O voto e a política econômica

Ao pensar o voto, é indispensável pensar a política econômica, dizem; entretanto há um impiedoso dilema nessa relação, a economia é uma ciência técnica e altamente especializada, com um linguajar inacessível aos leigos e pautada por intensos debates e escolas dissonantes. Pensar a política econômica, dessa forma, é uma tarefa hercúlea, praticamente de fé. Propõe-se, nesse texto, refletir acerca do voto por sua perspectiva econômica.

A estética econômica e o voto

Excetuando-se aqueles que dominam alguma das vertentes da ciência da gestão dos recursos limitados, o eleitor entende a economia pela forma que ele sente no seu microcosmos, ou seja, pelo que sente. Propõe-se duas formas para entender esse processo decisório, uma relação de causa e efeito de governos antigos e engajamento acerca de veículos e formadores específicos a um certo pensamento. Possivelmente, trata-se de uma combinação imponderável desses dois. Para fins ilustrativos, organiza-se em dois tipos ideais, facilitando-se, dessa forma, a reflexão.

O cidadão irá medir a qualidade econômica de certas políticas existentes por certos fatores preponderantes a realidade própria. Pode-se considerar pela disposição de empregos ou a qualidade dos empregos a disposição, assim como a facilidade de se consumir certos produtos no mercado. Para uma população de maior poder aquisitivo, coisas como a força da moeda serão importantes, assim como a possibilidade de consumir itens que gerem distinção. É um assunto deveras complicado, mas que termina em políticas econômicas que ocorreram em tempos de bonança para o indivíduo.

Isso quer dizer que a política econômica foi boa ou gerou aquele período? Não. Muitas vezes, uma mesma política pode gerar aspectos positivos para um indivíduo e negativos para outros. Por exemplo, uma política monetária que fortaleça a moeda, facilita importações, assim, permite que membros da classe média comprem mais itens que gerem distinção ou viagem, mas pode enfraquecer a industria nacional, reduzindo a quantidade de empregos para um cidadão de classe mais baixa. Uma política de investimentos públicos em certos setores pode gerar empregos para certas categorias, mas custar em impostos para a sociedade como um todo, e por aí vai. Ainda, há a possibilidade da bonança econômica ocorrer de fatores exógenos ao governo, como a conjuntura internacional ou a iniciativa privada do país. Não dá para negar, por outro lado, que a sensação prepondera.

O cidadão pode medir uma proposta econômica pelos formadores de opinião e veículos de comunicação em que confia. Quando um indivíduo se informa pelo jornal A, B ou C, ele irá ter um viés econômico, pois estará absorvendo majoritariamente as opiniões desse jornal. Não há imparcialidade nesses assuntos, todos abraçam certas premissas e não fica necessariamente claro se o veículo segue uma proposta liberal, marxista, social-democrata ou o que seja. O que o indivíduo considera é como percebe aquele veículo ou o formador de opinião. Caso ele geralmente exponha opiniões que o indivíduo concorde ou, mesmo, vista-se de certa forma, construa uma autoridade em certa categoria, tenha uma performance afim, etc, o indivíduo irá dar voz a esse veículo ou formador de opinião. Dessa forma, aderem-se pontos de vista de youtubers, pensadores (acadêmicos ou não), jornalistas, especialistas que exponham publicamente sua reflexão, etc.

Conclui-se disso tudo que a decisão é essencialmente estética. Há, é claro, um certo grau de conhecimento adquirido pela vida. Um brasileiro com mais de trinta anos dificilmente vai achar uma boa idéia congelar os preços dos mercados ou as poupanças. Há um pavor generalizado de inflação, não sem razão, e uma idéia geral de que uma moeda forte significa boa coisa, certa saudade da paridade real e dólar do início do plano real. Tudo isso advém de experiências válidas e conhecimentos razoavelmente técnicos, mas essencialmente se conforma em estética.

Tendências econômicas

É comum que dividamos a economia no binômio esquerda e direita e, a partir daí, nos posicionemos sobre ela. Compreende-se, comumente, a direita como uma política mais liberal e a esquerda como uma política mais intervencionista. Propõe-se, entretanto, que pense-se a divisão de forma mais complexa, pois, assim, dar-se-á conta de uma miriade de propostas, portanto sendo mais abrangente.

De início, pensemos naqueles que traçam seu pensamento econômico sobre o trabalho de Karl Marx. O pensamento marxista é múltiplo e serviu de contraponto histórico aos pensamentos econômicos vigente, quase que ininterruptamente. Não há concordância nos pensadores marxistas, há os mais tradicionais, que pensam mudanças na realidade social, a superestrutura, advindas de mudanças técnico-científicas, a infraestrutura. É uma base, até mesmo, para o pensamento liberal, mas os marxistas propõe a luta de classes, onde há um indivíduo responsável por explorar outro, o burguês e o proletariado. Em linhas mais modernas, propõe-se uma perspectiva global, onde países exploram outros. Atualmente, também, propõe-se uma larga reflexão acerca da flexibilização do trabalho, ocorrida pelos desenvolvimentos técnico-científicos que retiram o peso do trabalhador, seja por máquinas que realizam o mesmo serviço, por um transporte melhor, que permite que uma fábrica seja menos centralizada, ou mesmo a maior financeirização do sistema, portanto permitindo que o burguês lucre, essencialmente, em cima de mercado financeiro e não trabalho. Propostas na linha marxista tendem a defender o boicote a dívidas públicas, alegando certo nacionalismo, pois o dinheiro é do povo, defendem políticas protecionistas à industria do país, assim como, o corte de uma relação de dependência com bancos privados, grandes concentradores de renda (ruralistas, industrialistas, etc). Um grande exemplo desse tipo de postura na política atual é a candidata Vera Lúcia, do PSTU. De forma mais moderada, há o Guilherme Boulos, do PSOL.

Por outro lado, há o pensamento liberal, que surge da junção de pensadores liberais, como Adam Smith, John Locke ou Voltaire, e fisiocratas como Turgot. Dessas tradições retira-se o Laissez Faire, que defende que o mercado deve funcionar livre de interferências externas. Assim como, a propriedade privada, a herança e a liberdade individual. É importante ressaltar que esse pensamento surge em meio a monarquias, de alguma maneira, absolutistas, que, ao menos, centralizavam o poder do Estado em si. Essa defesa era um rompimento de paradigma, significava dar ao indivíduo a posse, o direito individual e o crédito por seu esforço pessoal. Esses pensamentos foram basilares nas revoluções burguesas e definiram o funcionamento do mundo hodierno. Atualmente, esse pensamento não se coloca de forma simples ou como fora antigamente. A experiência de algumas crises econômicas e a maior integração dos países levou a novas definições do pensamento liberal. Em especial, a crise de 1929 e as crises do petróleo.

Uma das mais importantes vertentes do liberalismo é chamada de Escola de Chicago, surge enquanto projeto político do governo dos Estados Unidos, que, na época, criou uma série de bolsas e parcerias internacionais para espalhar o novo pensamento econômico mundo afora. Esses liberais defendem a preponderância de políticas monetaristas, para o Estado, minimizando ao máximo intervenções de outra ordem. Ou seja, o Estado pode controlar a impressão de moeda, a compra de moedas estrangeiras, os investimentos financeiros do próprio Estado, como títulos públicos. O câmbio deve ser flutuante, ou seja, respondendo ao mercado, os impostos devem ser mínimos, a máquina pública deve ser enxuta. Acredita-se, dessa maneira, que o próprio mercado irá regular-se. Um exemplo desse pensamento é João Amoedo. Dentro desse pensamento, há aqueles que interpretam que alguns mercados não tem bom funcionamento, portanto precisam de incentivos a um bom funcionamento. Esses compreendem certo grau de intervencionismo, mas por uma via intrinsecamente monetarista, com isenções, por exemplo, ou por parcerias público privadas. Desse último, Geraldo Alckimin, Henrique Meirelles e Álvaro Dias, em diferentes graus, apresentam esse tipo de proposta. O candidato Jair Bolsonaro, por si, parece apresentar-se no último modelo, entretanto seu assessor econômico Paulo Guedes expõe propostas que se assemelham ao primeiro modelo, o mais clássico.

Historicamente, dentro do liberalismo, surgem pensamentos pós crise de 1929 e, especialmente, pós Segunda Guerra Mundial, que questionam o papel do Estado dentro do mercado. Dessa maneira, surgem os chamados Pactos Sociais Democratas. Os exemplos históricos são os mandatos do Labor Party na Inglaterra e a política do Franklyn Delano Roosevelt nos Estados Unidos. Partindo do pensamento do economista John Maynard Keynes e das pressões dos trabalhadores, esses governos assumiram uma postura mais ativa sobre o mercado. Na América Latina, há um forte pensamento dessa ordem dentro da CEPAL, encabeçada pelo seu fundador, Raúl Prebisch, e o importante economista brasileiro Celso Furtado. Esse pensamento compreende desigualdades intrínsecas ao desenvolvimento da sociedade, sejam grupos internos ao país, como a classe trabalhadora nos primeiros casos, seja internacionalmente, como nos segundos casos. Percebe-se a necessidade de investimentos diretos do governo para o desenvolvimento de industrias, geração de empregos, proteção de setores sensíveis do mercado, o estabelecimento do Estado de Bem-estar Social, onde há a manutenção de certas garantias aos indivíduos, como saúde, educação, transporte, aposentadoria, moradia, etc. Nesse pensamento, o governo precisa ter uma máquina pública robusta e cara, necessitando de mais impostos, entretanto com os investimentos corretos, compreendendo o mercado, pode-se e deve-se fazê-lo com o mínimo necessário. Por exemplo, investindo em uma industria que vá gerar empregos e aquecer a economia, retira-se a necessidade de investimentos futuros ou maiores. Fala-se, também, em redistribuição de renda, onde economistas contemporâneos como Thomas Piketty defendem políticas de redistribuição de renda direta, como taxações de fortunas e heranças, controle do mercado imobiliário, até mesmo políticas de injeção direta, como o Bolsa Família, do governo Lula ou, de maneira mais complexa, o plano Rehn-Meidner na Suécia. Os dois candidatos que melhor se encaixam nesse modelo são Ciro Gomes e Fernando Haddad, com uma proposta menos intervencionista há Marina Silva. Não tem-se tanta clareza das propostas de Cabo Daciolo, mas parece-se encaixar, em algum grau, nesse pensamento.

Como escolher

Não há formula para escolher um candidato, muito menos por políticas econômicas. A realidade é que todos os modelos acima têm exemplos históricos bem sucedidos e mau sucedidos. Há, inclusive, defensores de todos os modelos históricos que foram autênticos em suas defesas e tantos outros que defenderam essas ideias somente como marketing político. A realidade é que o voto pela sensação é inevitável. Por outro lado, sabendo onde os candidatos encaixam-se no debate econômico é possível peneirar em quem votar. Políticas econômicas são muito importantes e, infelizmente, não é ensinado nada de economia na escola. Mesmo a classe média, bem educada, carece de informação nesse sentido. É importante ouvir com clareza, ter respeito pela posição do outro e seguir no que acredita.