O Rei do Show e as armadilhas da arte

O espetáculo na tela é fascinante, mas a realidade dos fatos foi cruel. Como lidar?

Viagens e um Café
Aug 5 · 6 min read

É intrigante o poder que a arte detém sobre nós.

As cortinas do palco se fecham, e nos sentimos extasiados pela peça teatral que acabamos de assistir. Com olhos lacrimejados, nos emocionamos com a saga do super-herói na tela, seja do cinema, da televisão ou do celular. Quantas e quantas vezes o ronco do motor de uma despedida sua não se misturou à melodia da canção, e esta ficou eternizada na sua alma?

Eu sei, a arte nos seduz, mas também pode ser bastante ardilosa.

É que ela é tão mágica, tão cheia de efeitos de luzes, confetes, mixagens incríveis que pode nos fazer esquecer que um de seus papéis é trazer à tona as mazelas, os dilemas e as lutas de cada época, aqui parafraseando Nina Simone, em uma célebre entrevista quando diz que o dever do artista é refletir os tempos e as situações nas quais se encontra.

Pois bem, essa foi uma das principais reflexões que o musical O Rei do Show despertou em mim. A obra, lançada em 2017 e com direção de Michael Gracey, transmite a mensagem de que as diferenças devem ser celebradas, mas esbarra num grande problema: é um trabalho biográfico sobre alguém que fez o total oposto.

P. T. Barnum, em cuja história de vida o filme se baseou, não construiu seu legado a partir da celebração das diferenças, e sim da espetacularização de pessoas excluídas pela sociedade.

Ele foi o precursor dos freak shows (em português: show de horrores ou show de aberrações), em que pessoas com deficiências, ou pessoas que faziam parte de grupos rejeitados pela sociedade, como pessoas negras e pessoas gordas, eram expostas em circos, cruelmente conhecido como museu de curiosidades humanas.

Ao assistir a obra, me emocionei com as músicas, acreditei no argumento do filme, fui profundamente tocada pela magia do espetáculo, me rendi ao encanto dos sonhadores e recomendei a obra para dois ou três amigos. No entanto, ao sentar para escrever esta resenha, bastou fazer algumas pesquisas para me deparar com os fatos reais, bastante assustadores por sinal.

Como eu disse, a arte pode ser bastante ardilosa.

A meu ver, a armadilha presente neste filme é: oferecer ao público magia através de um enredo que tem como pano de fundo a crueldade. Isso é bastante problemático e até mesmo desonesto.

É exatamente por isso que fiz questão de iniciar essa resenha problematizando o pano de fundo do filme, e não partindo diretamente para a análise da obra. Para que assim, todos aqueles que venham a assistir a esse musical a partir deste texto, possam fazê-lo mais conscientes dos fatos reais.

Tendo dito isso, a seguir minhas impressões sobre o filme:

Trilha Sonora e Atuação

Duas músicas, em especial, me emocionaram: This is me e Never be enough.

Ali no filme, a atuação de This is me transmite uma celebração da diversidade. E falo ali, porque é fundamental diferenciar a obra — o filme e a mensagem que buscou transmitir — e a realidade — o que de fato aconteceu.

“Não peço desculpas (por ser quem sou, como sou). Esta sou eu!”, diz a canção This is me.

Enquanto cantam e dançam, fazem um manifesto de amor próprio, uma marcha em direção a si mesmo e proclamam que já não há espaço para viver nas sombras e esconder-se da sociedade.

“Somos gloriosos”, afirmam. Mas o que é a glória se não ser a si mesmo? Ali expressam uma sensação de pertencimento. Juntos, as inúmeras pessoas que integravam a companhia circense acabaram por formar uma família. Após anos sendo escondidos e renegados pela sociedade e muitas vezes pelos próprios familiares, sentiam-se acolhidos uns pelos outros.

Essa sensação de pertencimento, de acolhimento pode ser percebida precisamente no instante em que viram uns para os outros e celebram a própria existência. Ali não estão cantando para a plateia, e já nem importa se o público está aplaudindo ou não.

Naqueles instantes da ficção fica claro: o grande show é celebrar a si mesmo, com união e companheirismo. O grande show é ter a capacidade de ver a beleza, o talento e o encanto uns dos outros.

A outra música que me emocionou foi Never be enough, exatamente por me fazer lembrar do fascínio que a arte exerce sobre nós.

P.T. Barnum, interpretado por Hugh Jackman, fica sem fôlego ao ver o silêncio da plateia perante o canto de Jenny Lind, cantora conhecida na época como rouxinol sueca e interpretada por Rebecca Ferguson. Num enquadramento de perfil, é possível sentir o inebriamento da cantora ao entoar a música. Mãos, olhos e corpo todo cantam.

A arte tem esse poder. Ela causa momentos de comunhão, mesmo que sejam apenas alguns instantes.

No quesito atuação gostaria de destacar Zendaya, que interpreta a trapezista negra Anne Wheeler e faz par romântico com Phillip Carlyle (na pele de Zac Efron), parceiro de negócios de P.T. Barnum. O que mais me chamou atenção em sua atuação foi o olhar, bastante expressivo em dois momentos.

  1. Na cena do trapézio, quando vê pela primeira vez o seu futuro-grande-amor-para-todo-e-sempre, vulgo Zac Efron. Nessa cena ela transmite uma serenidade impressionante.
  2. Durante a apresentação da canção This is me. Enquanto dança, ergue o rosto com altivez e bate o pé com vigor, afirmando com todo o seu ser que “Esta sou eu!”. Achei bem bonito.

A magia do espetáculo e, de modo geral, da arte

Para mim, a vida é sim um grande espetáculo. Mas não um espetáculo sensacionalizado, como vendem exaustivamente os jornais hoje em dia ou como, no passado, vendiam os circos. Não é neste sentido que faço este parâmetro.

A vida é uma sequência de atos. Requer entrega. Comunhão de palavras, gestos e movimentos.

Portanto, ao entrar no palco, dê tudo de si. Opa, mas peraí, não estamos sempre no palco? Quando a vida faz claquete e nos diz “agora vai!”? Pois é, a vida não diz.

O que não nos impossibilita de, ainda assim, nos render. Sempre que possível. O máximo de vezes que pudermos. Assim poderemos chegar ao final da vida sem ter perdido o nosso potinho de magia, tão necessário para sobreviver aos tantos horrores da vida real.

A arte suscita em nós reflexão. Desperta criticidade. Mas não somente isso.

A arte também nos salva, traz esperança.

Existe uma cena boba (adoro coisas bobas) nesse musical que retrata bem esse poder salvador da arte: ainda pobres, o protagonista (que me recuso a chamar de P.T. Barnum), as duas filhas e a esposa estão no terraço da casa. É aniversário de uma das filhas, e então, com objetos simplórios, o pai consegue criar um show de luzes e espalhar magia em todo o ambiente. A menina fica boquiaberta, surpresa e totalmente extasiada.

A arte tem esse poder avassalador. É por isso que não podemos ser levianos com ela, nem enquanto artistas, nem enquanto plateia.

Mas calma lá! A arte é mágica justamente porque é ilusória e fantasiosa? Uhn, podemos fazer diferente.

Podemos — e devemos — sim, viajar na maionese, entrar em reinos perdidos, lutar com dragões, etc. e etc., mas temos que saber voltar. E depois de aterrissar, fazer as devidas conexões com o mundo real.

Desse modo, quem sabe, poderemos acessar a magia do real e ir encontrando beleza e encantamento, à medida do possível, no nosso dia a dia.

Sou Flaviana Alves, escritora que percorre o mundo fazendo voluntariado e expedições literárias e compartilha vivências e reflexões sob a ótica de uma viajante mulher, negra e nordestina. Acompanhe meus relatos diários no IG.

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Escritora, jornalista, nômade. Mulher, negra, nordestina. Enquanto viajo o mundo, escrevo sobre a potência da vida e o encanto de ser gente. IG @viagenseumcaffe

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