Os Dez Mandamentos: o fim de uma novela histórica — para o bem e para o mal

Repito o título, com um acréscimo, de um texto publicado em 2014 sobre Pecado Mortal, também da Record. Porém, sem a mesma empolgação — e com os porquês do “mal”. E mais: Os Dez Mandamentos foi a novela do ano, por tudo o que causou e muda totalmente a literatura de TV no Brasil

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Não é uma tarefa fácil ser, atualmente, profissional de teledramaturgia na Record (esta frase “profética” foi escrita dias antes do acontecimento que você lerá no fim deste texto). É uma situação contraditória: ora empolgados com o sucesso, ora na expectativa de saber o que acontecerá pela frente – ou pelos próximos capítulos de uma novela completamente irregular (e não falo, nesse caso e em parte, de Os Dez Mandamentos).

Procurei fugir de todo e qualquer tipo de análise feita nas últimas semanas. No entanto, é impossível escapar das manchetes que saltam aos olhos nas redes sociais e portais de notícias.

Destes, o que mais saltou aos olhos — e não é preciso ser especialista em televisão para perceber — é a falta de planejamento da emissora.

Anunciou a novela substituta, Escrava Mãe — uma superprodução tão ou mais bem feita quanto Os Dez Mandamentos — e depois cancelou a exibição. No lugar, inventou um “novo segundo horário de novelas” para 2016 e, para ocupar o horário da trama que chegou ao fim, recorreu às minisséries bíblicas — para não perder público conquistado com a trama de Vivian de Oliveira.

Não foi o que se viu nos primeiros capítulos de Rei Davi, primeira minissérie escalada. A audiência caiu para menos de 20 pontos — ainda que seja os maiores índices da minissérie, já exibida em outras duas oportunidades. De quebra, não alavancou a novela, que é exibida na sequência.
A emissora escolheu um produto de 2012: ou seja, a diferença de qualidade é gritante em relação a Os Dez Mandamentos. Seria mais prudente escolher José do Egito, exibida em 2013, e um nível técnico muito mais próximo ao da novela. Aliás, cenas de José do Egito foram exibidas em flashbacks da trama atual. O resultado foi interessantíssimo.

Poucos dias depois, anunciou-se a segunda temporada (de uma novela) de Os Dez Mandamentos. Antes programada para alguns poucos capítulos — seria a “ponte” para Terra Prometida, história subsequente de Moisés e próxima novela bíblica inédita — passou para 60, ganhando a alcunha de “temporada”.

O Mar Vermelho foi aberto, a audiência explodiu, e Os Dez Mandamentos voltou ao que era a partir da metade: uma trama comum, com momentos de incrível barriga — devidamente desmentida pelo diretor e pela autora — e com momentos pontuais de emoção, como a morte de Eliseba (interpretada por uma excelente Gabriela Durlo).

Se o Mar Vermelho foi a catarse da trama — muito bem produzidos, considerando as limitações financeiras e, assim como o diretor Alexandre Avancini afirmou, a cena é dramaturgicamente superior às feitas no cinema e na TV em outras ocasiões — , os últimos capítulos foram marcados pelo anticlímax. Afinal, receber as tábuas dos dez mandamentos divinos não é algo tão impactante.

Fosse a Record uma emissora planejada, sem fazer as coisas “nas coxas”, terminaria a “primeira temporada” de Os Dez Mandamentos com a abertura do mar. Mas, aí, ocorreria um erro: o nome da trama sequer seria exibido. Sem problemas, afinal uma segunda temporada seria exibida depois. Percebe a situação? Inconstante, desplanejada (se é que essa palavra existe), a Record joga apenas com números e afunda a qualidade já alcançada — e, sem dúvidas, futuramente melhorada.

São esses problemas que a Record insiste em tê-los. Ao invés de consolidar-se na teledramaturgia nacional com a exibição de Escrava Mãe, opta por um retrocesso, uma falta de visão estratégica a longo prazo, operada por diretores que não sabem o que é o “negócio” televisão e, pior ainda, não sabem (ou não confiam) no potencial que a emissora possui.

É bem verdade que Os Dez Mandamentos beneficiou-se da mudança de comportamento do público, que partiu para uma história fantasiosa — quase lisérgica — em detrimento de tramas realistas (ou melhor: que simulam uma realidade). Na Globo, Babilônia sucumbiu à pressão e rendeu os piores índices de uma novela das nove da emissora. Depois, A Regra do Jogo, badalada por ser escrita pelo autor de Avenida Brasil, foi literalmente, afundada: como se sabe, Os Dez Mandamentos derrotou o produto de maior audiência até então.

Uma explicação — que pretendo desmembrar em um próximo texto — é que telespectadores (e críticos de TV) foram iludidos por Avenida Brasil. Acreditando que o telespectador queria tramas “realistas”, com visual, histórias e ritmo “próximos ao de seriados”, os exemplos de Babilônia e A Regra do Jogo são mostras de que tudo isso é uma grande balela.

O que o telespectador quer é ver um produto bem cuidado e história de fácil digestão, assimilação e que atinja os sentimentos mais primitivos — os ingredientes intrínsecos da telenovela. Os Dez Mandamentos está para Avenida Brasil, assim como A Regra do Jogo (que ainda patina, apesar da qualidade) está para Pecado Mortal, na Record, uma das melhores novelas da teledramaturgia nacional dos últimos anos e um fracasso de audiência.

Sobre a produção e a história, já falei muito nesse espaço. Uma história conhecida, de fácil assimilação, personagens bem definidos — exceto Uri (Rafael Sardão, um hebreu dividido entre voltar para seu povo ou viver como nobre no palácio) e Nefertari (uma segura Camila Rodrigues, consumida pelo ódio e amor por Moisés). O Moisés de Guilherme Winter fez jus ao personagem bíblico: o homem mais manso da terra, o que muitos confundiram com uma atuação fria e sem emoção. Um engano.

O elenco, dividido entre nomes já consolidados, com atuações seguras e emocionantes (Petrônio Gontijo, Denise del Vecchio, Adriana Garambone, Giuseppe Oristânio, Floriano Peixoto, Juliana Didone, Vera Zimmermann, Paulo Gorgulho), conviveu com parte de um elenco inexperiente, por vezes insosso, e nomes já conhecidos em atuações canhestras (Sergio Marone, Heitor Martinez).

O núcleo egípcio, onde as ações acontecerem, não tiveram um fim à altura. A chegada milagrosa da família midianita – a esposa de Moisés, Zípora (Gisele Itié) e suas irmãs, ao encontro dos hebreus em pleno deserto, foi uma saída fácil para inseri-las novamente na história. Esquecidas por boa parte da trama, poderiam ser usadas para “cobrir” as barrigas que atingiram a novela por volta do capítulo 100, mesmo com as pragas — que, apesar da barriga, tiverem bom resultado estético e movimentaram a trama:

Aliás, Os Dez Mandamentos termina com 176 capítulos — número padrão para uma telenovela. No entanto, o suposto fôlego criado artificialmente com personagens off-bíblia sagrada, mostra que foi um exagero esticar a trama.

No mais, é aguardar a segunda temporada (sempre insisti que Os Dez Mandamentos deveria ser uma série ou minissérie, bem como as próximas produções bíblicas da emissora nos próximos anos)— já considerada com “menos ação” pela autora Vívian de Oliveira, em um trabalho mais que bíblico: foi um trabalho hercúleo e com a proeza de não fazer proselitismo religioso — quem diz isso é um ateu, que acompanhou Os Dez Mandamentos do início ao fim, e gostou do que viu. Com nova roupagem, a segunda temporada vai manter a essência e iniciando imediatamente do fim da “primeira”, conforme afirmou o diretor Alexandre Avancini.

E aguardar, também, pelo filme — uma decisão acertada: tem que explorar o produto, pois tem potencial — , que será lançado em fevereiro de 2016. Além do filme, uma série de livros em formato de romance vão ajudar a Record angariar ganhos com a trama, já que…

… pouco antes de terminar esse texto, o UOL divulgou a demissão de 500 profissionais que atuaram na trama, entre cenógrafos, figurinos, entre outros:

O ramo é rotativo. Quem trabalha, sabe como as coisas funcionam. Mas é surpreendente, dado o sucesso da trama, que uma demissão em massa atinja a emissora/produtora. Por outro lado, a “terceirização” das novas produções não deve ser vista como algo inferior. É um expediente comum às grandes emissoras americanas, por exemplo. A Casablanca, produtora responsável por novas atrações da emissora, praticamente concluiu as gravações de Escrava Mãe — o que configura um erro: uma novela, obra aberta, é suscetível às aprovações e reprovações do público.

Por fim, mesmo com o sucesso da trama, decisões de programação mostram que a Record ainda come poeira e vive de espasmos.

E de pensar quem um dia escrevi há pouco mais de dois anos, neste espaço, que a Record poderia ser a “HBO brasileira”:

Quem sabe? Porém, com decisões burras — não há outra palavra para a atual situação — a emissora terá que reformular seu slogan: de “aberta para o novo” para “aberta ao retrocesso”.