(ou) Migalhas de amor

Laura Pires
Jun 4 · 5 min read
(ilustração por Beatriz Quadros | contato: beatrizquadros@yahoo.com.br)

Recentemente, por causa de uma propaganda insistente do New York Times no Twitter, li um artigo sobre o conceito de orbiting, que está sendo chamado de “o novo ghosting”. Ghosting, pra quem não sabe, é quando a pessoa, em vez de conversar e terminar com você, simplesmente vai sumindo até nunca mais aparecer. O orbiting, enquanto isso, consiste em terminar mas ficar te acompanhando — te orbitando — , especialmente online.

Ora, sim, tem gente que termina e continua te mantendo a uma distância calculada pra poder te puxar de volta se quiser ou simplesmente pra te manter interessada e alimentar o próprio ego. No entanto, quando fui ler exatamente quais tipos de comportamento são considerados orbiting, me deparei com coisas como: “ele/a vê todos os meus stories”, “ele/a curte minhas fotos”, “ele/a me marca em memes”. Fiquei pensando, então, em como o problema talvez não seja exatamente o orbiting, mas sim a nossa tendência a acreditar que essas coisas significam demonstração de interesse e criarmos expectativas em cima delas.

Essas interpretações de pistas não surgem no pós-término. Elas são parte extremamente comum das relações afetivas (e, muitas vezes, até mesmo em amizades) desde o primeiro momento, quando surge o interesse. É claro, quando ainda nem conhecemos ou mal conhecemos a pessoa, precisamos interpretar o comportamento dela. O que ela pode estar fazendo para demonstrar interesse? E assim damos valores a fotos curtidas, emojis com beijo em formato de coração, frequência de interação online etc. Aprendemos a acreditar que essas coisas significam interesse afetivo/sexual.

Acontece que essas pequenas coisas só são demonstração de interesse quando vêm acompanhadas de outros fatores (a pessoa faz isso com todo mundo, incluindo aquelas pessoas que certamente não a interessam, ou com você é especial?) e de outras manifestações mais claras (a pessoa fez qualquer menção à possibilidade de vocês saírem, mesmo que indiretamente?). O problema é que teimamos tanto em nos apegar a essas migalhas, que podem não significar absolutamente nada, que quando todas elas ocorrem mas o encontro não acontece ou não se repete, ficamos confusas e criamos relações entre fatos que na verdade não têm relação. Por exemplo, é comum pensar: “Se ele/a não me quer, por que vê todos os meus stories?” — partindo de uma pressuposição de que ver stories é querer, então não querer e ver stories seria uma contradição. Mas não é. Ver stories é só ver stories. Quem quer sair com você simplesmente sai com você.

Isso tudo me levou a pensar bastante no que chamam de mixed signals, isto é, “sinais misturados”: uma hora a pessoa dá sinais de que quer, outra hora dá sinais de que não quer. E aí ficamos enlouquecidas tentando entender o comportamento, quando, na verdade, se há essa dúvida, costuma ser porque a pessoa não quer mesmo. Hoje em dia, acredito que, em casos de mixed signals, das duas uma: ou a pessoa não quer e fica jogando migalhas pra satisfazer o próprio ego ou ela não quer e faz um monte de coisas que não significam nada, mas nós, interessadas, nos agarramos a elas pra alimentarmos nossas próprias ilusões. Seja como for, a pessoa não quer.

É bastante comum sim que uma pessoa interessada veja seus stories, curta suas fotos e te marque em memes, mas essas atitudes por si só não significam interesse. Uma pessoa interessada demonstra isso de muitas outras formas além dessa (por exemplo, conversando, estando disponível, dando satisfação quando não está disponível, compartilhando fatos da vida, fazendo perguntas sobre a sua etc.).

Aqui cabe um adendo pra falar das pessoas confusas e das pessoas tímidas. Às vezes a pessoa manda mixed signals porque não sabe mesmo o que quer e age de acordo com a própria confusão que sente. Nesses casos, continuo acreditando que o mais produtivo é classificar como “não quer” e cair fora. Gente confusa só traz problema, sai esbarrando em todo mundo e deixando um pouquinho de caos e confusão especialmente pra você também. Fuja. Já as pessoas tímidas, cabe observar o que é de fato timidez de tomar uma iniciativa mais clara e o que somos nós tentando defender e explicar certos comportamentos de maneira a se encaixar no que queremos que eles signifiquem. Infelizmente, todas as vezes que me apaixonei por uma pessoa tímida que me mandava mixed signals, eu justificava tudo por ela ser tímida, enquanto era só comigo que as coisas não aconteciam, e a pessoa conseguia seguir sua vida normalmente se relacionando com outras. Ou seja, timidez seletiva, né. Por isso, digo: na dúvida, é não. Mas, se quiser confirmação, pergunte diretamente.

E aí, ok, encaramos a realidade de que a pessoa não quer e toda essa interação online não significa nada. O que fazemos? Culpamos a pessoa, claro. Esse é o movimento mais comum: ficamos com raiva porque a pessoa está fazendo coisas, de maneira consciente ou não, que nos alimentam. Entretanto, muito mais saudável e produtivo do que culpar a pessoa seria questionarmos a nós mesmas: por que estamos aceitando TÃO POUCO como prova de interesse e até de amor? Por que aceitamos nos alimentar de migalhas e depois culpamos alguém que talvez nem tenha percebido que as deixou cair? Por que aceitamos comer só isso sabendo que vamos ficar com fome?

É por tudo isso que digo que entender nossos sentimentos diante do que as pessoas fazem e nos responsabilizarmos por eles é muito mais importante do que entender quais são as motivações de alguém que age de forma que nos parece interesse, em contradição com atitudes que apontam pra desinteresse. A contradição não existe; o que existe somos nós escolhendo quais pistas queremos levar a sério e ficando frustradas quando somos obrigadas a nos deparar com a realidade, que é outra.

Outro problema de considerar essas migalhas como demonstração de afeto é que, se só isso basta pra acharmos que alguém gosta da gente, é também só isso que tem que faltar pra acharmos que alguém não gosta. E aí pronto, abrimos um novo mar de carência: “minha amiga nunca vê meus stories, então não vou no aniversário dela” ou “ele diz que gosta de mim, mas nem curtiu minha última foto de perfil” e por aí vai.

Entender que essas migalhas são insignificantes e redirecionarmos nossa energia para lidarmos com o que sentimos em relação a elas (e não para a pessoa que as joga ou solta) não significa se culpar ou achar que é sensível demais. A culpa não é de quem sente, mas a responsabilidade é. Não adianta sofrer com o que as pessoas fazem que nos atinge e ficar tentando mudar as atitudes das pessoas pra pararmos de sofrer. O caminho não é esse. Vale muito mais a pena entendermos por que estamos sendo atingidos, por que aquelas coisas são importantes e aí lidarmos com isso internamente. Quando trabalhamos nosso interior, nossa própria saúde emocional, a pessoa pode jogar ou deixar cair a migalha que for e não nos abalamos — às vezes, sequer percebemos.

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Laura Pires

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Escritora e pesquisadora especializada em amor e relacionamentos. Contato: laurampires@gmail.com

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