Jr. Bellé
Jul 3 · 3 min read
Crédito: Paulo Sérgio Sales/SEI

Esteja onde estiver, Ariano certamente está muito feliz com a versão final de Dom Pantero. É o que nos garante Adriana Victor, amiga do escritor por quase duas décadas, também sua assessora nas secretarias do governo de Pernambuco e autora do livro Ariano Suassuna: um perfil biográfico, que assina ao lado de Juliana Lins. “A versão final de Dom Pantero foi muito fiel e muito respeitoso às crenças de Ariano, que não se deixava encantar por ideias pouco perenes, precisava da profundidade. Ele se dedicou muito a esse livro e dizia que se ele conseguisse dar ao livro a forma que desejava, que ele sonhava, era um livro que iria juntar pela primeira vez a poesia, o teatro e o romance, e que seria pra ele um livro definitivo, como de fato acho que seja. Porque houve um encontro de pessoas para trabalhar nesse livro e tentar dar a ele a medida e o peso que Ariano queria, e acho que eles conseguiram, com muita felicidade e fidelidade ao que Ariano sonhou. E pela convivência profunda que eu tinha com Ariano, sei que esse livro o representa fielmente.”

Adriana comprou o livro assim que foi lançado, mas levou muito tempo para tomar coragem e iniciar a leitura: “Ariano ainda é muito presente em mim, em meus pensamentos, na criação, no dia a dia. Precisei tomar um fôlego muito grande, coragem mesmo, pra poder entrar nesse livro, que eu sei a importância que tem pra ele e pros que ficaram.”

Ela conheceu Ariano em 1995, quando ele já vinha trabalhando em Dom Pantero há 14 anos. “Ele escreveu este livro durante todo o tempo em que convivemos, então eu sempre ouvi falar desse livro. A neta dele, Esther, disse o mesmo no lançamento de Dom Pantero na Livraria Cultura em Recife. Ela disse que tinha 28 anos, assim como a outra neta, Mariana Suassuna, e o livro levou 33 anos pra ser escrito. Então imagine que elas passaram a vida inteira ouvindo falar desse livro. Quem convivia com ele minimamente, ou intensamente como era o caso delas, sempre ouvia falar desse romance. Sempre.”

No entender de Adriana, é em Dom Pantero que Ariano se escancara como nunca antes, revelando sua face de criador, pensador e filósofo. Por conta disso, o livro se faz um marco na literatura, afinal o conjunto de sua obra já é, por si só, um monumento de fortalecimento à cultura brasileira. “Não é a cultura de Pernambuco ou do Nordeste, mas do Brasil. Ele tinha esse sentido de missão sobre a cultura brasileira, e leva isso pro romance, trazendo elementos de fortalecimento da nossa cultura.”

Ariano costumava dizer, recorda Adriana, que para ele os quatro piores lugares do mundo eram hotel, aeroporto, avião e restaurante, enquanto sua casa era o melhor dos mundos. Certa vez, enquanto o entrevistava, perguntou-lhe o que o fazia se submeter a estes lugares tão terríveis e alijar-se de seu espaço favorito, afinal ele precisava percorrer Pernambuco como secretário, e viajava pelo Brasil e exterior levando suas aulas espetáculo. “Ele disse que tinha uma missão com o povo brasileiro. Veja bem, nem o Brasil nem o povo brasileiro tinham lhe dado essa missão, mas ele sabia que era preciso fazer isso. Quando assumiu as secretarias do estado de Pernambuco, Ariano não precisava do salário, não precisava das obrigações e problemas que uma secretaria estadual tem, e ele aguentou isso durante oito anos. Quando ele assume, em 2007, ele está com quase 80 anos, e segura essa peteca até os 87 anos. No meio desse processo ele tem um enfarte e a família quer muito que ele pare, mas ele decide que não vai parar, porque ele dizia que a vida dele só tinha sentido daquela forma, queria viver no palco e morrer no palco”.

É com esse espírito que produziu seus poemas, seus romances, as peças de teatro e as gravuras — tudo isso agora sintetizado em Dom Pantero, seu coroamento. “Ele dizia uma frase muito bonita, simples e objetiva, que acho que resume tudo que Ariano sonhou e quis da própria vida, e que ele conseguiu levar para sua literatura: ‘arte para mim é missão, vocação e festa.’”

[Continua: parte 4 de 5 | Parte 1 | Parte 2 | Parte 3]

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Poeta guaipeca e anarco jaguara

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