Os 13 Porquês e o perigo de fingir que estamos sempre felizes

Hannah Baker, interpretada pela australiana Katherine Langford (Divulgação)

Admito que comecei a assistir Os 13 Porquês (13 Reasons Why) depois que o boom aconteceu. Tudo que se lia na internet era sobre as sete fitas de Hannah Baker e o suposto efeito negativo ou positivo que poderiam ter nos jovens espectadores.

Os argumentos eram muitos. E bons, vindos de ambos os lados. Particularmente gosto de discussões assim. Consistentes, que me fazem parar pra pensar e me deixam na dúvida sobre a posição que vou escolher defender. Nada contra a boa e velha esquerda vs. direita, mas às vezes o que a gente precisa mesmo é de um pouco mais de profundidade.

[Atenção: os próximos parágrafos podem conter spoilers, mesmo que eu seja o provável último ser humano na internet a terminar de assistir a série.]

Os 13 Porquês é uma produção digna dos holofotes. Foi vendida (e criticada) como uma série centrada em um suicídio e nos diversos fatores que contribuíram para que Hannah tomasse a definitiva decisão de tirar a própria vida. Levantou o importantíssimo debate acerca do bullying, do machismo e de como nossa sociedade insiste em fechar os olhos para uma realidade que corrói a vida de incontáveis adolescentes todos os dias.

Contudo, enquanto lia as dezenas de resenhas favoráveis, contrárias e mistas que me fizeram passar pelos treze episódios, senti falta de mais vozes debatendo aquela que, para mim, foi a mensagem mais importante de toda a série: o bullying e o machismo mataram Hannah Baker, mas sua vida poderia ter sido salva se a ela tivesse sido dada a oportunidade de externar seu sofrimento.

Enterrada em sua própria vergonha e no escrutínio dos colegas da escola, a personagem agoniza em silêncio durante toda a temporada e nas poucas situações em que tenta externar seus sentimentos, passa completamente despercebida. Quando escreve uma carta para Zach, quando se abre num poema divulgado contra a sua vontade, num sutil pedido de atenção ingenuamente negligenciado pelos seus pais e até numa última troca de olhares com Clay, Hannah pedia socorro. E esse, ao meu ver, é o ponto crucial de Os 13 Porquês. Ninguém prestou atenção suficiente para ouvir seu pedido.

Sempre tive essa ingrata habilidade de esconder muito bem a minha dor. Talvez por ter vivido a história clichê — mas não menos verdadeira — de um adolescente gay criado numa cidade pequena, homofóbica e repressora: fingir que tudo ia bem quando o mundo aqui dentro estava a beira de um colapso foi o superpoder que me permitiu passar pela puberdade de maneira (quase) incólume e despercebida. Falar sobre os meus fantasmas, àquela época, significava verbalizar parte de mim da qual eu tinha vergonha, medo e com a qual eu não fazia ideia de como lidar. Pouco a pouco, a concha dura em forma de sorriso amarelo foi se formando ao meu redor e, ainda que apertado, comecei a me sentir seguro dentro dela.

De adolescente gay reprimido, me tornei um jovem adulto orgulhoso de sua sexualidade. Com a sorte de ter um sistema de apoio com o qual eu nem sequer sonhava aos 14, descobri os desejos do meu corpo e os delírios do meu coração de forma até bastante suave — se colocarmos em perspectiva a realidade da maior parte dos meus semelhantes espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Nem todos tiveram a mesma sorte.

Apesar disso, uma transição satisfatória entre os lados de dentro e fora do armário não foram suficientes para derrubar os muros espessos que — uma vez fincados fundo durante anos de repressão — já faziam parte de quem eu era, de quem eu havia me tornado. Pelo contrário: acabaram se convertendo em uma armadura poderosa e extremamente útil para o convívio em sociedade. Onde antes havia um adolescente curvado e tímido, agora vive um adulto aparentemente orgulhoso, destemido e feliz a todo momento. Permitam-me frisar o condicionante: aparentemente.

Se minha fama, aos 15, era de timidez e quietude, quase uma década depois me tornei — para a maioria das pessoas ao meu redor, sinônimo de sorriso contínuo, ombro amigo forte, primo exemplo, padrinho dedicado, filho sempre a postos e namorado incansável. E, sendo bastante honesto, eu aprendi a amar cada uma dessas definições. Com o passar dos anos, a represa da dor passou a ser, aos olhos dos outros, qualidade. Aqui dentro, a escuridão — pressurizada — tornava-se densa e inquieta. A soma perigosa de todas as dores que já senti, revolta pela fina imagem de um jovem seguro de si, contente com a vida e irrefreavelmente disponível para as pessoas à volta.

Até que a bomba explodiu.

E, por fim, toda aquela bagagem empoeirada, por anos guardada em mim, forçou sua saída, travestida de crises de ansiedade, noites insones, baixa produtividade e lágrimas, muitas lágrimas.

Não deve ser difícil imaginar a surpresa dos meus. À exceção de uma ou duas pessoas que, com um olhar mais próximo, conseguiam enxergar o que se passava aqui dentro, o espanto foi — e ainda é — a reação mais comum. “Você sempre foi tão leve, tão sorridente”, dizem. A maioria dos amigos, colegas de trabalho e familiares simplesmente não conseguem entender o que havia acontecido com o rapaz que, até então, era visto como um porto seguro em tempo integral. E, para a minha surpresa, foram aqueles treze episódios que me ajudaram a entender toda essa dificuldade.

O que era pra ser apenas mais uma série interessante e ligeiramente polêmica do Netflix, acabou se tornando o start para que eu finalmente pudesse entender como as pessoas se surpreendem ao ver um lado escuro da minha vida que, na verdade, esteve aqui o tempo todo. Os 13 Porquês e a busca desesperada dos pais de Hannah por um motivo plausível para que a filha tirasse a própria vida me fizeram entender que o lado escuro de cada um de nós só tem o poder de nos ferir de dentro. Nossas dores só são letais quando não colocadas para fora.

Sei que estamos falando sobre uma personagem de ficção. Por outro lado, eu e tantos outros, somos reais. Se alguns de nós conseguimos perceber a tempo que não precisamos manter nossas angústias encarceradas em nome de um bem estar teatral e uma felicidade-de-facebook, Hannah representa aqueles que não tiveram a mesma sorte. O que matou Hannah Baker — e que pode estar flagelando, agora mesmo, alguém extremamente sorridente ao seu lado — foi a inabilidade das pessoas de perceber que um sorriso estável e constante pode esconder a escuridão mais abissal.

Hoje, deixo a dor sair. Não tenho mais (tanta) vergonha de permitir que o mundo saiba que não, não sou feliz o tempo inteiro — e quem disser que é, está mentindo. Deixo a angústia transbordar quando ela vem, dita, escrita, no divã, no bar, ou na internet. Acabou-se o tempo de muros altos e agora o ar fresco tem mais facilidade para entrar. Não trago comigo moral, solução, ou fórmula mágica. Nem eu, nem Os 13 Porquês. Fica, talvez, um apelo: para que prestemos atenção aos pedidos de socorro, mesmo que singelos. Ao contrário de mim, Hannah e muitos outros não encontraram uma forma de colocá-los para fora. E seus treze motivos, encarcerados, só foram notados quando já era tarde demais.

Esse texto trata sobre ansiedade, depressão, suicídio e outros assuntos que podem funcionar como gatilhos caso você esteja passando por um momento difícil. Não fique em silêncio. Ligue gratuitamente para o Centro de Valorização da Vida através do número 141. Você não precisa passar por isso sozinho.