Os lugares vagos

Resenha da terceira temporada de Fargo

Este texto faz parte do Dossiê Fargo. Leia também as resenhas da primeira e da segunda temporada.

A terceira temporada de Fargo é também a última a ter sido filmada. Rumores dão conta de uma quarta, com estreia em 2019. Por ora, temos aqui um bom fechamento.

Dessa vez, há uma retomada da configuração que funcionou tão bem na primeira temporada: uma policial que, como Molly, enfrenta incontáveis dificuldades para fazer uma boa investigação e um vilão que pode ser páreo para Lorne Malvo. Estamos falando de Gloria Burgle (Carrie Coon) e V. M. Varga (David Thewlis).

O título do primeiro episódio, “The Law of Vacant Places” (A Lei dos Lugares Vagos), faz referência a um princípio do bridge, jogo de cartas, baseado na teoria da probabilidade condicional, que é a mensuração da probabilidade de ocorrência de um evento (por pressuposição, presunção, afirmação ou evidência) em relação a outro evento. A aplicação da probabilidade condicional pode ser escorregadia. É preciso cuidado para não chegar a conclusões falaciosas. A ambiguidade do título nos indica que estamos de volta ao universo de Fargo, onde um evento menor acaba desencadeando uma série de eventos trágicos, mas nem sempre as relações entre ambos são diretas. Obedecem uma lógica própria.

Gostaria de acrescentar mais uma hipótese de leitura para o título, retomando Hannah Arendt e seu tratado sobre a banalidade do mal. Para Arendt, os lugares vagos poderiam ser preenchidos pelo mal — mas não nos termos do ditado “cabeça vazia, oficina do diabo”, como se a maldade brotasse de dentro quando estamos desocupados (ideia, aliás, que já é fruto do imperativo produtivista). Arendt argumenta que, nos regimes totalitários, o mal naturaliza ideias e condutas de tal forma que nos submerge. As hipóteses de Arendt estavam relacionadas ao nazismo e ao comunismo, mas, por analogia, seu pensamento tem sido aplicado também ao neoliberalismo.

Vale ressaltar que o neoliberalismo é um conceito que tem sofrido algumas alterações importantes ao longo do tempo, deixando de ser considerado como uma forma moderada de liberalismo para ser entendido como um conjunto de ideias mais radicalmente favoráveis ao capitalismo laissez-faire, expressão que sintetiza a ideia de que o mercado deve funcionar livremente, sem interferência, apenas com regulamentação mínima para proteger os direitos de propriedade. Com o enfraquecimento do Estado, um outro órgão regulador tomou seu lugar: o mercado. De 1970 para cá, esse processo se intensificou de tal modo que podemos considerar que um novo momento foi inaugurado, uma racionalidade pós-capitalista.

“Desta forma não existem zonas protegidas ‘fora do mercado’ (…). Tudo é mercado. Educação é investimento. Saúde é segurança. Relações interpessoais são networking. Imagem é marketing pessoal. Cultura é entretenimento. Pessoa é o empreendedor de si mesmo”, escreve o psicanalista Christian Dunker.

Quando Hawley escolhe localizar a segunda temporada de Fargo em 1979, está dialogando com o período histórico originário dessa racionalidade. Já a terceira temporada de Fargo se passa em 2010, quando esse modo de vida contagiou todos os setores, públicos e privados.

Na esfera pública, Gloria é chefe de polícia em Eden Valley (Vale do Éden, outra referência bíblica), uma pequena e pacífica cidade de Minnesota. A delegacia acaba de ser incorporada pelo condado e, com isso, Gloria perderá o posto de chefe. O novo chefe se indigna ao conhecer o local: a delegacia divide o espaço com a biblioteca e sequer tem uma cela para manter os presos. Nas raras ocasiões em que é preciso deter alguém, dirigem dez milhas até Paynesville ou utilizam o depósito, onde ficam papéis e caixas de computadores. Os computadores, aliás, permanecem em suas caixas. Quando descobre que Gloria não se entende com tecnologia, o novo chefe lhe confronta: “Você sabe em que época estamos, não sabe? O futuro. (…) Não estamos nos anos 50, onde ninguém tranca a porta de casa”. Gloria responde: “As pessoas não trancam as portas. Não aqui”. Com o assassinato de seu padrasto, isso está prestes a mudar. Mas o anacronismo de Gloria tem um sentido de resistência.

Na esfera privada, há o conflito entre os irmãos Emmit e Ray Stussy, ambos interpretados por Ewan McGregor (uma nova referência a Caim e Abel, posta desde a primeira temporada). McGregor está tão convincente que quase esquecemos que é o mesmo ator por trás dos dois personagens. Emmit é o irmão mais velho e bem sucedido, dono de uma grande empresa de estacionamentos, que leva o sobrenome da família. Na festa em que comemora as bodas de prata de seu casamento, a impressão que temos é que os convidados de Emmit não são parentes e amigos, pessoas com quem o casal tem laços afetivos, mas, em sua maioria, empresários e pessoas estratégicas com os quais ele tem interesse em se relacionar. A distinção entre vida íntima e vida profissional praticamente desaparece.

Ray, embora pareça ser o mais velho, é o caçula e também a ovelha negra da família. Trabalha como oficial de condicional e namora uma ex-detenta, Nikki Swango (Mary Elizabeth Winstead), personagem que cresce a cada episódio, essencial para essa temporada. Vez ou outra, Ray recorre ao irmão mais velho para pedir pequenos favores financeiros, que Emmit atende de maneira paternalista, pavoneando a generosidade. Dessa vez, quando Emmit se nega a ajudá-lo, descobrimos que Ray se sente injustiçado por um episódio a que atribui a origem da desigualdade entre os irmãos: após a morte do pai, Emmit teria lhe passado a perna na divisão de herança, induzindo Ray a trocar selos valiosos por um corvette, que hoje está caindo aos pedaços. A busca por um acerto de contas acaba sendo uma das vias para que a violência destampe nessa temporada, algo que podemos pensar como um deslocamento do percurso de Jerry no filme, de Lester na primeira temporada e de Ed na segunda.

O Mefistófeles da vez é V. M. Varga, um homem misterioso que se comunica de forma obscura. Embora tenha muitas características em comum com Lorne Malvo, da primeira temporada, passa longe de sua elegância. Varga está sempre amarrotado e com um ar levemente abobalhado. Tem os dentes podres e a gengiva inflamada por conta de seus episódios bulímicos. Ainda assim, com aparência frágil e confusa, consegue ser tão assustador e cativante quanto Malvo. É, sem dúvidas, um dos maiores trunfos da temporada, os melhores diálogos são conduzidos por ele.

O pacto aqui tem uma dimensão bastante neoliberal: se dá através de um empréstimo que abre portas para que uma empresa mafiosa imponha a Emmit e a seu sócio, Sy Feltz (o ótimo Michael Stuhlbarg de Um homem sério), um esquema de lavagem de dinheiro. Em certo momento, Varga pergunta a Emmit: “Você é fã do progresso, Sr. Stussy? Da tecnologia? Antigamente, só os fortes eram ricos. Era tudo uma questão do quanto você podia carregar. Mas então os Médici inventaram o banco (…). É isso que está por trás da inovação”.

A venda da alma de Emmit é assim asséptica, corporativa, dialogando com o final da segunda temporada, quando o chefe de Mike Milligan lhe diz que o único negócio que restava era o negócio do dinheiro. Os Estados Unidos se tornaram um grande lugar vago, como no título do primeiro capítulo, onde o mal pode se instalar sem dificuldade.

Em Doutor Fausto, romance de Thomas Mann, quando o personagem de Adrian Leverkühn adoece, acredita ter recebido a visita de um ser mefistofélico que lhe diz: “(…) que apenas você possa me ver, porque está enlouquecendo, não significa que eu não existo”. Em uma cena de Fargo, Varga diz algo que ecoa a frase, embora no sentido contrário. Em um momento de desespero, Emmit lhe pede socorro. Varga, como Malvo, lhe pergunta o endereço e diz que está a caminho. Quando chega, Emmit está aflito com a possibilidade de alguém tê-lo notado, ao que Varga responde: “Eu sou tão raramente visto que talvez nem exista”.

Um pouco antes, nesse mesmo episódio, temos um dos melhores monólogos de Varga: “Você sabe o que Lênin disse sobre a Sonata Para Piano n. 23 de Beethoven? (…) ‘Eu não conheço nada que seja melhor do que a Appassionata, mas eu não posso ouvi-la muito. Afeta os nervos. Faz a pessoa querer dizer coisas estúpidas e gentis. E afaga a cabeça daqueles que, vivendo em um inferno tão imundo, podem criar tal beleza. Melhor atingir a pessoa sem piedade na cabeça’”. Enquanto fala, Varga está deitado no chão escutando Beethoven.

O monólogo pode ser uma referência também a um trecho do filme alemão A Vida dos Outros (2006), que começa em 1984, na Alemanha Oriental: “Você sabe o que Lênin disse sobre a Appassionata de Beethoven: ‘Se eu continuar a escutá-la, não vou terminar a revolução’. Será que alguém que já escutou essa música, escutou de verdade, pode ser realmente uma má pessoa?”.

A primeira cena da temporada se passa justamente na Alemanha. Estamos em Berlim Oriental (a legenda da Netflix se equivoca e traduz East Berlim como Berlim Ocidental), no ano de 1988. A câmera começa filmando o espaço vazio no interior de um microfone suspenso, que se encontra em uma sala onde um homem está sendo interrogado por um militar. O nome, a idade e a nacionalidade do homem retido são diferentes das do suspeito procurado. Apenas o endereço coincide.

O homem tenta explicar que vive nesse local há apenas seis meses, e especula que o suspeito pode ter sido o inquilino anterior, ao que o militar responde: “Isso é um problema, você entende? Porque para você estar certo, o estado precisaria estar errado. É isso que você está dizendo? Que o Estado está errado?”.

A essa altura, o homem parece saber que dificilmente sairá livre dali. As coincidências circunstanciais continuam: sua esposa se chama Helga como a namorada morta do suspeito, crime pelo qual é procurado. Não adianta alegar que os sobrenomes são diferentes e que sua esposa está viva, o que seria facilmente verificável. O militar insiste: “Eu lhe mostrei a foto de um cadáver, gelado e azul. Eu vi o cadáver com meus próprios olhos. A morte dela é um fato. O que você está me dizendo são palavras. Essa ‘esposa’ que está ‘viva’ com um ‘sobrenome diferente’, isso se chama ‘história’. Não estamos aqui para contar histórias. Estamos aqui para contar a verdade”. A ironia é que, obviamente, o que menos parece interessar ao militar é qualquer coisa parecida com a verdade.

Existe uma rima interna em Fargo bonita de acompanhar: ao longo de toda temporada, homônimos, ou quase homônimos, e coincidências insólitas que envolvem nomes e endereços voltam a atravessar os episódios de maneiras diferentes. Essa é uma das referências a um dos filmes mais amados dos Coen, O Grande Lebowski (1998).

Ao fundo da sala de interrogatório, uma moldura enquadra uma paisagem coberta de neve. A câmera se aproxima e adentramos a imagem, viajando para Minnesota, enquanto lemos os créditos já familiares: “Esta é uma história verídica…”. Mas, diferentemente das duas temporadas anteriores, a ênfase agora está na palavra história, não em verídica.

Noah Hawley se aprofunda aqui no embate entre realidade e ficção, uma antecipação da discussão em torno da era da pós-verdade, que ganha cada vez mais relevância. Hawley conta que a série foi escrita antes das últimas eleições americanas e atribui a feliz coincidência temática ao zeitgeist de nossos tempos.

Algumas das inconsistências da temporada poderiam ser pensadas a partir desse entrave. Um exemplo é a viagem de Gloria a Los Angeles para investigar o passado misterioso de Ennis Stussy, seu padastro. O sobrenome é uma coincidência, Ennis não parece ter nenhuma relação com os irmãos, embora acabe pagando por isso. Quando é encontrado morto, Gloria descobre, em um esconderijo sob o piso, alguns livros de ficção científica assinados por Thaddeus Mobley, que ela assume ser o pseudônimo de Ennis. Mas, nas cenas de flashback que nos levam a 1975, Mobley é um garoto que não pode ter muito mais do que 20, 25 anos. Ennis tinha 82 ao morrer. Mesmo quem é de humanas não vai ter dificuldade em concluir que, se Ennis tinha 82 anos em 2010, deveria ter 47 em 1975. A conta não fecha.

Tal qual é impossível acreditar, no interrogatório alemão de 1988, que o homem detido tivesse a idade do suspeito, também fica difícil conceber que aquele garoto tenha perto de 50 anos. O título do episódio, não por acaso, é “The Law of Non-Contradiction” (Princípio da Não-Contradição), o princípio proposto por Aristóteles que fundou a ciência moderna e afirma que duas proposições contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

O que poderia ter sido um descuido da série (há outras imprecisões, essa é apenas uma delas), parece mais uma provocação. Talvez eu esteja me esforçando muito aqui, mas Fargo merece o benefício da dúvida. Uma explicação simples, entre outras possíveis, seria a seguinte: Ennis é pai ou tio do rapaz que escreveu os livros, não ele próprio o autor, e por isso os guardou como um tesouro. Gloria pode ter se equivocado ao estabelecer uma relação de causalidade linear.

De todo modo, a policial decide viajar a Los Angeles para tirar a história a limpo, na esperança de encontrar pistas para desvendar o assassinato de Ennis (que, nós sabemos, é resultado de mais uma das confusões do universo de Fargo). Gloria escolhe um dos livros, O planeta Wyh, e leva consigo. Enquanto lê a triste história do andróide Minsky, assistimos na tela à inserção de trechos em animação. Ela é a narradora, enquanto os personagens são dublados por Ewan McGregor e David Thewlis. Os paralelos entre as aventuras de Minsky e a jornada de Gloria mereciam uma análise à parte.

Gloria se diferencia de suas antecessoras Marge, do filme, e Molly, da primeira temporada, por ser muito solitária. Marge está grávida e é amada pelo marido, com quem parece ter um casamento feliz. Molly cresce em uma família afetuosa e, mesmo quando adulta, tem o pai sempre ao seu lado. Depois, encontra também em Gus um companheiro leal. Ao final da temporada, está grávida, aninhada no sofá entre o marido e a enteada, cercada de amor. Já Gloria tem apenas um padrasto ranzinza, que morre no primeiro episódio, e um filho adolescente, que parece ser seu único laço afetivo. O ex-marido se apaixonou por um homem e está em um novo relacionamento, e a incorporação da delegacia pelo condado parece deixá-la sem lugar no mundo.

Não é apenas Gloria que resiste à tecnologia, a tecnologia resiste a ela de volta. Sensores de portas, de pias e de sabonetes em banheiros, nada parece ser capaz de detectar sua existência. Ao contrário da presença assertiva de Marge e de Molly, Gloria está rarefeita. Mas é bonito acompanhar seu percurso hesitante, a nova amizade com Winnie Lopez (Olivia Sandoval) e conhecer a humanidade da personagem que, longe de ser infalível, é a mais pálida das heroínas. De todo modo, é seguro dizer: nessa temporada, a materialização da bondade está a salvo com ela.

No último diálogo entre o bem e o mal, Gloria está frente à frente com Varga (que agora se apresenta como Daniel Rand). Ela, por sua vez, tem um novo corte de cabelo e está trabalhando no Departamento de Segurança Nacional. Quando pergunta se Varga, ou Rand, vive em Bruxelas, ele lhe responde: “Sou cidadão do ar, senhora, em movimento, sempre em movimento” (provavelmente, uma nova alusão ao Livro de Jó, quando Deus perguntou a Satanás de onde vinha e ele lhe respondeu: “Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo” ). Podemos pensar que a maldade não tem um único endereço, e está espalhada pelo tempo e pelo espaço de tal modo que a afirmação de Lorne Malvo na primeira temporada — “Não como uma torta como essas desde o Jardim do Éden” — já não soa absurda. Pouco depois, quando Gloria lhe mostra uma foto incriminadora, que poderia ser usada contra ele nos tribunais, Varga lhe pergunta: “Você conhece o ditado russo que diz: ‘O passado é imprevisível’? (…) qual de nós pode dizer com certeza o que aconteceu de verdade, e o que é simplesmente boato, informação falsa, opinião? (…) Os olhos podem se enganar. Nós vemos o que acreditamos, não o contrário. (…) se as provas forem obtidas, se confissões forem feitas, se uma condenação for dada por um tribunal, esse acontecimento se torna como as rochas e os rios, e argumentar que isso não aconteceu é argumentar contra a realidade ela mesma”. Embora seja um discurso sedutor, Gloria sustenta a oposição.

Novamente, há um jogo de espelhos entre a primeira e a última cena da temporada, dois interrogatórios que discutem o que é fato e o que é ficção. Varga mais de uma vez defende que a percepção da realidade se torna a própria realidade. Diante disso, que futuro podemos esperar? A cena tem um eco do filme Um homem sério e do paradoxo de Schrödinger: como o gato não pode estar vivo e morto a um só tempo, estaria vivo ou morto afinal? Se as previsões de Varga estiverem corretas, as de Gloria estariam erradas, e vice-versa. O diálogo final nos conduz a um desfecho irretocável que convoca o espectador a fazer suas apostas.