O rastro que deixamos a cada momento no mundo virtual

E por que insistimos em ignorar que ele existe?

Mariana Klein B
Jan 30, 2018 · 6 min read

Uma das partes mais divertidas de ensinar a trabalhar com mídias sociais é o momento em que começo a falar sobre segmentação. Mas, ao mesmo tempo em que me maravilho com os olhares de surpresa dos alunos ao descobrirem que cada passo seu é monitorado, me surpreendo com o quanto as pessoas não se preocupam com o rastro que deixam no mundo virtual.

Vamos entender um pouco do funcionamento do rastreamento e a razão pela qual aquele tênis de corrida está te perseguindo há 3 meses em todas as plataformas digitais?

Por que somos rastreados?

Eu poderia aqui criar pelo menos 4 teorias da conspiração diferentes, mas prefiro focar na principal razão envolvida nessa história: dinheiro.

Já diz o ditado que “não existe almoço grátis”, e o mesmo vale para plataformas digitais. Não existe serviço grátis. Por trás de uma rede social ou de uma plataforma de busca, por exemplo, há um batalhão de designers, programadores e muitos outros profissionais que fazem com que tudo esteja funcionando quando você quiser publicar aquela foto linda da formatura da melhor amiga ou pesquisar passagens aéreas baratas para o carnaval.

Essas pessoas precisam ser pagas, elas têm salários e benefícios e alguém precisa pagar por isso. Geralmente quem paga é o anunciante que usa essas plataformas para divulgar seus produtos e serviços ao público.

Mas para o anunciante pagar, ele precisa comprar alguma coisa, certo? E o que ele compra é o acesso aos dados demográficos, de comportamento e de interesses do público. E, vou te contar uma coisa: as possibilidades de segmentação são tão fantásticas e avançadas que comprar publicidade em uma plataforma digital é muito mais rentável que comprar na TV ou rádio.

Como somos rastreados?

O básico são as informações que entregamos ao criar nossas contas: nome, e-mail, telefone celular.

E se, neste momento você pensou: “ainda bem que não coloco meu celular em nenhum cadastro de rede social”, deixa só eu te perguntar uma coisa: Você usa WhatsApp? Como se cadastrou sem dar seu número?

Importante lembrar que algumas redes sociais pertencem à mesma empresa, como o WhatsApp e o Instagram, que pertencem ao Facebook. Nesses casos, as informações acabam sendo interligadas, até porque quando o anunciante cria uma campanha ela pode ser exibida tanto no Facebook quanto no Instagram e rede de públicos (aplicativos e sites que cedem espaços para o Facebook exibir campanhas e ganham um dinheirinho com isso).

Além dos dados básicos, temos o comportamento e interesses dos usuários. Este é um rastro que você deixa toda vez que assiste um vídeo, curte, comenta ou compartilha uma publicação, clica em uma notícia, e dizem as más línguas que isso também envolve o que você escreve nas conversas dos aplicativos de mensagens privadas — Messenger, WhatsApp, etc.

Temos também os dados de geolocalização, que incluem verificar de onde o usuário se conecta, se ele mora naquela cidade (está sempre localizado lá), se ele está visitando aquela cidade (está a mais de 250 milhas da cidade onde sempre está localizado) e a frequência de deslocamento. Esta é uma das segmentações que considero mais impressionantes, a capacidade de anunciar apenas para pessoas que viajam a trabalho.

E não adianta andar por aí com o GPS desligado, porque sua rede de celular e uso de wi-fi indicam sua localização, talvez não tão certeira como com o GPS, mas certeira o suficiente para determinar em que cidade você está.

E, ainda, temos os dados de navegação na internet, que ajudam o anunciante a criar campanhas de remarketing (para alcançar uma pessoa que visitou a loja virtual, colocou o tênis no carrinho mas não finalizou a compra).

Esses dados ficam disponíveis quando o anunciante instala uma tag ou um pixel (do Google, do Facebook, do Twitter, do Pinterest…) em seu site. Esse pedacinho de código verifica todos os acessos ao site e armazena as informações de quem acessou. Ao anunciante cabe apenas alguns cliques para configurar o público.

Que rastro eu deixei por aí?

Quer saber quais informações você deixa pelo caminho? Deixa eu te apresentar algumas plataformas:

Preferências de Anúncios do Facebook

O Facebook permite que os proprietários de páginas possam criar anúncios com uma segmentação pra lá de específica e inteligente, baseada nos dados fornecidos pelos usuários da rede e também nos comportamentos da pessoa na plataforma.

E o usuário pode acessar a área de Preferências de Anúncios para verificar quais categorias são associadas ao seu perfil e editar as preferências caso desejado.

Configurações de Anúncios do Google

O Google é uma rede de busca e primeira opção dos usuários quando precisam fazer uma pesquisa online. Por lá deixamos um rastro sobre assuntos que nos interessam, compras que queremos fazer, momentos da nossa vida.

Para conhecer seu perfil e editar, você pode acessar a área de Configurações de Anúncios (a edição só é liberada se você fizer o login na sua conta do Google)

Navegg

A Navegg é uma empresa de tecnologia que analisa dados de usuários para poder indicar aos anunciantes os comportamentos e interesses do público-alvo. Eles rastreiam a sua navegação e elaboram um perfil que você pode acessar e editar caso necessário.

Your Ad Choices e Network Advertising

Estas empresas prestam um serviço similar ao da Navegg. Basicamente o que eles fazem é coletar dados por meio de cookies e entregar estes dados para plataformas de compra de mídia. O que você pode fazer nelas (YACNAI) é editar se quer ou não permitir que as plataformas usem seus dados de navegação para personalizar anúncios, entre eles para Twitter e Google.

E ainda tem os aplicativos

Toda vez que você usa seu Facebook para fazer login em um aplicativo, site, jogo e etc., você conecta sua conta a este ponto externo, e este ponto externo pode seguir coletando dados seus indefinidamente. Ou até que você se desconecte.

Para administrar essas conexões, acesse seu perfil > configurações > aplicativos. E pronto, está aí na sua tela toda a lista de apps, sites, jogos e etc. que têm acesso aos seus dados.

Aí, basta passar o cursor por cima do nome de cada app e editar ou excluir.

Mas eu não sabia de nada disso!

Você já leu as políticas de privacidade dos sites, plataformas, jogos, serviços digitais que utiliza? Eles estão disponíveis e geralmente o usuário clica em Aceitar e segue adiante. O primeiro hábito que precisamos mudar para fazer um uso mais consciente do ambiente virtual é ler os contratos e as letrinhas pequenas.

Segue uma lista de leituras para esta semana:

Políticas de Dados do Facebook
Política de Privacidade do Instagram
Política de Privacidade do WhatsApp
Política de Privacidade do Google
Política de Privacidade do Twitter

Para terminar: as redes sociais não estão te ouvindo

Com todos estes dados que nós mesmos entregamos, fica mais fácil entender como algo que eu quero comprar pode aparecer para mim em forma de anúncio.

Parece que você só falou que precisava de uma panela para cozinhar arroz e aí, puf!, está ali o anúncio. Mas o que você não percebeu é que há alguns meses pesquisou a tal panela, que usou um app de comparador de preços para saber onde ela está mais barata ou qualquer ação aparentemente externa às redes sociais, mas que podem estar conectadas.

O Wall Street Journal fez até um vídeo para explicar como isso funciona [em Inglês]:

Por que parece que o Facebook está ouvindo seu microfone?

Agora conta pra mim: como você lida com as suas informações online?

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professora, empreendedora, social media analyst, cantora de chuveiro e cozinheira.

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