O sentido da vida

Foto Instagram @babivanzella

Em cada mesa do hotel onde eu trabalho nos Alpes da Itália tem uma arvorezinha de lenho. São tipo uns 20 pinheiros esculpidos na madeira. E as pessoas todas piram na tal da arvorezinha (que é mesmo bonita) e querem saber quem fez, onde foram compradas, essas coisas. Então perguntei pra minha chefe de onde elas tinham vindo e ela me disse que foi o irmão dela que fez. No caso, o irmão dela é a mesma pessoa que é o sócio dela aqui no business, um dos cozinheiros do restaurante, o responsável pela calefação (que é subterrânea, com madeira) e a mesma pessoa que, com uma patrola que é deles, abre a estrada e o estacionamento do hotel toda vez que neva. Parece que eu tô falando do super homem, mas tá tudo dentro da normalidade.

Tenho uma amiga, por exemplo, que é apicultora por conta e risco nas horas vagas e junto com a família construiu (com as próprias mãos) a casa (de sonho) onde ela mora no verão, porque é num lugar tão alto (e maravilhoso) que no inverno não se pode garantir que todo dia vai ser possível sair de casa e voltar pra casa porque tem neve e eu garanto que não é o “pessoal da prefeitura” que vai lá abrir a estrada pra ela passar com o carro.

O marido da minha ex chefe, que é conhecidamente o chef de cozinha mais foda do Vale, antes de ir trabalhar na Osteria que eles têm sempre passava no bar onde eu trabalhava no verão pra fazer a manutenção das coisas e pra cortar a grama do parque todo onde ficava o bar quando era a hora, tirar as ervas, essas coisas.

Quando a patrola estraga ou quebra alguma coisa ou é preciso decorar algum espaço ou as abelhas morrem ou tem que cortar a grama do parque não existe chamar alguém pra resolver. São eles que resolvem. Até existe, claro, profissionais que trabalham com isso e pra algumas coisas específicas eles contratam, digamos. Mas pro grosso da vida, as pessoas aqui são multitask.

Não é uma vida fácil essa de podar pinheiros, administrar os negócios, criar os filhos, trabalhar, defender a propriedade das nevascas, cuidar de animais grandes — e matá-los, quando for o caso. Mas é uma vida intensa que exige presença das pessoas, que vivem suas próprias vidas 24h por dia. Elas estão aqui, sabe? De corpo e alma envolvidas no presente. Se doando pra cada atividade seja ela qual for, sem preconceitos, sem frescura, sem vaidades. Ou com muito pouca vaidade em comparação ao que eu era acostumada.

Os conceitos são outros, os parâmetros completamente diferentes. Simplicidade, entrega, intensidade, gentileza, generosidade, humildade, coragem. Ninguém é melhor do que ninguém. Pessoas perfeitas, relacionamentos perfeitos e lugares perfeitos não existem nesse nosso mundo. Mas existe afinidade de energia, existem modos parecidos de olhar pras coisas, existe ritmo, sintonia e, acima de tudo, existem escolhas. Por isso acredito muito na importância de cada um se mover na direção das coisas, das pessoas e dos lugares que fazem match com o coração. No momento, pra mim, é esse o sentido da vida.