Laura Pires
Dec 27, 2016 · 8 min read

A polêmica do dia é que a Jout Jout falou do término do namoro com o Caio em um vídeo no qual ela comenta, de passagem, que eles tinham um relacionamento aberto. Ela introduz o assunto quando fala que ela e Caio estão se divertindo com as especulações sobre a causa do término e diz que, pra quem já viu Caio ficando com meninas em festas, calma, não foi traição, afinal, o relacionamento deles era aberto.

PORQUÊS COMOS E ONDES/ Jout Jout

*BOOM* Choque geral da nação.

1. É igual ser solteiro!

(Ocultei a identificação de todos os prints porque desnecessário mostrar a identidade das pessoas falando besteira.)

Miga, não é. Sabe por quê? Uma pessoa solteira não tem um relacionamento e uma pessoa que tem relacionamento aberto tem. TCHARÃM. Isso deveria ser óbvio, mas pelo visto não é. Credito isso à associação comum entre namorar e ser sexualmente exclusivo, como se só fosse possível fazer uma coisa tendo também a outra. Você pode até não entender bem como uma relação não-monogâmica funciona ou achar que isso não é pra você, mas, convenhamos, se você acha que a única diferença entre namorar e ter um “parceiro fixo” é a exclusividade sexual, deve estar faltando muita coisa nos seus namoros.

O que caracteriza um namoro, pra mim, é o amor, a cumplicidade, o respeito, a intimidade, a confiança, a afinidade, o companheirismo, a dedicação, a atenção… Exclusividade sexual não garante nenhuma dessas coisas da mesma forma que falta de exclusividade sexual não inibe essas coisas. Elas simplesmente não têm relação uma com a outra. Aliás, o que eu mais gosto na ideia de amor livre é o respeito pela liberdade do outro. “Ah, mas se quer sair com outras pessoas, por que namora?” Porque quer, ué. O problema está em achar que existe alguma relação entre exclusividade sexual e amor verdadeiro. Não tem. E, desde que todos estejam de acordo, não há mal nenhum em namorar e também sair com outras pessoas. Isso nos leva ao próximo tópico.

2. Putaria com DST

Eu adoro — odeio — a hipocrisia que há na afirmação de que pessoas não-monogâmicas são mais promíscuas que solteiras. Tem solteiro por aí transando com cinco pessoas diferentes por semana (tem casado também, aliás), muitas vezes sem camisinha. Tem casal não-monogâmico que transa com outra pessoa duas vezes no ano. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, o que tem é moralismo mesmo. (Spoiler: Esse é o tema do meu próximo texto.)

É um mito achar que uma pessoa transa com todo mundo só porque está em um relacionamento não-monogâmico. O que vale é a ideologia: a sexualidade é parte do indivíduo e o respeito à liberdade do indivíduo faz com que ele possa se relacionar sexualmente com outras pessoas caso queira. Na prática, muitas pessoas não-monogâmicas nem chegam a ficar com ninguém e acabam sendo muito mais monogâmicas do que muita gente que se diz monogâmica.

Sobre DSTs: Há pesquisas que mostram que 1) pessoas monogâmicas e pessoas não-monogâmicas têm a mesma probabilidade de pegar uma DST e que 2) pessoas não-monogâmicas fazem mais testes de DST do que pessoas monogâmicas. Acontece que a tal da hipocrisia é o que faz com que muitas pessoas saiam piranhando por aí sem cuidado nenhum e que traiam seus parceiros sem grandes preocupações. Enquanto isso, a base de uma relação não-monogâmica é honestidade e diálogo. Isso significa que as pessoas em um relacionamento aberto falam sobre se relacionarem com outras e se preocupam com a saúde umas das outras. Logo, faz-se mais testes e, consequentemente, o perigo é menor.

3. Decepcionada com Caio — Parte 1: Falta de respeito

Esse comentário, graças a uns tweets da Stephanie Noelle que li mais cedo, foi o que me deixou virada no jiraya e me motivou a escrever esse texto. A pessoa diz que ficou DECEPCIONADA com Caio por ele ser CAPAZ de fazer uma coisa dessas com Jout Jout. Uma coisa dessas = sair com outras pessoas sendo esse o acordo entre o casal. Parece que Caio é um grande vilão por sair com outras pessoas, parece que Jout Jout jamais estaria ok com isso, parece que só Caio saía com outras pessoas… Enfim, um monte de premissa errada.

Falta de respeito é trair a confiança, é trair acordos. Para alguns casais, o acordo é a exclusividade sexual, logo, sair com outras seria uma traição. Para outros casais, o acordo é não ficar de conchinha vendo Netflix junto, mas transar pode. Falta de respeito é também julgar o relacionamento dos outros com seus próprios preceitos sobre relacionamento. Cada um sabe o que é melhor pra si, encontra alguém que concorde e faz o seu.

4. Decepcionada com Caio — Parte 2: A insuficiência

Esse é outro mito, que eu acredito ser fruto de inseguranças pessoais — quem não tem? É a ideia de que, se seu/sua parceiro/a se relaciona sexualmente com outras pessoas, é porque você é insuficiente. Embora seja muito bem justificado emocionalmente (e amor romântico não é pop à toa), racionalmente, é maluquice achar que UMA pessoa vai ter TUDO que a gente quer num ser humano. Isso é irreal, impossível e injusto. É principalmente injusto porque deposita naquela pessoa todas as expectativas de preencher todas as lacunas que você sentir vontade ou necessidade de preencher.

Cito Regina Navarro Lins (p. 302 em O Livro do Amor, Vol. 2):

“Na melhor das hipóteses o amor é uma convergência de muitos desejos, alguns deles sexuais, outros éticos, muitos diretamente práticos, outros pouco românticos e fantásticos. No amor não queremos só sexo e segurança, mas também felicidade, companhia, diversão, alguém para viajar, sair, ouvir conselhos, ter orgulho desse alguém, enfim, uma associação com quem é uma vantagem social e um aliado, alguém com quem vamos dividir o trabalho doméstico e aumentar a renda da casa, alguém de quem podemos depender na hora dos problemas e nos consolar nos momentos de tristeza, e por aí vai. Na realidade, gostaríamos de tudo isso, emoções e constância, excitação e segurança, e de preferência tudo junto, num só pacote, um pacote supostamente garantido pelo amor.”

É muito mais fácil ser feliz quando a gente se livra da expectativa idealizada de que uma pessoa só carregue esse pacote — isso serve pra amizades também. Vejo inclusive grandes vantagens pra esse quesito em uma relação não-monogâmica: quando a pessoa gosta de algo que você não gosta, você não precisa fazer com ela, ela pode fazer com outra. Por exemplo, há pessoas que curtem coisas absurdas, como transar nesse calor sem ar condicionado. Em uma relação não-monogâmica, você não é obrigada a aceitar uma loucura dessas e nem a pessoa que está com você deixa de realizar a loucura dela. Ela tem total liberdade pra ser louca com quem partilha da mesma loucura que ela e você vê Netflix de boas enquanto isso. Acho super prático.

5. Decepcionada com Caio — Parte 3: Instinto masculino

INSTINTO MASCULINO. Mais uma vez, a ideia de que só quem sai com outras pessoas é o homem e que, pra mulher, não há quaisquer vantagens. Também se baseia na ideia machista de que homens têm mais libido, gostam mais de sexo e é por isso que traem quando estão em relações monogâmicas. São muitas premissas simplesmente erradas e, na verdade, uma relação não-monogâmica pode ser especialmente libertadora para mulheres, que sempre foram sexualmente castradas e condenadas na sociedade.

6. Tem sempre alguém que sofre

Sei que pra quem não fica confortável com a ideia de ter um relacionamento aberto é difícil de acreditar, mas juro pra vocês: existe de verdade um montão de gente que quer isso, escolhe isso e gosta disso. Achar que um dos lados sempre sofre é presumir que uma pessoa do casal teve essa grande ideia e pressionou a outra, que aceitou a contragosto e agora sofre tendo que se sujeitar isso. Existem casos assim? Claro. Muitos homens se aproveitam do discurso poliamoroso pra fazer com que uma mulher se sinta mal por não ser “moderna” e acabe aceitando algo que ela simplesmente não quer. Mas o problema nesses casos é o homem, não o tipo de relação. Tem muita mulher que, sim, está feliz em um relacionamento aberto. Não tem sempre um lado que sofre, não.

7. O incômodo em mim saúda a falta de incômodo em você

Isso é comum DEMAIS. A monogamia, o ciúme e o completo desconforto com a falta de exclusividade sexual são coisas tão, mas tão entranhadas na cabeça das pessoas, que você explica, fala que está tudo lindo, e elas simplesmente não acreditam. Ficam procurando incômodo onde não tem só porque elas se sentem incomodadas. Passo muito por isso inclusive: já tive que ouvir que eu quis um relacionamento aberto porque me decepcionei muito no amor e não queria me entregar a ninguém. Haja paciência. Porque se tem algo que você faz e muito num relacionamento aberto é se entregar emocionalmente, já que te exige um nível de confiança muito grande na outra pessoa.

Outra coisa que acontece é você ter QUALQUER problema no seu relacionamento — sei lá, a pessoa vive chegando atrasada — e não conseguir conversar sobre isso com amigos/as, porque acham que a razão oculta do incômodo é o fato de que o relacionamento é aberto. Haja paciência [2].

8. Cuidado: relacionamentos abertos terminam

A mulher fala no vídeo que não foi por isso, mas vai lá o ser humano dizer que foi. Porque o ser humano acredita tanto que isso não dá certo que só consegue ver esse motivo. Talvez seja um grande choque para alguns leitores, mas vou ter que falar: relacionamentos monogâmicos também terminam. *BOOM* Conheço váááários casais monogâmicos que terminaram. Tenho certeza que vocês conhecem também.

“deixem a Jout Jout e o Caio em paz e, se não acreditam em relacionamento aberto, não tenham um”

E, com essa sacada genial, encerro por hoje. Se tiverem interesse no assunto, já escrevi muito sobre isso, mas recomendo começar por esse e por esse. E deixem a Jout Jout e o Caio em paz e, se não acreditam em relacionamento aberto, não tenham um, mas não encham o saco de quem tem/teve e está bem com isso.

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Laura Pires

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Escritora e pesquisadora especializada em amor e relacionamentos. Contato: laurampires@gmail.com

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