um mundo de números, fórmulas, sucesso financeiro, vencer na vida. Um mundo de resultados, um mundo pensado somente pra ser lucrativo, pensado pra ser vantajoso, não pode, não quer, não vai jamais se entender com a arte.

A ela, restará um canto escuro e sujo num museu quase que sem manutenção, um museu que a qualquer hora pode ser fechado para dar lugar a um novo e lucrativo empreendimento comercial, pois o tal museu não tinha assinaturas suficientes no livro de visitas, fora o fato de ser um ônus desnecessário nas contas da prefeitura. A arte, restará também as horas vagas de um corretor de imóveis que antes tocava violino na Orquestra Sinfônica da Bahia.

Todo dia ouço gente por ai dizendo a boa música está morrendo, que antigamente que era bom, que nunca mais surgirá um Beethoven, um Bach, um John Coltrane, um novo Beatles… Concordo, não surgirá! A dinâmica mudou e esses nomes aí não jogaram o jogo dos resultados, pelo menos não esse que estamos jogando. Pra fazer boa arte é preciso tempo, dedicação, experimentação. É preciso viver ela e seria ótimo também viver dela.

Me chame de pessimista, mas não acredito que vá surgir um outro John Coltrane tocando somente no intervalo do almoço. Neste lugar, domesticados a ter resultados numéricos e financeiros mensuráveis, estamos sempre cansados para pensar e produzir. Estamos sendo sugados, um a um, para dentro dessa dinâmica bruta e por isso eu me assusto só de pensar o que vai sobrar pra arte.