O verão tempestuoso de Hollywood

Bilheterias fracas, falta de novidades e a China salvando o dia — mais uma vez

Nesses últimos dias, não se falou de outra coisa: o final da série Game of Thrones. Enquanto ela dominava as rodinhas de conversas, algumas pessoas correram atrás de maratonas a tempo de compartilhar as teorias do que está por vir. A HBO bateu recorde de audiência e a pirataria, provavelmente, também. Enquanto isso, o cinema — o “irmão rico” da televisão — com suas grandes produções da temporada de férias, amarga fracassos… um atrás do outro.

Capitão América: Guerra Civil é o filme mais lucrativo do ano com 1,1 bilhão de dólares.

Salvo pela temporada que antecipa as férias, em início em março, com filmes como Batman v Superman: A Origem da Justiça, Capitão América: Guerra Civil, Zootopia e Mogli- O Menino Lobo —que fizeram não apenas o dever de casa, arrecadando mais de 100 milhões no país de origem, como também bateram ou se aproximaram da marca de 1 bilhão de dólares pelo mundo — a temporada mesmo tem decepcionado os estúdios. Produções de grande apelo comercial como Alice Através do Espelho, As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras e O Caçador e a Rainha do Gelo, viram seus números de abertura definharem de forma caótica.

Pior ainda é averiguar a situação de uma produção como Warcraft — O Primeiro Encontro de Dois Mundos, que custou cerca de 160 milhões, arrecadando míseros 46 milhões no total (!)— salvo até então pela China, onde se tornou um fenômeno de mercado, impulsionando a renda para meio bilhão de dólares, deixando que a bilheteria norte-americana represente apenas 10% da arrecadação.

A crítica tem “culpa”?

Um fato que volta e meia sempre gera especulações, é sobre peso da crítica no resultado mercadológico desses filmes. A influência da crítica ainda pode ser considerada decisiva, todavia, não é crucial. O cinema com heróis oriundos dos quadrinhos está mostrando uma resistência maior no fator crítica negativa. Batman v Superman é um grande exemplo que foi execrado pela crítica, mas que ainda assim se sobressaiu com o público.

Filmes como X-Men: Apocalipse e Deadpool, também reagiram aos comentários mornos, em que a opinião da crítica veio de encontro com a vontade do público em assisti-los. Porém, foi no marketing boca a boca que a diferença foi determinante para o sucesso do filme nas semanas seguintes (culminando no desgaste repentino de BvS e impulsionando o desejo geral em assistir Deadpool).

Tarzan obscuro é o que tem pra hoje. Sério?!

Entretanto, longas como Independence Day, o recente A Lenda de Tarzan e Warcraft, refletiram o efeito negativo tanto por parte da crítica quanto por parte do público. Os fãs reagem, como se resenhas tivessem toda a força em mudar a opinião de alguém na hora que esse estivesse com o dinheiro na mão na boca da bilheteria, mas não é bem assim. Fatores como o interesse do público alvo também determinam o sucesso de uma história. É a questão de “se vale a pena sair de casa para assistir ao filme” que predomina antes de julgar qual filme escolher.

Nos últimos anos foram levantados grandes debates sobre o desânimo de jovens mulheres irem ao cinema. Crepúsculo havia sido um estouro de bilheteria por esse público, mas não conseguiu levar semelhantes filmes em seu caminho de ouro— e foram bombas atrás de bombas até o encontro deste público com Jogos Vorazes. Falando nessa franquia, ela viu o seu último filme (dividido em duas partes) fazer menos dinheiro do que os três filmes da franquia, algo que pegou todos de surpresa. E novos debates foram levantados.

O verão tem salvação?

Enquanto a China e o resto do mundo vão devorando as produções que os norte-americanos ignoraram, mesmo protagonizadas com astros carismáticos como Johnny Depp e Charlize Theron (e isso tem se mostrado cada vez mais irrelevante), ainda estão para sair grandes lançamentos.

Procurando Dory pode se tornar a maior animação da história.

Procurando Dory tem cumprido sua função de blockbuster para a família quebrando recordes óbvios, assim como promete outra animação, Pets — A Vida Secreta dos Bichos, uma boa novidade entre tantas continuações. Porém, os próximos lançamentos ainda são incógnitas.

Entre os filmes de grande orçamento, Caça-Fantasmas, A Era do Gelo: Big Bang, Star Trek: Sem Fronteiras e Jason Bourne, que traz a volta do astro Matt Damon (agora valorizado pelo hit de 2015 — Perdido em Marte) podem fazer sucesso. Mas nenhum deles consegue chamar mais atenção que Esquadrão Suicida e a sua promessa de ser um alívio nas adaptações de histórias em quadrinhos — as apostas em torno dele estão altas.

Conclusão

A verdade é que a fórmula do sucesso não existe. Diretores e produtores dialogam sobre o que o público quer ver, mas todo ano é a mesma coisa. É possível até prever sucessos e fracassos depois que começa a ser liberada a campanha de marketing com trailers, eventos promocionais, jogos, clipes musicais e etc, mas, antes disso, parece ser uma tarefa árdua de executivos buscando entre a fórmula de 1 bilhão de dólares e a fuga da queda em um abismo.

Outro fato é que o público também está distraído pela tumultuada realidade (é ano eleitoral nos EUA e assuntos como a violência civil e terrorista estão em alta). E nem diretores de porte como Steven Spielberg conseguem fugir da surpresa que o público prega, afinal, seu novo longa O Bom Gigante Amigo fez apenas 30 milhões em uma semana de exibição. E o orçamento? Nada menos que 140 milhões. Quem vive dessa indústria tem dois caminhos: ou espera pelo abraço dos chineses ou pelo próximo verão. Por enquanto, o inverno de Game of Thrones, está mais envolvente.