Os Dez Mandamentos que a Record precisa para manter a ordem cósmica

Como diria o faraó Seti I


*A foto acima está na reportagem do The Guardian (veja mais abaixo). É a mais absoluta representação da mudança que a trama causou no horário nobre da TV.

Completando 50 capítulos exibidos, Os Dez Mandamentos se firma como maior sucesso da Record desde 2012, e aponta caminhos para um futuro que pode ser determinante para a emissora. Na décima semana de exibição, a trama bateu recorde de audiência seguidamente: na terça (26/5, com 14,5 pontos de média), e na quinta (28/5, marcou 15,4; chegou a ficar a apenas 2,4 pontos atrás da Globo, que exibia Babilônia no horário: 19,9 a 17,5).

Na mesma semana, a produção teve menção especial na premiação IndieFEST Film (que, para ser sincero, nunca ouvi falar), nos Estados Unidos. A série Milagres de Jesus ganhou o Prêmio de Excelência. Ainda que não seja um dos principais prêmios da indústria audiovisual, é preciso considerar que a produção tem qualidades pouco vistas antes na história da TV brasileira.

Na sexta (29/5), dia do 50º capítulo, o jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem sobre a trama. Discordo de muitos pontos do texto, mas esta é uma amostra de que as telenovelas brasileiras ainda despertam curiosidade. Afinal, a estrutura do produto é essencial.

Os Dez Mandamentos segue à risca a cartilha de uma boa novela, mesmo com situações clichês. Transportá-las para um cenário da antiguidade é o verdadeiro desafio. Ao contrário de Babilônia, que desde antes da estreia já dava mostras que não teria história para contar, Os Dez Mandamentos é um remake de uma história que milhões de pessoas em todo o mundo sabem o fim. A autora Vivian de Oliveira, bem como a direção de Alexandre Avancini e todo o estelar elenco estão realizando um trabalho hercúleo, digno de ser uma das melhores telenovela já exibidas no país. A novela possui ganchos matadores, ritmo que, se não é alucinante, é ideal para contar bem uma boa história que teria tudo para ser arrastada.

E mais: a trama elevou a audiência da Record em até 83% no Brasil, e 65% em São Paulo…

… e já foi vendida para um mercado gigantesco: os Estados Unidos, para o canal Mundo Fox, destinado ao público latino residente naquele país.

Falta pouco, muito pouco para a Record sanar problemas em sua grade e tornar-se, por que não, líder. Esse problema esbarra, muitas vezes, na visão míope de seus diretores (muitos sequer são profissionais de TV), além de uma grade de programação que, apesar de este jornalista considerar a ideal (hard news pela manhã, variedades à tarde, hard news no início da noite, e primetime com novela, telejornal e linha de shows), tem programas que são absolutamente descartáveis — no mesmo dia que Os Dez Mandamentos batia recorde, Gugu (a Record conseguiu a proeza de ter quatro domingos na semana) voltou com a famigerada “banheira do Gugu”. Pior que isso, o GC do programa que começava com um “saudade”. O jeito Record de dramatizar qualquer coisa.

Sem mais, estão abaixo as tábuas com os dez mandamentos que a Record precisa seguir para se firmar no cenário audiovisual brasileiro e manter a alta qualidade de Os Dez Mandamentos.


1
Usarás a internet

A Record tem que apostar na internet para sobreviver em um mercado cada vez mais ultrapassado: a TV aberta. É a única emissora que disponibilizou suas produções para a Netflix: A História de Ester, Sansão e Dalila, Rei Davi, José do Egito e as duas temporadas de Milagres de Jesus estão lá. Veja que não é necessário — pelo menos por enquanto — a criação de um canal/aplicativo para replicar seus produtos, como a Globo com o globo.tv+ ou a HBO com o HBO Now.

Não é preciso dizer que a Record está comendo bola ao não disponibilizar Os Dez Mandamentos na Netflix. É provável que a emissora tema a fuga de audiência (leia mais em outro mandamento), o que é um engano: uma complementa a outra.


2
Não falharás nos detalhes

É bem verdade que Os Dez Mandamentos tem suas carências e falhas: o Egito retratado é “limpo” demais, falta ruído. As paredes são lisas demais para um templo antigo, por exemplo. O mesmo não se aplica para a cenografia dos hebreus: suja, áspera.

Conta a favor a opção por mostrar um Egito colorido — classificado por alguns críticos de TV como um “carnaval fora de época”, uma imensa bobagem. A TV e o cinema hollywoodiano nos induziu a ver um Egito amarelado — tal qual uma fotografia sépia — , enquanto é sabido que esse povo usava e abusava de cores. Os figurinos e acessórios são deslumbrantes. A direção peca em cenas de morte: as maquiagens estão impecáveis. Alegar licença poética é subestimar o público.

Nas festividades ou na Casa de Senet — o prostíbulo egípcio — , sempre há música, mas a banda raramente aparece. Salvo engano, foi possível ver por alguns segundos os músicos no capítulo 37. Pode parecer besteira, ou ser apenas uma licença poética que toda novela possui, mas o telespectador está cada vez mais exigente e esse tipo de deslize é prato cheio para críticas.

O elenco afiado e afinado também tem alguns deslizes: o Apuk de Heitor Martinez é totalmente fora do tom. Caricato, tenta ganhar “no grito” qualquer coisa. Do outro lado da ponta, o protagonista Moisés de Guilherme Winter é o maior acerto da trama. Moisés é também definido na bíblia como “o homem mais manso da terra”, definição perfeita para a atuação de Winter, que tem o melhor papel de sua carreira.

A trama também padece de um problema que atinge a maior parte da produção nacional: a atuação infantil. Os três filhos de Arão (Petrônio Gontijo) sempre — sempre — tem que falar um na sequência do outro, como um jogral. Parece que está em contrato que os três tem que ter a mesma carga de textos. O texto, que às vezes escorrega no didatismo, fica pior quando colocados em crianças.

Por falar em crianças, é uma pena que a Miriã de Larissa Maciel tenha um tom tão infantil. Enquanto a (insuportável) intérprete mirim da personagem falava como adulto, a versão mais velha parece infantilizada, um descompasso com a força e a impetuosidade da personagem, que já levou chicotadas e enfrentou vários obstáculos.


3
Não levarás a audiência como único parâmetro de qualidade

O início de Os Dez Mandamentos fez com que brotasse uma esperança nos mais fervorosos: a liderança em, pelo menos, parte de sua exibição. Na principal concorrente são exibidos o Jornal Nacional e o início de Babilônia. Esses dois produtos da Globo tiveram, em alguns dias, audiência menor que a novela das sete Alto Astral, antecessora de I Love Paraisópolis (que manteve os índices). Algo impensável na emissora até pouco tempo. Enquanto isso, Babilônia sofria — e sofre — com a pouca audiência, ainda que tenha se recuperado. Em alguns dias, a diferença do Jornal Nacional para Os Dez Mandamentos chegou a apenas 5 pontos.

Porém, a trama da Record permaneceu estável nos 12 pontos e viu as tramas infantis do SBT encostarem na audiência em alguns momentos.

Nada disso pode ser levado em conta quando o que se vê na tela é uma produção caprichada, um elenco afiado e, o mais importante: tem história para contar, ao contrário de muitas novelas em exibição. Foi assim com Pecado Mortal, com Conselho Tutelar e Plano Alto.


4
Continuarás a falar de temas relevantes…

…sem perder o entretenimento. Essa guinada a produtos mais relevantes no cenário audiovisual se deu em 2014 com as séries Conselho Tutelar e Plano Alto. Com temas de absoluta importância na sociedade, as séries capturaram o espírito do tempo ao abordar temas espinhosos: a primeira, sobre direitos de crianças e adolescentes em situações de risco. A segunda, os bastidores da política nacional e suas entranhas: as disputas pelo poder, a influência dos políticos e a atuação da mídia, tudo com uma visão crítica. Ou alguém acredita que a Globo teria cacife para colocar dois produtos desse tipo em sua grade?

É possível aliar entretenimento e relevância social sem que um canibalize o outro. Dois exemplos fáceis: as séries norte-americanas Breaking Bad e House of Cards são produtos que mostram as vísceras de um Estados Unidos também problemático, sem que isso atrapalhasse o entretenimento e o interesse pelas histórias. Com Plano Alto e Conselho Tutelar, a Record soube juntar esses dois interesses importantíssimos para a TV atual.

A emissora se sobressai ao contar histórias, motor mais importante para qualquer produto de teledramaturgia. A tecnologia usada nos últimos produtos é avançada, não deixa de ser um atrativo. Mas, sem história, não há público que aguente ser subestimado.

Conselho Tutelar está com sua segunda temporada garantida. A Record ainda não confirmou, mas Plano Alto também pode ser uma sequência.


5
Continuarás com épicos…

…mas com cuidado. Ainda que Os Dez Mandamentos seja uma novela, ainda que este não seja o primeiro produto bíblico da emissora, a Record mostra seu poder de fogo ao apostar no gênero. No entanto, todo cuidado é pouco: há o desejo de mais uma novela bíblica para 2016: a história de Josué. Apesar de ser um produto com público certo, a emissora corre o risco de ficar marcada — mais do que já é pela ligação com uma instituição religiosa e, com isso, perder a relevância ao não apostar em outros temas.

Os Dez Mandamentos é tão comparável, guardadas as devidas proporções, à Game of Thrones. Pode parecer exagero, mas qual produto nacional de massa e seriado (uma novela não deixa de ser uma sequência) teve essas proporções de produção? É mais impressionante ainda por se tratar de uma novela, onde o ritmo de gravação é extenuante quando comparado às séries.

Outra característica de Os Dez Mandamentos é o cuidado que o texto tem com a religião. Não há proselitismo religioso: a religião é personagem da história, tanto do deus dos hebreus quanto os deuses egípcios. A Record aprendeu a lição e diminuiu o tom. O resultado? Mais público, mais diverso — até este que escreve, um ateu.

A Muralha (2000) e Mad Maria (2005), minisséries da Globo, são as que mais chegam perto de um épico, por sua grandiosidade e qualidade de produção. No entanto, chega a ser estranho para uma emissora com o poder financeiro da Globo não ter apostado mais nesse tipo de produto.

Enquanto isso, a Globo prefere apostar em séries pasteurizadas e clichês: Amores Roubados, ainda que um primor, não tem situações muito diferentes do que já visto em novelas com a mesma temática ou ambientação (que também interfere na história e no modo de vida das personagens), por exemplo. Felizes Para Sempre?, a despeito de seu apuro estético, recorreu a expedientes batidíssimos da política nacional — compare com a trama de Plano Alto, e a diferença é gritante.


6
Não alongarás a trama

Por ser a novela de maior sucesso da emissora nos últimos anos, com média de 12 pontos, o desejo de cometer o pecado do alongamento é grande. Com boas críticas, a Record pode optar por estender a trama para além dos 150 capítulos previstos, o que pode se tornar um tiro no pé: barrigas podem ser facilmente criadas, e toda aquela qualidade vista no início pode ser esquecida por esse pecado tão comum em um produto de obra aberta.


7
Apostarás em parcerias

O futuro da TV aberta depende em grande parte de parcerias com produtoras, especialmente no mercado de séries. Enquanto as TVs possuem expertise em telenovelas (e a Record com temas bíblicos em suas minisséries), ainda falta o apuro estético das séries, que possuem íntima ligação com o cinema que, por sua vez, conta com várias produtoras Brasil afora.

Fora de Controle, série da Record exibida em 2012, é fruto de uma parceria com a Gullane Filmes. A Academia de Filmes foi a parceira da emissora em Milagres de Jesus, e Conselho Tutelar contou com a produção da Visom Digital. Na Globo, o expediente passa a ser cada vez mais comum. Felizes Para Sempre? e Os Experientes (provavelmente o melhor produto que a Globo já exibiu em seus 50 anos) foram produzidos pela O2 Filmes, do diretor Fernando Meirelles.

Não causa espanto a opinião de Meirelles ao se voltar para as séries. Diretor de Cidade de Deus, Ensaio Sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel, declarou que a TV tem oferecido muito mais oportunidades artísticas do que os filmes. As emissoras de TV precisam captar esse espírito e apostar cada vez mais em parcerias. É bom para todos: diretores que desejam se aventurar em um terreno fértil, atores que podem se “desamestrar” da atuação em novelas, emissoras que terão produtos aprimorados, e telespectadores muito mais felizes.


8
Manterás fidelidade

A TV aberta perde público a cada ano, e não somente no Brasil. TV paga e internet (leia-se: Netflix, HBO Now, entre outros) está acabando com o outrora dominante mercado. No entanto, a TV aberta ainda possui relevância nacional: o único horário em que todos os canais de TV paga (sem os canais abertos) ultrapassam a audiência da líder Globo é o da madrugada.

Como a TV é baseada no modelo de grade de programação, a fidelidade ao horário é fundamental. Os Dez Mandamentos cumpre com louvor ao iniciar, impreterivelmente, às 20h30. Situação oposta à que vivia Pecado Mortal: ainda no antigo horário de novelas da Record (às 22h30), a trama chegava a começar mais de 23h para evitar o confronto com a Globo (esta, bem provável, com medo de perder audiência pra uma excelente novela). Pecado Mortal chegou a ser exibida às 21h30, mas já era tarde e não conseguiu elevar seus índices.

Acho interessante a opção da emissora em não exibir capítulos aos sábados, e espero que continue assim. É um dia perdido, onde geralmente os autores economizam munição dramática pelo público menor que nos dias da semana. Por outro lado, um resumo da semana seria uma boa opção: o custo é muito menor do que a produção de apenas um capítulo e, de quebra, mostraria a versão seriada da trama (apesar da qualidade da novela, acredito que uma série ou minissérie seria um caminho melhor).

Seria, pois já é tarde. Muito já foi exibido, e a Record tem se mostrado muito fiel à sua grade, que era “voadora” até pouco tempo. Na TV aberta, a fidelidade à programação ainda é determinante. A audiência estável em 12 pontos é um reflexo dessa fidelidade. Porém, a grade de programação se tornará obsoleta em pouco tempo com o avanço da internet.


9
Manterás o diretor

Alexandre Avancini é, sem dúvidas, um dos grandes diretores da TV brasileira. Na Globo, dirigiu Uga Uga, Kubanacan, Presença de Anita, O Quinto dos Infernos, entre outras obras. Mas foi na Record que o diretor mostrou seu talento com produtos distintos: da duvidosa trilogia Os Mutantes, passando por Vidas Opostas e Prova de Amor, e culminando naqueles que estão entre os melhores produtos da teledramaturgia nacional: a minissérie José do Egito, a novela Pecado Mortal (retomando a parceria de sucesso com o autor Carlos Lombardi, autor de Uga Uga, Kubanacan e O Quinto dos Infernos) e, agora, Os Dez Mandamentos.


10
Nove mandamentos já são suficientes. Mais alguma sugestão?

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