O relativismo nosso de cada dia

Parece que tentam cada vez mais trazer Protágoras de volta, afinal, pouco acrescentou a toda discussão filosófica a vida de Sócrates, Platão e Aristóteles e tantos outros que vieram depois. A Ditadura do Relativismo, da qual nos falou o Papa Emérito Bento XVI, engolfou principalmente aqueles que tratam o sentido da vida e as reflexões um pouco mais aprofundadas como uma chatice ou algo meramente teórico sem qualquer resultado prático. Sem qualquer vínculo que possa transfigurar as suas rotinas.

Bons exemplos são as discussões diárias em torno da Religião. Muitas pessoas não querem ter Religião porque “Religião é coisa de homens”; mas acreditam em Deus e inclusive entram nas igrejas para “meditar” e até se sentem muito tranquilas lá dentro, numa espécie de “spa espiritual”.

O homem passou a ser a medida da Religião. Não é mais a Religião que deve transformar, converter, criar o homem novo. Não. Está fundada a Igreja dos Homens. Talvez tenham vergonha de se dizer religiosos mas, como não podem escapar à pergunta sobre Deus, ou à dimensão transcendente de suas vidas, concordam, ou ainda, acham de muito bom tom, frequentar igrejas numa espécie de visita ou contato direto com o Grande Criador, desde que não se comprometam com nenhuma espécie de “fanatismo”. Nem, claro, com algo que lhes afete demasiadamente o dia a dia, que lhes exija fidelidade e comprometimento.

Os pecados também ficam do lado de fora, pois são meros adendos, coisas compreensíveis que não fazem mal a ninguém, trocados que ficam no fundo do bolso.

São capazes ainda de rezar um Pai Nosso, sem perceber as palavras que saem da própria boca. Definiram, em toda medida, a sua própria religião. Os seus próprios cultos e sua pobre liturgia diária.

Qualquer manifestação religiosa que não seja adocicada, assusta essas pessoas. Não podem obedecer senão aos ditames do mundo, aos sentidos mais baixos que comprometem a moral e, por isso mesmo, carregam a desculpa, assimilada como verdade última, de que estando em busca da felicidade tudo seria permitido. E se você está feliz, vale tudo, ainda que por um breve segundo, afinal a verdade é de cada um, e cada qual faça o que bem entender com ela.

Objetivamente, é a humildade que nos foge. A humildade que é o primeiro passo para aprender alguma coisa. Dobrar a espinha porque o mundo não fui eu quem inventou, porque não fui eu quem escolheu nascer, porque estou aqui e agora — e como diz a personagem Gandalf em O Senhor dos Anéis — “o que importa é o que fazer com o tempo que nos foi dado”. Temos que decidir em meio ao claro-escuro da vida, o que fazer com “o tempo que nos foi dado”. E a primeira coisa é ser grato pela oportunidade.

Para não ferir as pessoas que buscam a religião na sua superficialidade, que buscam apenas uma “paz interior”, não respondemos a elas quando nos dizem, por exemplo, que a verdade não existe. Pois como essa pessoa poderia dizer verdadeira esta sentença — a de que a verdade não existe — se a verdade não existisse? Quem nos diz isso está pedindo, no fundo, um salvo-conduto para seu comportamento.

Mas ainda resta o problema do “dono da verdade”. A alegação de que quem está ensinando se julga o dono da verdade. Não é assim que funciona, a verdade não depende de consenso nem de pertencer a alguém. A quem pertence a verdade de que dois mais dois são quatro? De que a cidade de São Paulo existe? Constatar a verdade e tentar ensiná-la é, talvez, o maior ato de caridade que podemos cometer.

Só o fato de perceber que a verdade existe, de que as coisas podem ser analisadas objetivamente, já é um passo enorme. E talvez, o primeiro passo ao longo de uma trilha que pode levar à Verdade, com V.