O triunfo de ‘La La Land’ e o futuro dos musicais

Sucesso do filme pode abrir a porta para novos musicais?

Em 27 de março de 1952, estreava um dos filmes musicais de maior sucesso da história: Cantando na Chuva. Estrelado e dirigido por Gene Kelly (em parceria com Stanley Donen), o longa até hoje é figurinha fácil em listas que catalogam as melhores produções já realizadas. Cerca de 64 anos depois, chega aos cinemas La La Land: Cantando Estações, musical de Damien Chazelle, fazendo um estrondoso sucesso com a crítica e com o público —leia a minha crítica aqui. Será que, finalmente, o estilo musical reencontrou os holofotes e estamos diante de um novo clássico?

Mas o que define um filme musical?

Em seu livro Como ver um Filme, a jornalista especialista em cinema, Ana Maria Bahiana, reflete que o cinema é uma “arte viva”, com um claro ciclo natural e, dessa forma, possui seus gêneros bem definidos. Um filme musical pode se aventurar por vários gêneros, como comédia, horror e drama, entretanto, possui a música como elemento narrativo essencial, marcado por canções que impulsionam a narrativa, sem serem meras coadjuvantes em cena. Ou seja, o musical é um subgênero de um tema maior.

Filmes como Cantando na Chuva, A Noviça Rebelde, O Mágico de Oz, Amor Sublime Amor, Moulin Rouge: Amor em Vermelho, A Bela e a Fera, Chicago, Grease: Nos Tempos da Brilhantina, Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet e Os Miseráveis são alguns títulos que se encaixam como musicais, mesmo se aventurando por gêneros como drama, comédia romântica e até terror.

Cantando e encantando

Eternizado pela cena em que o protagonista canta Singin’ in the Rain, Cantando na Chuva narra um momento de transição do cinema do “mudo” para o “falado”. Com isso, muitos astros que brilhavam com suas atuações sem áudio perderam espaço quando as possibilidades de atuação se ampliaram, inclusive com a ascensão dos filmes musicais, que cobraram ainda mais talento dos astros — muitos precisando cantar e dançar nas produções.

Usando a metalinguagem para contar essa transformação, o filme de 1954 é uma ode ao cinema de astros, mostrando ascensão de novas estrelas e o declínio de outras, desafiadas e inspiradas com esse novo caminho. Não é à toa que o cartaz principal da produção apresentava a frase: “What a glorious feeling” (Que sensação gloriosa, em tradução literal). Essa ferramenta de marketing deixava clara a intenção do longa-metragem: levar a glória aos seus espectadores.

Somando mais de 220 milhões de dólares nas bilheterias pelo mundo (o modesto custo de 30 milhões deixa o lucro ainda mais impressionante), La La Land: Cantando Estações também chegou com uma missão clara: levar otimismo ao público. Essa tem sido a principal questão levantada nas elogiosas críticas.

É a fantasia, a distração e todo o poder do cinema usado para inspirar o público, trabalhando questões reais e complexas da natureza humana em contextos cruelmente realistas. Os sonhos perdidos em momentos onde a memória e a tradição se desintegram diante das novidades sintéticas, que possuem como principal objetivo o lucro.

Como musicais, Cantando na Chuva e La La Land são poderosos visualmente e na suas narrativas. São números que remontam uma Hollywood colorida, clássica, bebendo da fonte da Broadway, homenageando o artista e o poder da mensagem.

O filme de 2016 é cercado de referências, remontando coreografias que estão guardadas nos corações dos amantes da sétima arte. Olhando para trás, La La Land faz questão de deixar clara sua mensagem, retificando que os musicais são essenciais para o cinema, são perfeitos para manipular os sentimentos de uma plateia[RC1] ávida por emoções verdadeiras.

Um passado glorioso e um futuro possível

Nos últimos anos, filmes musicais navegaram em águas obscuras, levando o estilo quase ao marco zero. A década de 2000 trouxe um novo frescor, trabalhando em conjunto com a televisão e seus realities shows musicais — hoje ela já possui produções mais elaboradas, com séries que são de fato musicais.

Moulin Rouge: sucesso de crítica e público no ano de 2001

La La Land: Cantando Estações pode ser o início de uma nova era para o cinema, garantindo que é possível, nesse momento, Hollywood realizar obras que sejam acima da média e atraiam a atenção do público geral.

É fato que musicais como Moulin Rouge! Amor em Vermelho, Hairspray, Chicago e Os Miseráveis fizeram suas contribuições para potencializar o retorno do subgênero, mas elas não são consideradas produções originais na sua essência.

Em La La Land, o estilo musical se provou ainda mais completo em sua missão de agregar valor à magia do cinema. Amplia o espírito de entreter, encantar e emocionar utilizando outras artes tão brilhantes quanto à cinematográfica, a música e a dança. Do apogeu nos anos 50, até o declínio nos anos 90, é muito bom poder contar com produções musicais que estão vivas na memória, guardadas na alma, mas também é possível encontrá-las em cartaz, onde não deviam ter saído jamais.

Colaboração: Renato Conceição