Os estranhos frutos do racismo no Brasil

Programa Centro Presente: quando o homem e a mulher negra são tratados como bandidos em potencial

O quintal da minha casa é a Central do Brasil, no Rio de Janeiro, esse lugar construído à base de muito estereótipo (o do pivete, o do malandro, o dos vagabundos), cheio de misticismo urbano, do qual alguns nutrem um horror naturalizado. De casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, da faculdade para casa, três vezes por dia acompanhando a rotina do casal que vive na rua, da tia que vende o salgado + refresco a R$ 1,99, do ovo que torra na chapa posta no vão elevado do terminal. Entre esses atores cotidianos, há desde do início de 2016, uma nova figura: os agentes do Centro Presente.

O Centro Presente é um dos galhos de uma operação de segurança pública organizada pelo Estado do Rio de Janeiro, a Fecomércio-RJ e a Prefeitura do Rio, como nos informa o site da cidade. Composto por agentes civis saídos das Forças Armadas, policiais militares da ativa e reserva, sendo esses últimos aposentados ou policiais afastados do serviço (seja por motivo de doença, problemas familiares, etc). Estão ali, no porte de armas de fogo, colete, e os usuais bonés vermelhos desde a hora em que ambulantes começam a vender os seus cafés, e partem às 22 h. Os números são impressionantes: 66 bicicletas, 27 motos, 15 carros, 522 agentes; e claro, 2.076 prisões, 162 mandados de prisão cumpridos, 553 ações de recolhimento de moradores de rua, 61 pessoas levadas à delegacia por porte de arma branca, sete por porte de arma de fogo, 74 por roubo e 135 por furto.

Que me perdoem a ironia! Eu realmente sou alguém grata por morar em um lugar seguro, no grupo da faculdade há muito ninguém reclama de assaltos no que era chamado de “rua do perdeu” próximo à Central, mas se tudo isso é tão evoluído como é possível que eu sempre veja esses agentes abordando apenas pessoas negras? Será que os meus olhos só se deram com essas coincidências da vida que nos fazem erroneamente pensar que há uma ordem, um sistema, uma razão por trás daquilo? Garota você está louca, a polícia não é racista, ela apenas faz o seu trabalho. Será que realmente dá para pensar que estou fazendo uma crítica inoportuna em um país onde:

Operação Centro Presente — Clarice Castro / Divulgação
A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado (sim, eu fiz as contas, 63 por dia!). Para conferir os dados, vela a pena ler a íntegra da CPI do Assassinato de Jovens.

ou,

Das 644 pessoas mortas pela polícia no Estado do Rio de Janeiro em 2015, 497 (77,2%) eram pardas ou pretas, segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Veja bem, esses dias assisti Cara Gente Branca (Dear White People), uma série da Netflix que não tem sido tão comentada quanto deveria, e uma das cenas mais marcantes é quando Reggie está em uma festa e é parte de uma briga. A polícia é chamada e o que eles encontram? Um branco e um negro se empurrando. Mas peraí, o que a polícia vê? Um negro arrumando confusão. A primeira coisa que pensam: “Esse negro está armado!” e “Esse negro não é estudante, tudo o que ele pode ser é um penetra, um agitador, um bandido.” Tem algumas cenas do cinema, do teatro, da televisão em que a gente não se atreve a respirar, para mim essa foi uma delas. Enquanto o policial sacava a arma e apontava para Reggie e eu pensava “ele vai atirar, por favor, não atire, não atire, não atire.” Essa foi a cena mais humilhante, mais irracional que eu pude assistir. A má notícia? Não é só teatro.

Ao assistir aquele episódio, tudo o que eu pude fazer foi chorar, porque você não pode se mover quando a polícia aponta uma arma para você, e eu me vi ali, vi o meu irmão, os meus amigos, e o próprio personagem que não tenho dúvidas pode já ter passado por isso na vida real (enquanto Marque Richardson, homem negro).

Porque não. Simplesmente.

Negros não podem estar em uma faculdade de elite (como é o caso do personagem de Cara Gente Branca), não podem conversar por mais de 10 minutos com outro colega negro sem parecer que são uma quadrilha, ou se o colega for branco, sem parecer que promove um assalto! E claro, não podem deslizar um único segundo de uma conduta exemplar (ai deles se, em um impulso, estapear ou empurrar alguém!) sob pena de levarem um tiro! Negros não podem ter opinião forte caso não queiram ouvir: aquela neguinha metida!

Chimamanda Ngozi Adichie, autora nigeriana, escreveu um romance entitulado Americanah; em determinada parte do livro a personagem, Ifemelu, diz só ter se descoberto negra quando foi para os EUA. A partir dessa nova percepção cria um blog, o “Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana” onde, em certa ocasião, posta o seguinte:

Para outros negros não-americanos: nos Estados Unidos você é negro, baby.

Adichie continua:

"[...] Ao descrever as mulheres negras que você admira, sempre use a palavra forte, porque, nos Estados Unidos, é isso que as mulheres negras devem ser. Se você for mulher, por favor, não fale o que pensa como está acostumada a fazer em seu país. Porque, nos Estados Unidos, mulheres negras de personalidade forte dão medo. E, se você for homem, seja supertranquilo, nunca se irrite demais, ou alguém vai achar que está prestes a sacar uma arma.”

Billie Holiday toca na aba aberta do Youtube. Strang Fruit é como um soco no estômago, mesmo após perder a conta das vezes em que escutei. Soa assim:

Árvores do sul produzem uma fruta estranha
Sangue nas folhas e sangue nas raízes
Corpos negros balançando na brisa do sul
Fruta estranha penduradas nos álamos

Pastoril cena do valente sul
Os olhos inchados e a boca torcida
Perfume de magnólias, doce e fresca
Depois o repentino cheiro de carne queimada

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem
Para a chuva recolher, para o vento sugar
Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair
Aqui está a estranha e amarga colheita

Essa música é tão pesada quanto a humilhação, o medo e a revolta que a população negra tem que digerir no Brasil. Não, caros agentes do Centro Presente (e polícia brasileira no geral, a que mais mata no mundo, segundo o Relatório da Anistia Internacional de 2015), nós não queremos que vocês parem de fazer a nossa segurança! Nós não queremos tirar de vocês o trabalho ou o sustento. O que nós queremos é que vocês parem de olhar para um homem ou mulher negros e enxerguem bandidos ou criminosos em potencial. Queremos que parem de nos revistar por nossa cor de pele. Eu, pessoalmente, quero ter a segurança de que ao chegar da faculdade às 23h da noite, o meu irmão, que estuda longe de casa, não seja abordado, encarado, revistado ou alvejado porque na concepção de vocês preto é bandido.

Há essa grade numa esquina da Presidente Vargas próxima ao metrô, há esse garoto que anda com a camiseta da escola municipal do Rio de Janeiro, vem pela beirada da avenida, atravessou as três pistas. Mochila nas costas, se despediu do amigo, quer voltar para casa, jogar o seu video game. Param-no próximo a grade: “Ei, tira essa mochila ai! Tá vindo da onde?” Existem grades que protegem, na calçada, o homem da ordem, e na rua, sujeito aos carros em alta velocidade, o garoto estende a bolsa azul, mantém a cabeça levantada. Tudo dura uns 10 minutos, mas parece mais.

Quando se tem medo o tempo não existe.

Daquela vez ele pode ir.
Daquela vez.