Os Dez Mandamentos: 150 capítulos de uma viagem (quase) lisérgica

A 20 capítulos do fim, trama da Record peca por ceder à quantidade e não à qualidade

A essa altura do campeonato, quem acompanha televisão já sabe que Os Dez Mandamentos foi líder de audiência por algumas vezes, bateu o Jornal Nacional, bateu a novela das nove, bateu o futebol… Enfim: um sucesso de audiência que reflete novos (velhos?) hábitos do telespectador.

Quem acompanha também já viu a maioria das pragas assolarem o Egito, com efeitos visuais que ora penderam para a qualidade, ora para o rudimentar; e viu uma praga comum ao formato telenovela: a barriga.

Com o “esticamento” da trama em 20 capítulos — dos 150 previstos para 170 — Os Dez Mandamentos perdeu muito da qualidade inicial. O trabalho hercúleo da autora Vívian de Oliveira e do diretor Alexandre Avancini mostrou-se um desafio maçante, já que a bíblia não fornece tamanha quantidade de material. Novos personagens que não aqueles citados no livro sagrado ajudaram a movimentar a trama, mas não foram suficientes para suprir as deficiências de uma história já conhecida e contada há milênios.

O texto didático demais, junto com algumas atuações que passeiam pela canastrice e pela falta de potencial, fizeram de Os Dez Mandamentos um produto de fácil digestão — não é preciso pensar. Entregue-se à viagem proposta pela Record, e divirta-se com diálogos em forma de jogral e as conexões diretas de Moisés (Guilherme Winter) com Deus.

Feito isso, esqueça a desgraça mostrada na novela concorrente — afinal, a realidade já não anda lá essas coisas — e regozija-se com as palavras de fé, os cenários coloridos e bem construídos, os figurinos deslumbrantes, as pragas, as disputas escolares entre Moisés/Deus e Ramsés (Sergio Marone)/Rá/Sekhmet/Ptah/Osíris/Ísis/Bastet/Osíris/entre outros deuses egípcios. Uma viagem quase lisérgica em meio a pragas, rãs, gafanhotos, cenários e figurinos cheios de cor e conversações divinas.

O aumento no número de capítulos mostrou-se uma decisão desastrada em relação à qualidade, mas certeira em relação à audiência. Das médias iniciais de 13 a 15 pontos, a trama chegou aos 20/23, uma curva ascendente explorada com recursos comuns à TV aberta brasileira: com uma Globo em crise (ainda que A Regra do Jogo seja excelente; qualquer novela no horário seria bombardeada depois da fracassada Babilônia), a Record aproveitou a fragilidade da concorrente, aumentando a duração dos capítulos — e empurrando a novela das nove para quase as dez. Apelou para muitos minutos iniciais, que resumiam o capítulo anterior; mais alguns minutos finais com cenas do próximo capítulo…

O bom ritmo inicial se perdeu, tornando capítulos inteiros que poderiam ser resumidos em poucos minutos. Por outro lado, a trama iguala os núcleos, dando chance de praticamente todos os personagens aparecerem, com funções determinadas — ainda que muitas vezes repetitivas. Coadjuvantes recebem bastante tempo de arte, criando a barriga na trama.

Larissa Maciel (Miriã): uma coadjuvante de luxo

Pelo menos a Record, que já teve uma grade voadora, respeitou seu público, começando a novela sempre no mesmo horário (20:30), com pouquíssimas variações. Temia que, com o sucesso da trama e o insucesso de A Regra do Jogo, a Record cedesse a mais uma praga e colocasse a trama bíblica para confrontar diretamente, mudando o horário. Felizmente, não aconteceu e, a esta altura do campeonato, nem acontecerá.

Uma estratégia de guerra que se mostrou eficiente, mas que não merece nenhum mérito. Pior, explicitou as deficiências do texto: cenas dispensáveis, com explicações e “comentários” dos personagens que duraram um capítulo inteiro sobre algum evento/praga, foram (serão?) maçantes. Enquanto isso, o núcleo de Midiã fez uma participação especial: desde que Moisés voltou para o Egito (em meados de julho), a esposa do hebreu, Zípora (Gisele Itié) e sua família sequer tiveram aparições inéditas. Apenas em flashbacks. Seria uma forma de suprir as desnecessárias e repetitivas cenas dos outros núcleos.

Por outro lado, Os Dez Mandamentos se firma como a mais grandiosa produção da TV brasileira — sobre isso não restam dúvidas. Cenários e figurinos, ainda que coloridos demais, fazem parte da liberdade criativa. As críticas ao suposto exagero esbarram na concepção de que o Egito deve ser cru, amarelo, sépia, como nos acostumamos a ver em outros produtos do tipo. Os efeitos especiais, até então, mostraram-se eficientes.

As pragas com animais (rãs, piolhos, moscas e gafanhotos) tiveram um saldo positivo, assim como a primeira praga que tingiu o rio Nilo de sangue. A praga das feridas mostrou as deficiências de uma maquiagem tosca, enquanto a chuva de fogo e granizo — a que mais exigiu efeitos especiais até agora, com fogo e explosões — também explicitou as limitações da produção. A fala dos personagens dizia uma destruição completa. Na tela, pequenos focos de incêndio, manchas nas paredes, estátuas quebradas visivelmente mal produzidas (pareciam isopor pintado) e nada de sangue. Mesmo com Yunet (Adriana Garambone) sendo atingida por um meteoro, em uma cena que, apesar de bem pensada, foi mal realizada: ela se joga, enquanto o meteoro cai atrás da personagem.

A sequência dessa praga, que também contou com imagens aéreas digitalizadas, também não se mostrou à altura daquilo que a Record — ou a mídia em geral — alardeou. Como curiosidade, o evento/praga durou pelo menos dois capítulos, e Moisés com as mãos estendidas por esse tempo todo. Pode parecer bobagem, mas são pequenos detalhes que fazem toda a diferença na qualidade do produto.

A boa sequência da morte de Yunet (Adriana Garambone), mas sem sangue

Outra qualidade de Os Dez Mandamentos está em parte do elenco. O Moisés de Guilherme Winter não merece as críticas que tem recebido. A bíblia descreve o hebreu como o homem mais manso de toda a terra. Críticos confundem isso com inexpressividade ou frieza do ator. Ledo engano. Denise del Vecchio (Joquebede) e Vera Zimmermann (Henutmire) entregaram cenas emocionantes, dando verdade a um texto simples (e às vezes, simplório). A grande vilã de Adriana Garambone, Yunet, também entra nesse grupo. Giuseppe Oristânio (Paser, o sacerdote) empregou o passar dos anos na forma de andar, já manco, idoso; Petrônio Gontijo (Arão) evoluiu naturalmente: do incrédulo ao parceiro de Moisés rumo à libertação dos hebreus.

Camila Rodrigues (a rainha Nefertari) e Juliana Didone (Leila) são seguríssimas, enquanto Rafael Sardão (Uri, o hebreu que hesita em voltar para a família) é o personagem mais complexo da trama: dividido entre ficar com as regalias do Egito ou voltar à condição de escravo para ficar ao lado da esposa e do filho. Uri é mais complexo que o próprio faraó, um canastrão (para um personagem igualmente canastrão) Sérgio Marone.

Bianka Fernandes (Abigail), Gabriela Durlo (de vários trabalhos na Record, Eliseba) e Roberta Santiago (Karoma), ainda que personagens fora do núcleo principal, foram gratas surpresas, e melhoraram no decorrer da trama. O elenco numeroso não escaparia das atuações desprovidas de intensidade ou da falta de experiência. Do grupo de atores com boa bagagem, o Apuki de Heitor Martinez é um dos grandes erros de Os Dez Mandamentos. Esganiçado, a suposta vilania do feitor de escravos e pai/marido desprezível, converte-se em cenas que beiram a comédia. Já Larissa Maciel (Miriã) simplesmente não aconteceu. Uma coadjuvante de luxo, muito pouco para o talento da atriz.

Denise del Vecchio (Joquebede), Gabriela Durlo (Eliseba), Juliana Didone (Leila) e Bianka Fernandes (Abigail) e Roberta Santiago (Karoma)

Faltam 20 capítulos e, destes, duas pragas: as três noites de escuridão no Eito e a morte dos primogênitos. Serão nestes que será exibida a cena mais aguardada e alardeada do ano de 2015 na TV: a abertura do Mar Vermelho, ocasião da fuga dos hebreus. Já produzida — gravada há meses e com efeitos especiais finalizados no estúdio Stargate, nos Estados Unidos — a sequência está com a expectativa (principalmente de audiência) nas alturas.

Os Dez Mandamentos mostrou um produto a ser explorado. Tem público, que está cansado de tramas pesadas/realistas (na própria Record, a excelente Pecado Mortal, que foi sumariamente rejeitada) e parece gostar de tramas simples, que não façam pensar. É fast-food: assista e comente nas redes sociais, com a família. Mas não explore mais nada, pois não há o que encontrar nas entrelinhas.

O sucesso fez com que a Globo mudasse seus planos para o seu principal horário de novelas, escalando o ótimo e tradicional Benedito Ruy Barbosa e sua prole para escrever Velho Chico, trama rural e com clássicos da teledramaturgia: disputas amorosas, disputas familiares… Aliás, a simplicidade da história e a produção bem feita (a embalagem) de Os Dez Mandamentos remete ao igual sucesso (em suas devidas proporções) global Avenida Brasil: uma trama de vingança simples, boba, mas que ganhou o público pela embalagem: fotografia bem cuidada, ritmo acelerado, gerando o efeito “parece série”.

A Record vai manter o horário das 20:30 para a produção de novelas bíblicas, com exceção da próxima, Escrava Mãe, já quase totalmente gravada. A trama sobre a mãe de Escrava Isaura é uma co-produção, e vai tirar a cara de “natal o ano inteiro” da TV. No entanto, a próxima produção — já em 2016 — também vai explorar o segmento bíblico com Josué e a Terra Prometida — história sequente de Os Dez Mandamentos.

É uma pena. Em outros tempos cheguei a pensar que a Record poderia tornar-se algo como a HBO: produtos com mais qualidade e sem amarras (como foi Pecado Mortal e, depois, com as melhores séries já exibidas na TV aberta: Plano Alto e Conselho Tutelar, em 2014). Em 2015, dedicou-se integralmente à trama bíblica, não exibiu novas temporadas das séries acima (ainda que em produção, provavelmente com estreia só em 2016), e não voltará a exibir minisséries bíblicas tão cedo, como as bem produzidas José do Egito (em 2013) e as duas temporadas de Milagres de Jesus (2014/2015).

A Record comete uma praga a não voltar-se para outros produtos (sejam eles bíblicos, porém mais curtos; ou séries e novelas contemporâneas) e mostra que com os bons resultados atingidos com Os Dez Mandamentos, a emissora preocupa-se mais com a quantidade do que com a qualidade.

O slogan “uma TV aberta para o novo” torna-se uma piada.