O testamento de Suassuna [parte 1]

Jr. Bellé
Jun 12 · 4 min read

Dom Pantero no palco dos pecadores, escrito ao longo de 33 anos e publicado em 2017, é a mais importante das obras inéditas deixadas pelo escritor

Assim se assunte e assim se assuma: Suassuna não morreu, foi um encantamento o que sucedeu naquele 23 de julho de 2014. Família e amigos se negam a compactuar com a morte, por isso elegem o encanto, e jamais submeteriam a literatura ao esquecimento. Mas ao menos um período de luto é necessário para assentar as saudades, desertar lágrimas e amiudar dores. Para os Suassuna esse luto durou três anos. Foi o tempo que levaram até conseguirem abrir a porta, e então as gavetas, do escritório onde Ariano trabalhava todos os dias. “Era preciso deixar as coisas serenarem, a perda de papai, que teve uma vida plena, foi muito forte pra gente. Quando abrimos o escritório o livro estava lá, no gabinete dele”, conta Manuel Dantas Suassuna, artista plástico e filho do escritor.

O livro a que se refere Manuel, poupado pelas traças e aquecido por um lençol de poeira, era um graúdo volume que ele, assim como todos que conviviam com Ariano, conhecia muito bem: Dom Pantero no palco dos pecadores, obra a que se dedicou por 33 anos e foi publicada postumamente pela Nova Fronteira em novembro de 2017, após um árduo trabalho coletivo de familiares e amigos.

Trata-se de um livro volátil para quem tenta classificá-lo entre os motes tradicionais da literatura: não é exatamente um romance, tampouco uma autobiografia e nem mesmo uma ilumiara. “É seu trabalho final, uma forma de colocar tudo junto, várias formas de expressão: tem o teatro, o romance, a prosa, poemas, desenhos. É um livro praticamente autobiográfico, ele trabalhava com coisas que aconteciam com ele. Mas no final da vida ele estava trabalhando mais as gravuras, porque a parte escrita já estava pronta”, explica o filho.

Dom Pantero é divido em dois volumes — O jumento sedutor e O palhaço tetrafônico — e tem como protagonista Antero Savreda — nome verdadeiro de Dom Pantero — escritor frustrado que sonha em produzir um romance a partir dos sucessos literários de seus irmãos: Adriel Soares, dramaturgo; Altinho Soares, poeta; e Auro Shapino, romancista. Todos eles são heterônimos de Ariano Suassuna, por isso seus nomes começam com A e S, e é através deles que o escritor reflete sobre a vida e revisita seu percurso artístico, que extrapola o trabalho com as letras, afinal Ariano também criou as gravuras, que para além de serem imprescindíveis para a compreensão desta obra, se mostram significativas heranças de seu trabalho gráfico. “Claro que tem muito do Dom Pantero no Suassuna e muito do Suassuna no Dom Pantero, mas é obviamente uma ficção. Então você tem que ler como um personagem, e não buscar o Suassuna. Eu até falei isso pra minhas irmãs, porque elas ficam tentando identificar quem é quem, e digo ‘não, minha gente, está ali como fulano, mas é uma ficção’”, pondera Manuel.

O fato é que mesmo antes da família tomar para si a responsabilidade de organizar Dom Pantero, havia um imbróglio editorial a ser resolvido: as obras de Ariano estavam divididas em duas editoras, Nova Fronteira e José Olympio, e os herdeiros queriam reuni-las numa só. Mais do que facilitar trâmites burocráticos, o intuito era relançar as obras e publicar os inéditos a partir de um projeto gráfico unificado, como uma grande coleção fiel ao labor criativo de Ariano como artista plástico. “Fechamos com a Nova Fronteira porque ela estava interessada não apenas no que havia na grade de trabalhos inéditos, mas também queria reeditar os livros já lançados, além de fazer toda a editoração aqui de Recife, coordenada por mim”.

Uma equipe de talentosos amigos e familiares foi convocada para a empreitada. Além de Manuel, que comanda a direção de arte, as netas de Ariano, Ester Suassuna Simões e Mariana Suassuna ficaram responsáveis pela pesquisa. Carlos Newton, professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-aluno do escritor, de quem foi amigo por mais de três décadas, encarregou-se da coordenação editorial. Já Ricardo Gouveia de Melo, cujo convívio com Ariano por 24 anos os aproximou profissional e fraternalmente, imbuiu-se do design das novas edições.

O contrato com a Nova Fronteira tem a duração de dez anos e contempla relançamentos já efetuados, como A Pedra do Reino e O Santo e a Porca, republicados em 2017; A História de amor de Fernando e Isaura, livro de 1959 relançado este ano, assim como A pena e a lei. Há ainda obras guardando edição e relançamento, como seu primeiro romance, O Rei Degolado, além de Ao sol da onça Caetana e o livro de arte Ferros do Cariri, todos já fora de catálogo.

Um marco desta parceria entre familiares, amigos e Nova Fronteira é o box Teatro Completo. Ele foi publicado em 2018 e é dividido em quatro volumes (Comédias, Tragédias, Entremezes e Teatro Traduzido), tem 1.890 páginas e trouxe 12 textos inéditos, entre eles O arco desolado e O desertor de princesa. Alguns inéditos esperam sua vez na fila, como As infâncias de Quaderna, volume que completa a história d’A Pedra do Reino e só foi publicado em folhetins do Diário de Pernambuco entre 1976 e 1977; e O sedutor do sertão, romance inédito escrito na década de 1960 que aguardam lançamento.

[Continua: parte 1 de 5]

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Poeta guaipeca e anarco escritor

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