O “snapchatismo” do mundo

E porque gostamos tanto de coisas com cara de vida real

Juro que não sabia que o Medium aceitava GIFs! AFFSSS que coisa linda esse fantasminha né, não?

Lembro que aderi ao Snapchat lá em 2011, porque alguém me disse que era bacana. Não entendi para o que servia, não soube usar, mas fiquei mandando um montão de mensagens que se auto deletavam segundos depois para uma meia dúzia de amigas tão perdidas na new wave quanto eu.

Fui preconceituosa.

Coisa de adolescente desocupado, de gente que quer mandar nudes sem ser descoberto, ideia de quem quer escrever aquele recadinho pro crush sem ter que lidar com a realidade das próprias palavras depois e talz — pensei.

E errei rude.

Esqueci do app por 5 anos, deletei da memória do celular. Tomei um soco na cara quando começaram a surgir as primeiras web celebridades dentro dele, num formato meio primitivo, quase que selvagem. Vídeos tão curtos que sequer faziam sentido e imagens com uma dose tão alta de realidade que me incomodavam. Não incomodava vocês? Achei esquisitíssimo.

Depois o app ganhou filtros engraçados, novas funções. Continuou tosco, com uma interface estranha, zero intuitiva. Onde estavam os seguidores? Como a gente sabia que alguém gostava da gente — ou detestava? De onde vinha a mensuração da audiência? Qual o sentido de produzir tanta coisa sem sentido? O que diabos as pessoas comuns podem falar sobre suas vidas comuns? E, principalmente: por que isso está fazendo tanto sucesso?

Como amo fazer teorias sobre o comportamento das pessoas, abri meus slides e botei as caraminholas pra bater pino. Depois de engolir 3 sapos vivos de pernas abertas, de ter que aprender na marra a lidar com essa novidade, “corporativizá-la” e torná-la comercial, me veio um conceito simples a mente, quase como uma epifania: o Snapchat vingou porque gostamos daquilo que nos provoca afeição.

E também porque já estamos um pouco fartos das fórmulas que vendem, que se proliferam, mas que não significam nada, né? Vamos combinar.

Eu não sou a mulher do outdoor. Nem dos filmes. Não faço viagens interessantíssimas, não ganho em dólar e não tenho, definitivamente, uma casa super bem decorada para registrar em fotos incríveis de inspiração pra alguém. A verdade é que 90% da população trabalha de 8 a 12 horas por dia e quando chega em casa a única coisa que tem de especial na vida é uma peça de queijo prato do mês passado na geladeira. Mofada ainda por cima.

Você, eu e o cara que pega busão no seu ponto de ônibus todo o santo dia não vai para restaurantes badalados durante a semana, não come picanha e bebe cerveja no bar S-E-M-P-R-E como dizem as redes sociais dele. A vida dos outros, ainda que a internet tente transformar em algo oposto, é exatamente como a nossa: simplona. Com pão com ovo, Havaianas gastas pela cândida, furo na roupa e pêlo de cachorro no edredon. Exatamente assim.

O Snapchat é fascinante porque é a terra das pessoas sem pretensão.

De gente que vai registrar uma conversa engraçada que teve no trabalho, o metrô lotado. Gente que vai mostrar uma marca MA-RA de desinfetante que descobriu, fazer receita de lasanha de frigideira (juro, já tentaram?) e postar selfie zero glamourosa de pijama tomando Toddy e vendo Netflix.

UPDATE: ISSO SIM QUE É VIDA REAL.

Embora a Globo e o Youtube nos digam sempre o contrário, queremos saber quem o outro é quando não está querendo parecer ser ninguém. Ou como diria o Capital Inicial: o que você faz quando ninguém te vê fazendo.

Mas, né? Agora pode ver.

Talvez seja esse o começo tímido da nossa libertação. Dessa coisa de estar e parecer feliz, perfeito, descontraído ou super bem resolvido o tempo todo. Podemos ser quem a gente é. E as pessoas podem até gostar disso.

Redes populares como o Buzzfeed já aplicam a “linguagem da vida real” aos seus vídeos publicitários. O Periscope já percebeu que não há melhor emissor que o homem comum; aquele que permite que a vida seja como ela se apresenta, pra qualquer um ver, em tempo real. E o Snapchat, meu caros, é bruto. É true. E é disso que o povo gosta.

Em terra de Luciano Huck, Regina Casé é rainha — se é que vocês me entendem. Gostamos mesmo é de reconhecer no outro nossas peculiaridades enquanto seres vivos.

O resto é comercial de pasta de dente. Fake pra caramba.

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