Os Imorríveis: Elza, Di Melo e Donato (parte 3)

Um João Donato elétrico, aos 81 anos
A terceira e última parte d’Os Imorríveis conta a história do elétrico João Donato.
I. Donato Elétrico (11 de março de 2016)

O que define o herói trágico é a passagem de simples mortal — que perde sua própria medida (métron) — para ir de encontro a um estado de êxtase e entusiasmo, um hypocrités.

João Donato, aos 81 anos de idade, é um homem que vive desse êxtase. É um herói da música brasileira — mesmo que possa não aprovar essa afirmação (olhando para sua carreira percebe-se que Donato não é o tipo que gosta de definições ou rótulos).

Reconhecido como um dos grandes nomes da história da bossa nova, João Donato de Oliveira Neto é um músico diferente graças a sua capacidade de síntese de gêneros diversos. Entre eles, jazz, música latina e ritmos africanos caminharam ao lado da bossa nova do pianista durante toda a carreira.

Nascido no Rio Branco, no Acre, Donato geralmente é lembrado por períodos específicos. No início da carreira, na década de 1950, morou nos Estados Unidos onde conseguiu ter contato com um verdadeiro parque de diversões (pianos elétricos, órgãos e sintetizadores) que marcaria suas principais produções posteriores.

Foram os clássicos A bad Donato (1970) em seu jazz fusion e Donato/Deodato (1973) que lembraram com maior força o período que era considerado (até esse ano) o de maior influência do jazz norte-americano na produção do também arranjador e compositor.

Depois desse período Donato fez parcerias com uma lista enorme de nomes da MPB — de Gal Costa a Gilberto Gil. Deixou um pouco de lado os sintetizadores e aproximou-se do microfone, dos pianos e da bossa nova.

Em 2013, porém, uma ideia surgia lentamente através de uma conversa com o produtor Ronaldo Evangelista. A partir dessa reunião informal, os dois discutiram um disco com inéditas de Donato que poderia retomar uma “intenção elétrica” com instrumentos analógicos, como disse o próprio Evangelista.

Nasceu, de fato, em março deste ano o Donato Elétrico (2016).

Gravado ao vivo em estúdio com uma cozinha de respeito (participaram integrantes de grupos como Céu, Tulipa Ruiz, Metá Metá, Curumim e Ótis Trio), o álbum de Donato traz influências inumeráveis. Funk, jazz, afro e um tantinho de bossa nova.

O próprio Rodrigo Evangelista escreveu um texto onde fala sobre a criação do Donato Elétrico:

Os sons foram pintando em alguns encontros, de música e de papos e passeios. João aos 80 anos, com mais pique que a maioria dos garotos, animadíssimo com as ideias, encontros, sessões, criações, músicas, todo elétrico.

São dez faixas no total. Todas instrumentais e todas donatianas. A primeira Here’s JD conduz com elegância o disco à musicalidade natural de Donato. Os metais de Urbano arrepia qualquer fã de A bad Donato e, assim como todas as faixas posteriores, deve ser ouvida em um volume razoável no fone de ouvido.

O Fender Rhodes, o órgão Farfisa e os sintetizadores de João Donato dão a ele o poder que ele nunca perdeu.

Uma “máquina de ritmo”, como diz Evangelista, o animado João Donato nos entrega algumas das melhores composições de sua carreira. Exemplos surgem de Frequência de Onda, Combustão Espontânea e a potência de G8 — que encerra o álbum.

João Donato é indiscutivelmente um dos maiores nomes da história da música brasileira (não só da bossa nova). Mas o que ele fez com Donato Elétrico foi ressurgir depois de um gap de 15 anos com uma obra que só o próprio Donato seria capaz de produzir.

O que sente o ouvinte, fã das produções de Donato na década de 1970, equivale a katharsis original, uma espécie de purificação.