O Tinder está acabando com as suas habilidades interpessoais

Sempre que peço para os alunos fazerem trabalho em grupo, quase todos reagem da mesma forma:

— Tem mesmo que ser em grupo? / Posso fazer sozinho/a?

Eu respondo brincando:

— Tem que ser em grupo, porque aqui você não aprende só inglês, você aprende também HABILIDADES INTERPESSOAIS, olha que incrível.

Falo como uma brincadeira, mas é sério. Quando fazemos trabalhos de escola/faculdade/curso em grupo, não aprendemos só o assunto do trabalho. Na verdade, aprendemos muito mais as tais habilidades interpessoais. Em um trabalho em grupo, você precisa ouvir opiniões, colocar as suas, negociar discordâncias, pedir feedback, evitar conflitos, resolver conflitos quando eles surgem etc. Tudo isso só se aprende fazendo. Não existe palestra no mundo que te ensine a se fazer ouvir, a ouvir o outro, enfim, a lidar com gente. Os contextos e reações são imprevisíveis. Não dá pra treinar sem viver.

Então, eu sei, eu sei, eu sei que é um saco fazer trabalho em grupo, mas vamos encarar que isso só é um saco porque você precisa lidar com outras pessoas. E isso requer uma série de habilidades linguísticas que nem sempre você tem — e tem preguiça de desenvolver.

Mas o que isso tem a ver com Tinder e outros aplicativos do gênero?

Muito se fala sobre como esses aplicativo tipo Tinder são a pior coisa do mundo para as relações. Não acho que eles causem nada de diferente nas relações, acho que são apenas um dos frutos de um contexto já existente. Esses aplicativos são uma resposta a esses tempos de preguiça, não são a causa dela. Mas eles de fato podem contribuir para acentuar o cenário.

Eu poderia chover no molhado e falar do amor líquido e das pessoas como mercadoria e tudo mais sobre o que o Bauman escreve. Mas eu quero focar no fato de que o comodismo desses aplicativos atrofia nossas habilidades linguísticas e, como é por meio da linguagem que nos comunicamos, isso prejudica também a maneira como nos relacionamos com outras pessoas.

Da mesma forma que, sem fazer trabalho em grupo não se aprende a lidar com pessoas e a trabalhar em equipe, relacionar-se por meio de um aplicativo que faz tudo por você também te faz não aprender a… bem, lidar com pessoas e a trabalhar em equipe.

O problema da praticidade

Sabe no filme Wall-E, quando vemos o futuro, e as pessoas têm os membros encurtados e são todas obesas? Isso acontece porque elas não têm mais a necessidade de se movimentar por conta própria; não precisam andar. Podem ir de um lugar a outro apertando botões em suas cadeiras móveis.

É fácil se acostumar com qualquer tipo de praticidade. Ninguém quer ter trabalho desnecessário.

Fazemos isso com celular também. Costumávamos decorar números de telefone e hoje em dia não sabemos nem o nosso próprio. Não precisamos nos lembrar de nada, pois temos um smartphone que se lembra de tudo por nós. O trabalho está feito, terceirizado, não precisamos nos preocupar. Guardamos nossa memória para utilizá-la com coisas mais úteis, para as quais não temos ferramentas facilitadoras, ou estamos perdendo a capacidade de lembrar das coisas, de guardar informações, de prestar atenção? É uma questão legítima, gostaria de saber opiniões, científicas ou não.

Porque nenhuma atividade se finaliza em si mesma. Ainda que não percebamos, a cada coisa que fazemos, estamos pondo em prática e internalizando capacidades cognitivas. Estamos exercitando e enriquecendo nossos repertórios.

Matemática não nos ensina só a calcular. Matemática nos habitua a raciocínio lógico, nos capacita para solucionar problemas.

História não nos ensina só fatos, não é só sobre o que aconteceu. História nos ensina a entender contextos, a ver o quadro mais amplo das coisas.

É lendo e escrevendo que se torna melhor leitor e escritor. A prática de leitura e escrita não se finaliza no texto que está sendo lido ou escrito.

O que acontece quando dispensamos essas atividades por achá-las inúteis, vendo só o que elas nos mostram ser superficialmente?

O tinder é prático. Aquilo que você faria em um bar ou em uma festa — olhar pessoas em busca de alguém que ache interessante — , você transfere para o celular, na sua mão, de pijama em casa. É cômodo ficar em casa. O Tinder é cômodo. Você não precisa:

  1. tomar iniciativa de chegar em alguém;
  2. mostrar interesse;
  3. ouvir/dizer não;
  4. resolver conflitos;
  5. terminar.

Indivíduos despreparados para o mundo

Os aplicativos de relacionamentos não estão destruindo as relações; eles estão é destruindo o indivíduo. Da mesma forma que não memorizamos mais uma série de coisas porque sempre gravamos no smartphone, não praticamos as habilidades necessárias para lidar com outras pessoas, porque contamos com ferramentas que nos permitem não ter o trabalho.

  1. Sobre tomar iniciativa de chegar em alguém

Ao vivo, quando nos interessamos por alguém, podemos guardar isso pra nós ou tomar uma iniciativa. Não é novidade procurar formas de não ter que encarar a coisa. É bem comum, por exemplo, pedir pra um(a) amigo/a “colocar na fita” ou “sondar”. É uma forma de descobrir se vale tomar uma iniciativa sem ter que se expor.

Caso você decida se expor e chegar na pessoa, você precisa pensar em como fazer isso. Anda até a pessoa e se apresenta? Pergunta as horas? Diz que acha que vai chover hoje?

Há também quem prefira olhar nas redes sociais primeiro. Procurar coisas em comum pra se preparar pra algum assunto que funcione.

Nos aplicativos, toda a reflexão por trás de uma tomada de iniciativa perde o sentido. Estar no Tinder é uma iniciativa, é mostrar-se disponível. O máximo de dificuldade que pode haver é dar um match e não querer ser a primeira pessoa a dar um oi.

2. Sobre mostrar interesse

Depois de se aproximar da pessoa, você precisa mostrar interesse, de modo que a pessoa entenda suas intenções. Ser muito sutil pode fazer com que a pessoa não perceba ou não tenha certeza e acabe não correspondendo por pura falta de confiança. Ser muito direto pode ofender, quebrar clima, soar inapropriado. Há todo um trabalho mental que te leva ao flerte. Para alguns, é divertido e até parece natural. Para outros, é desconfortável e fonte das maiores crises de ansiedade. (Creio que, para esse segundo grupo, falte apenas prática.)

Não há risco de exposição no Tinder. A pessoa só sabe que você a curtiu se ela te curtir de volta. Não precisa se preocupar em pensar sobre como mostrar interesse da maneira correta. Um princípio de interesse mútuo está estabelecido. Se vocês têm contato, é porque os dois estão predispostos a fazer algo acontecer ali.

No caso do super like (aquele que faz a pessoa saber que você está interessado/a mesmo se ela não estiver), é um risco maior. A pessoa vai saber de qualquer jeito. Ainda assim, se ela não quiser, não vai acontecer nada, você apenas não vai receber o match. Não vai ser um constrangimento.

Os riscos são sempre muito menores em um aplicativo.

3. Sobre ouvir e dizer não

Quando estamos a fim de alguém e decidimos tomar iniciativa, a coisa mais desconsertante que pode acontecer é ouvirmos um não. Qual é a maneira mais adequada de se reagir? Como é que se lida com rejeição? Como se convencer de que não é nada pessoal? Existe coisa mais pessoal do que rejeição?

Igualmente, quando estamos do outro lado e vamos rejeitar alguém, é de bom tom refletir sobre como faremos isso. Quais são as palavras que expressam educadamente que você é boa gente, mas eu te acho meio chato; você é divertido, mas não sinto tesão; estava tudo indo muito bem, mas odiei aquilo que você disse e agora não quero mais? Como dizer não sem dar esperanças, mas, ao mesmo tempo, não ser grosseira? Como não ferir os sentimentos ou expectativas da outra pessoa?

Isso não existe em aplicativos. Quem não quer simplesmente não curte. Se inicialmente quiser e, depois de bater um papo, perder o interesse, basta excluir. Não se aprende a lidar com rejeição nem a explicar a própria.

4. Sobre resolver conflitos

Mal-entendidos são comuns, pois a comunicação é sempre falha, visto que depende de uma série de fatores (escolha de palavras, tom de voz, histórico pessoal dos interlocutores, histórico da relação entre os interlocutores etc.). O que resolve mal-entendidos é cooperação e ela se dá por comunicação que, por sua vez, ocorre por meio da linguagem. Quando temos as famosas DRs, somos obrigados a experimentar dizer as mesmas coisas de maneiras diferentes. Algo dito que magoou a outra pessoa sem intenção precisa ser refraseado. É um exercício constante de linguagem.

Muitos mal-entendidos e conflitos em geral não se resolvem simplesmente porque as pessoas não se comunicam. Você fica chateada/o porque seu/sua namorado/a disse algo que você não gostou. Você não fala pra ele/a que ficou chateada/o, porque não quer causar um clima ruim. Ele/a, sem saber que você está chateada/o, age normalmente e faz uma brincadeira. Você, ainda sensível, acaba reagindo exageradamente a ela. Ele/a fica irritado/a, porque você está mal-humorada/o sem motivo algum. Ele/a não diz nada, porque não quer brigar. Você fica incomodada/o por ele/a não ter percebido (e tinha como?). No fim do dia, você cataloga insensibilidade como um defeito dele/a e ele/a cataloga mau humor como um defeito seu.

Isso acontece repetidas vezes, em versões variadas do mesmo roteiro. Que coisa mais desgastante para uma relação. As pessoas não conversam, não dizem o que estão sentindo, não se explicam. Reagem às cegas às reações daquelas com quem se relacionam. No fim, ninguém sabe o que deu errado.

O Tinder não cria esse contexto, mas acentua. É mais um meio no qual as pessoas não precisam explicar o que sentem, dizer o que querem e o que não querem. Se estiver agradando, continua. Se não estiver, some.

5. Sobre terminar

Se não estiver agradando, some. As pessoas não resolvem nem os conflitos, logo, não é surpresa alguma que elas também não terminem relações honestamente. E assim se instaura a prática do ghosting: o ato de, sem qualquer explicação, simplesmente nunca mais responder a pessoa, como se ela de repente tivesse deixado de existir. Isso tem sido tão cada vez mais comum, que até quem acha isso errado, acaba se habituando e fazendo também. Sobre isso, indico esse texto maravilhoso, publicado aqui no Medium pelo Rodrigo Orge.

A gente teima em achar que aqueles que somem sem explicação são pessoas horríveis. Às vezes, são só pessoas totalmente despreparadas pra lidar com a situação. Gente que não sabe o que fazer e surta. Gente como a gente, fazendo algo que a gente acaba fazendo também. Somos vítimas e agentes do mesmo problema.

Interagindo dentro dos aplicativos

Não é à toa que, depois da etapa de mostrar interesse (match), muitos nem consigam conversar. Isso não significa simplesmente que são pessoas com pouco em comum. Isso é também que as pessoas não sabem mais interagir umas com as outras. Todo o procedimento de flerte foi feito no automático. A parte da interação é a mais difícil.

A comunicação por escrito, mediada por tecnologia, tem algumas particularidades que perdemos de vista nesses tempos em que esse se torna o nosso meio padrão de interagir com outras pessoas. Com o tempo, deixamos de sentir isso, mas a tela de fato nos afasta dos outros, nos priva de contato físico, contato humano. Não vemos olhares, não ouvimos risadas, não ficamos nem sabendo de expressões faciais. Como não vemos nem somos vistos, perguntas e respostas são sempre mais calculadas, planejadas. É possível ser natural e espontâneo sim, mas o meio faz de tudo para que não se seja.

Sobre essa questão, há um ponto positivo. Pessoas muito tímidas, introvertidas, ou pessoas que apenas saem pouco de casa e não têm muito onde conhecer outras pessoas podem ser muito beneficiadas pelo Tinder. No meu pouco tempo de experiência no aplicativo uns anos atrás, essa foi minha realidade e a daqueles com quem interagi: gente que não tem outras formas de conhecer pessoas são ajudadas pela praticidades. Ainda assim, não estamos mais uma vez caindo no comodismo?

Da interação virtual para a interação cara a cara

A mediação da tecnologia afeta nossas vidas de maneiras que às vezes nem percebemos. Neste artigo, a autora explica em detalhes a maneira como a dinâmica do relacionamento dela com o namorado mudou quando ele comprou um celular Android, depois de usar Apple, assim como ela, desde o início do namoro. Muitos acharam a maior bobagem do mundo e talvez seja um pouco dramático dizer que a mudança de celular quase destruiu a relação. Mas é inegável que, se construímos nossas relações por meio de comunicação e nossa comunicação é quase sempre mediada por tecnologia, mudanças nessa tecnologia necessariamente têm efeitos sobre a dinâmica de nossas relações.

Quando digo que o Tinder e esses aplicativos acentuam o cenário já existente, o que quero dizer é que é normal transferir para nossas interações e relações aquelas práticas que são particularidades do contexto da tecnologia. O ghosting é o exemplo mais clássico disso.

Na internet, em redes sociais ou em aplicativos, quando desejamos cortar contato com uma pessoa, precisamos apenas deletá-la ou bloqueá-la. Não há muito o que a pessoa possa fazer quanto a isso. Se ela te encher de mensagens, basta ignorar ou bloquear e tem-se a impressão de que a questão está resolvida, finalizada.

Cara a cara é mais difícil. Ninguém vira as costas e deixa uma pessoa falando sozinha do nada. Ninguém que está na mesma sala que você se recusa a olhar na sua direção. Cara a cara, somos obrigadas a lidar com as pessoas, mesmo se não quisermos. Não é uma questão de querer, é de ter que fazer e pronto. É difícil, é chato, é desgastante, mas gastamos todo o nosso repertório linguístico para resolver coisas chatas pessoalmente.

Esse costume de poder apenas deletar ou bloquear a hora que quiser é transportado para as relações interpessoais em forma de ghosting. Se não vamos ser obrigados a ver a pessoa novamente, é fácil tirá-las de nossas vidas apenas as excluindo de nossas redes sociais. E está feito o término.

Por que isso significa que estamos atrofiando nossas habilidades interpessoais

Porque estamos deixando de praticá-las. É nos expondo às situações e tendo chance de vivê-las que aprendemos a agir dentro desses contextos sociais. É por meio de experiências sociais que adquirimos repertório para interagir nesses contextos.

Uma criança de um ano e meio, no colo da tia, olha com curiosidade para a blusa de bolinhas que a tia usa. A criança estica a mão e tenta pegar uma das bolinhas. Não consegue. A criança ainda não sabe que as bolinhas são uma estampa, pois ela ainda não aprendeu a diferença de dimensão. Essa diferença, a criança vai aprender vivendo outras situações assim. Quanto mais situações desse tipo ela viver, mais ela vai entender sobre isso e, assim, ela irá internalizar que é assim que funciona. Quando internalizamos, isso passa para o cognitivo e, a partir disso, adquirimos a habilidade de agir de acordo. Mas nos expormos a situações é essencial para o aprendizado. (Não sou eu que estou dizendo. Isso você pode aprender estudando Linguística Cognitiva, Linguística Aplicada, Sócio-interacionismo e até Antropologia e Sociologia.)

Não nos expormos às relações com outras pessoas nos impede de aprender a lidar com pessoas. E isso não afeta somente a nossa vida amorosa. Isso afeta a vida em família e até mesmo as relações de trabalho. É se relacionando com pessoas (e namoros tendem a ser relações muito próximas e íntimas) que você pratica e aprende, com o tempo, essas habilidades que você vai usar em todas as áreas da sua vida, como resolução de conflitos, por exemplo.

Para refletir

Há como fugir dessa tendência de tornar as relações cada vez mais impessoais? É possível inverter o jogo e voltar a humanizar essas relações?

Motivo para ser pessimista: dentro do jogo, precisamos jogá-lo. Em outras palavras, se todo mundo estiver fazendo algo, você pode até discordar, mas, com o tempo, estando inserido no meio, é muito difícil resistir à tentação de, aos poucos, reproduzir as mesmas práticas. Isso explica a reação descrita no texto do Rodrigo Orge: ele está se habituando ao ghosting, mesmo sofrendo com isso e achando algo ruim.

Tem como não se habituar a algo que pareça agora tão inerente e padrão à maneira como as pessoas se relacionam?

Interaja com as pessoas cara a cara. Faça contato físico. Abrace quem você gosta. Converse sobre seus problemas. Diga se não estiver satisfeita/o com alguma coisa. Tenha DRs. Pare de enxergar DRs como brigas. Não tenha medo de conflitos, eles são naturais; enfrente-os. Quando não quiser mais, seja honesto/a. Explique por quê, dê satisfações. Aprenda a falar sobre o que sente. Chame pra sair. Quando estiver em uma interação online, lembre-se sempre de que, do outro lado da tela, há um ser humano, cheio de sentimentos, como você. Trate-o com cuidado. Enxergue além dos avatares. Comece a inverter o jogo.


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Escrevo na área de Relacionamentos & Sexo da Revista Capitolina e atuo no Ajuda, Miga!, vlog de conselhos para as leitoras da revista. Trabalho como professora de inglês e sou mestre em Linguística Aplicada (Discurso e Práticas Sociais), com estudos focados em amor, relações amorosas, gênero e sexualidade.

Ilustrações por Beatriz Leite. Contato: beatriz.hmleite@gmail.com.


Dicas de leitura:

Eu estou me habituando ao ghosting, e isso é relativamente assustador, por Rodrigo Orge

When a New Cell Phone Almost Ruins Your Relationship, por Caroline Moss

Are We Dating? And other Confusions created by Texting, por Maryam Abolfazli

Why Developing Serious Relationships in Your 20s Matters, por Elizabeth Spiers.

Amor Líquido — Zygmunt Bauman

Vida para Consumo — Zygmunt Bauman

Modernidade Líquida — Zymunt Bauman

A Transformação da Intimidade — Anthony Giddens (se você estiver achando o Bauman pessimista demais)