O Racismo brasileiro não tem casa

Tulio Custódio
Jun 4, 2018 · 3 min read
Piron Guillaume, Unsplash

Uma das coisas que o mito da democracia racial brasileira traz é a crença de que o racismo no Brasil possui característica cordial, ou seja, não é agressivo, conflitivo “de cara”.

Dessa maneira, o racismo como evidência explícita nunca é benquisto como problemática a ser falada, enunciada, exposta publicamente — e, sem dúvida, a crença de que se vive em um Estado de direito, no qual um problema precisa ser “judicializado” para ser anunciado publicamente (como fora a questões das leis segregacionistas nos EUA e África do Sul) corrobora para isso.

O ponto é: o argumento de que podemos resolver problemas concernentes ao racismo via inbox/mano-a-mano é problemático a medida que não considera que muito do que tem sido exposto publicamente (denúncias das mais diversas) funciona como modo de pressão política. E política é pública, política é na ágora. Essa é uma lição das lutas do século XX, e a crença da “fluidez” das questões não pode subsumir esse fato.

O público dói? Dói. Sabemos que as feridas de nós pessoas negras já estão expostas. Mas, o que não pode continuar sendo “tranquilo” é que a dor da exposição seja maior do que a dor e a ferida ontológica do problema estrutural que se mantém, se reproduz e continua, sem precedentes, a “ser o arame farpado que rasga a dignidade das vidas negras” (Abdias do Nascimento).

Entendo sim as falas dos companheiros e companheiras sobre “nossos problemas temos que resolver dentro de casa”. Mas o racismo brasileiro, e está aí sua especificidade (marcada na grande produção historiográfica, sociológica, política, antropológica, ativista, etc e etcs), funciona muito bem justamente por não criar “uma casa”.

O Negro brasileiro não divide uma “casa” com outros negros! É, se muito, um grande cortiço, sem portas da frente, e com janelas e buracos. Por eles, alguns passam, outros ficam. Alguns veem a luz do sol, outros a escuridão eterna.

O racismo brasileiro, na sua essência genética colonial, é a tecnologia mitológica mais bem feita e organizada. E seu modelo de funcionamento é tão bem regulado que o racismo anti negro da branquitude (aquela patológica, que Guerreiro Ramos nos ensinou) passa pela marca, pela cor, mas serve para ser apropriado em qualquer contexto. Vide a quantidade de falas e exposições de pessoas brancas que se sentiram “atacadas” com o último caso da representação, ou qualquer outro. Vocês conseguem perceber que não há casa quando as pessoas negras se sentem mal de falar sobre a violência que as acomete e, no limite essencial, quer a “morte delas”, mas pessoas não-negras se sentem à vontade para falarem que negros exageram, mimimi e etc? Vcs percebem que não há “casa” quando pessoas brancas, a priori esclarecidas (na perspectiva do Iluminismo), entendem que “raça é um probleminha” e não A questão em uma realidade colonial? Ou que se veem pegadas na mediocridade das soluções aparentes — mesmo envoltas de uma literatura que parte da perspectiva dialética para evidenciar as especificidades e armadilhas dessa “aparência”?

Este racismo é um problema ético, moral, no qual a humanidade do negro não é vista e entendida, e não importa quantos textões sejam publicados: é apenas na tensão pública de ocupação de espaços que o fosso vai se evidenciando. Frantz Fanon já deu a letra… O incômodo da peça de teatro não é da arte: o incômodo é do espaço, é da base em que se construiu a realidade de interação colonialista, fundamentada em dois dispositivos para morte: guerra e raça (obrigado Mbembe por essa lição!).

Não é no um-a-um que vamos resolver isso. Nós precisamos ocupar o público mesmo. Dói… Mas não existir é pior ainda. O amor que podemos disseminar entre nós, e essa é uma das lições que aprendi com feministas negras como bell hooks e com Black Lives Matter, é da luta intransigente por nossas vidas. A tensão é aparente. A exclusão, a eliminação é a regra. E é sobre isso que estamos falando. Publicamente. Que bom.

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Tulio Custódio

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Sociólogo, Sócio e Curador de Conhecimento na Inesplorato. Mais: about.me/custodta ;)

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