O Tempo Não Para

Este é o nosso trunfo

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Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? — Chico Buarque, Roda Viva,1968

São incontáveis os questionamentos que fazemos hoje, diante de uma batalha sofrida pela qual passamos no dia 7 de outubro. O sentimento de perda, impotência, desespero e incerteza fez com que parássemos para refletir em nossos medos cotidianos. Ainda não perdemos, mas já nos preparamos para o pior.

Independente do que vier, teremos um árduo trabalho pela frente, uma vez que a barbárie foi legitimada pelo favorito a presidência da república.

Gostaria de sugerir ao decorrer da leitura, trechos de quatro músicas que se mostram atemporais, e que traçam um paralelo dos dias de hoje, com o período do golpe de 1964 e a pós-ditadura. Analisemos o Brasil de hoje, e nos trechos das músicas , o quão próximos estamos daquele tempo em que estes hinos foram escritos.

Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para. — Cazuza, O Tempo Não Para, 1988

A HISTÓRIA SE REPETE (a quem culpar?)

Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. — Chico Buarque, Vai Passar, 1984.
fonte: Mundo Educação.

O mito é um fenômeno, espelho da nossa sociedade há mais de 25 anos. Porta-voz do subconsciente preconceituoso do coletivo brasileiro, que desde a lenta conquista da sua liberdade pós-ditadura, talvez não se deu conta do que essa liberdade significa.

De 1984 para os dias de hoje, mesmo com os direitos conquistados e oficializados, muitos crimes foram e são cometidos diariamente, alguns dos quais não tem a devida atenção para que a investigação seja conduzida até o final, permitindo a impunidade. Isso é questão de respeito, segurança pública e valorização do ser humano.

O respeito e os direitos, conquistados a duras penas por nós mulheres, negros, indígenas, e pela comunidade LGBTQ+, parecem não ter valor nenhum nem dentro, nem fora da constituição.

Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há. Mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá. — Chico Buarque, Roda Viva,1968

E aqui, chegamos no ponto: se nem mesmo os órgãos responsáveis pelo cumprimento da constituição, que deveriam cassar àqueles que cometem crimes (públicos a nível nacional, com provas e tudo!) de racismo, homofobia, misoginia, crimes eleitorais, e não declaram patrimônio de acordo com a sua renda; se nem mesmo eles respeitam as leis, como esperar que se faça cumprir em esferas menores da sociedade?

Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a Constituição mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse? — Legião Urbana, Que País É Esse?, 1987

MATAR E MORRER

Acredito que um dos maiores medos atuais, é o fato de o porte de arma ser facilitado a pessoas que explicitam seus preconceitos, e argumentam com violência (haja vista os crimes que já estão acontecendo, antes mesmo do segundo turno).

Um dos maiores argumentos das pessoas que apoiam esta ideia, é o sentimento de insegurança diante da criminalidade atual, que só pareceu aumentar depois de declarada a crise econômica e política do Brasil.

No entanto, se pararmos para analisar os crimes citados pela população, como sendo o principal motivo de sua insegurança, estes em grande parte, acontecem para manter o tráfico ou consumo de drogas ilícitas. Matar não diminuirá aos assaltos e roubos. Não vai diminuir o tráfico. Não vai diminuir conflitos entre traficantes e policiais. Vai diminuir a vida da própria população, que não está preparada para portar e utilizar armas, e terá a possibilidade de entrar em conflito direto com ambos.

Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso, minha metralhadora cheia de mágoas. Eu sou um cara. (…) Nas noites de frio é melhor nem nascer. Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer, e assim nos tornamos brasileiros. — Cazuza, O Tempo Não Para, 1988

Hoje, vemos pessoas ansiosas para portar seu calibre 38, que possivelmente reze para sofrer uma tentativa de assalto e ter a oportunidade de utilizá-la. Mas não irá acontecer assim. E sabemos bem em que situações essas armas serão utilizadas.

foto por Lu Micheletti

LIBERDADE, PRA QUE TE QUERO

A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar. Mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá. — Chico Buarque, Roda Viva,1968

O que querem as pessoas que não votam em Jair?
Respeito. Igualdade.
Liberdade de ir, vir, e ser quem somos. 
Amar quem quisermos, lutar pelo que acreditamos.
Respeito a liberdade de expressão.
Sem censura.

Mas se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados. — Cazuza, O Tempo Não Para, 1988

De qualquer forma, a todas as irmãs e irmãos nesta luta: se a nós não houver outra opção diante das eleições, respeitemos a democracia. E ao primeiro sinal de inconstância, lembremos dos nossos heróis. Hoje, podemos ser estes heróis que a nossa nação tanto precisa.

A gente vai contra a corrente Até não poder resistir. Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir — Chico Buarque, Roda Viva,1968