O risco da mosca

Pensar é um risco. Um risco. Já estou sentindo. Você não? Aposto todas as fichas. Não demora muito pros caminhos do pensamento nos levarem em cana outra vez. Já está pipocando nas ruas. Já está pipocando nas universidades.

Nossa privacidade será vasculhada. Tudo catalogado. Cuidado, cuidado, diremos entre nós. O ódio está bem perto. Não convidem os amigos para debater o fascismo nas ruas. Faremos isso escondido. Aula de história, então, nem pensar. Coisa de subversivo. Eu já sabia. Faz tanto tempo que eles tentam. Agora encontraram a brecha perfeita. Será que vão abrir mão? Certeza que não. Eles querem a tal da revolução, custe o que custar.

“A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão pra fora, ou vão pra cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”, diz o chefão.

Tudo isso. Tudo dito. Lágrimas. Medo. Choro. Ranger de dentes? De um lado alguns fazem o jogo sujo. Do outro há um público silencioso e não menos culpado. Para pensar fundo, é preciso ter asas nos olhos. Vive-se razoavelmente bem nas trevas a ponto de ignorar a realidade? Porque entregar-se à reflexão se a maior parte das vítimas são as crianças?

Quem liga se isso causa emoção?

Quem exige dos muitos que se coloquem a pensar?

Amor, carinho, empatia, tudo isso virou demodê. E comemora-se muito o porte de armas. O negócio agora é atirar.

Por essas e outras, a partir de hoje, me referindo ao cenário político, não direi mais palavras como “fascismo”, “ódio”, “democracia”. Os dados estão lançados. Está tudo escrito. Cartas na manga. Recuso-me a sofrer.

Por isso, quando eu falar em amor, todos saberão do que se trata. Não precisam quebrar protocolos nem me oferecer prêmios em dinheiro. Me lembrarei com alegria dos bons tempos, quando caminhávamos pela orla vestidos de branco, pedindo paz. Ter Gandhi como herói foi a nossa glória. E o pior — respiramos sem dar explicação.

Se um dia alguém esbarrar comigo numa esquina, calada, cabisbaixa, fingindo apatia, não se enganem. O teatro é nossa melhor arma. O inatingível pensamento, com suas letras cor-de-rosa, estarão lançados no amanhã. Nos dedicaremos ao crime dos indecifráveis poemas e aquisições clandestinas de toda a sorte de tinta guache possível para sujar a alma do sangue derramado.

Questão de honra?

Ou de ideal?

Tanto faz. O mar é azul de dia. Mas qual é a sua cor ao anoitecer?

Suponho que alguém tenha visitado a Venezuela. Até uma formiga pode ter feito a viagem sem dizer palavra alguma. Ora, quem foi a pessoa responsável por fazer a brava gente acreditar no chiste? Vermelhos e Venezuela só se parecem em uma coisa: começam com “v”. “Estão na América Latina”, dirão alguns.

Aliás, plagiando o mais ilustre dos escritores uberabenses, quase enlouqueço com isso: a Venezuela afinal existe?

Gosto mesmo é do áudio debochado que atribui um tufão ao vento estocado por Dilma. Aguardamos os estudos da NASA. O caso é sério.

Considerações: tempo louco esse em que vivemos. Como dizia Octavio Paz, é preciso “caer en la cuenta”. Ainda dá tempo, pois o que é vivo também respira e se respira mexe e se mexe vira.

Desculpem se fico assim triste, desesperada: eu queria que tivesse sido diferente. Se ficar calada não ajuda em nada, escrevo. Uma mosca me ronda. Posso matar ou espantar. Ou deixar que pouse livremente.