Os Imorríveis: Elza, Di Melo e Donato (parte 2)

Di Melo, o Imorrível (imagem: Felipe Larozza)
A segunda parte de Os Imorríveis conta a história de uma lenda viva: Di Melo

A seguir, a segunda parte da história de três heróis trágicos da cultura brasileira — contada, inevitavelmente, em três partes.

I. O Imorrível (17 de janeiro de 2016)

A tragédia grega não dá conta da história da vida de Roberto de Melo Santos. Conhecido mundialmente como Di Melo, o pernambucano morreu em um acidente de moto e ressuscitou quarenta anos depois — como se nada houvesse acontecido.

Em ordem, os fatos.

Di Melo, em 1975, lançou um álbum homônimo que entrou para a história da música brasileira. Na época contratado pela EMI-Odeon, o músico nordestino-brasileiro (como o próprio autoproclama) contou com nomes como Heraldo Dumonte, Cláudio Beltrame e Hermeto Paschoal e produziu uma das obras mais atemporais da música nacional. O disco caminha pelo soul, samba-rock, jazz e tango. Uma salada dimeloniana.

Mas o músico parou por aí. Da mesma forma que surgiu, desapareceu.

Di Melo em algumas entrevistas marca dois pontos como principais para a abrupta parada em uma carreira promissora. Divergências com os produtores em relação ao rumo dos próximos trabalhos — acompanhado de uma espécie de boicote sobre os direitos autorais — e a falta de experiência.

Um ex-boêmio assumido, Di Melo confessa que as tentações da noite o atrapalharam.

O Di Melo (álbum), porém, não deixou de vender. Uma relíquia para colecionadores de vinil (descoberto na década de 1990 por DJs europeus), junto com o disco, vendia-se a ideia de que Roberto de Melo Santos havia morrido em um acidente de moto ainda muito novo. Isso o impediu de gravar novos trabalhos, diziam as bocas maiores do que a razão.

A história do fim do homem de pele, de cheiro e de pigmentação é desmentida e aparece com detalhes em um documentário que teve papel fundamental no retorno da lenda. Com direção de Alan Oliveira e Rubens Pássaro, Di Melo — O Imorrível é um filme de 2012 que mostra um recifense boa praça, pai de família que não perdeu o gosto pela arte de forma alguma — apenas afastou-se de suas enraizadas armadilhas.

O anthropos (simples mortal) transformado no áner (o ator da tragédia) é a essência do herói trágico. Di Melo é um personagem que durante esse processo de transformação evoluiu afastado do grande público. Durante todo esse tempo, o pernambucano não parou de criar (no seu site oficial conta que tem mais de 400 músicas inéditas).

Doze dessas músicas marcam o retorno e a elevação do nosso herói trágico: Di Melo, O Imorrível é oficialmente lançado em janeiro de 2016.

“Sintetizou o quase impossível, esmerilhou um som inconfundível”. É o que narra em terceira pessoa o próprio Di Melo na introdução do disco que marca um retorno digno de sua história. A intro conduz o ouvinte para a pancada Barulho de Fafá, canção levada por uma guitarra funkeada e uma cozinha característica do Imorrível (atenção aos metais e ao baixo que marcam o disco todo).

Assim como o Di Melo (1975), esse trabalho do pernambucano é pancada de ponta a ponta. Ribanceira, Navalha e a autobiográfica Distando Estava matam um pouco da saudade dos fãs que esperaram quarenta anos por mais Di Melo. A participação de Larissa Luz em Milagre também merece atenção especial.

Em seu site oficial, Di Melo fala um pouco sobre suas inéditas. São, segundo o compositor, “de todos os estilos para todos os gostos”.

“Vou além. Meu som não deixa nada a desejar para o que houve, há, e, haverá no mercado musical”, diz o Imorrível. E está certo.

Di Melo acertou desde 1975. Em Aceito Tudo, do álbum homônimo, diz que no dia em que penetrar do outro lado da vida, não voltará mais. Um desafio e tanto para o algoz Destino e a incansável Morte.

Di Melo canta que o mundo e a vida o desafiaram. Nesta batalha, porém, o vencedor até o momento é um só: o Imorrível.

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