Os Passos Para se Falar de Cultura

Photo by Delaney Turner

Demorei semanas até conseguir entender qual tipo de texto gostaria de escrever sobre o tema desta temporada da New Order: Acesso à Cultura. Não que fosse um tema mais complicado ou complexo que os outros. Já escrevi aqui sobre política e saúde mental, ambos temas profundos e de grande reflexão, porém nesta temporada me deparei com questões fundamentais para escrever o meu texto:

Afinal, o que é cultura?

Comecemos com a definição e etimológica do termo: cultura, segundo verbete da Wikipédia, é um “conjunto das estruturas sociais, religiosas, etc., das manifestações intelectuais, artísticas etc., que caracteriza uma sociedade”. Etimologicamente, o termo vem do latim e é relacionado ao cultivo, ao plantar. Cultura é o ato de cultivar e cuidar da mente.

Sendo assim, o que podemos definir como cultura é o que nos rodeia. Nossa estrutura social e religiosa, manifestações e toda forma de expressão. Esse texto faz parte de uma cultura, tanto para mim que escrevo, assim como para você, que lê e cultiva a mente.

Mas isso nos trás a minha primeira coceira na orelha em falar sobre cultura. Veja, eu cresci na zona leste de São Paulo, ao lado da favela, em um região periférica. E eu cansei de ouvir durante minha infância pessoas de fora da região falando sobre levar projetos sociais com o lema de “levar cultura para o povo”.

A periferia não precisa que outras regiões mais bem estruturadas levem cultura para ela, pois existe cultura em todo lugar. A favela e a periferia possui sua cultura própria, com elementos dela sendo tão grandes e significantes que são importados do Brasil para o resto do mundo. A cultura da favela está no rap, no funk, no samba. Está nas cores, nos desenhos, nos estilos. Favela tem poesia. O “povo” tem uma cultura própria.

Acontece que a cultura desta mesma população muitas vezes é taxada como criminosa, imprópria e sem valor. Mas, olhando-se bem, o que a música clássica jamais fez pela sociedade foi feito pela MPB, pelo samba e até mesmo pelo funk, apesar da musica clássica ter grande importância histórica para a construção de gêneros musicais futuros, como os citados acima. Isso me trouxe a uma das primeiras ideias que precisamos estabelecer para falar sobre cultura:

Nenhuma cultura tem mais valor do que outra. Toda forma de expressão, toda estrutura social e religiosa é válida como cultura. A cultura não pode ter preconceitos embutidos dentro de si

Veja bem, não estou falando que é invalido a inserção de musicas clássicas e outros gêneros dentro da periferia, ou vice-versa, como o funk tomando proporções internacionais. A cultura tem nichos, tribos e grupos, mas não deve haver limitações entre esses conjuntos. Uma pessoa tem todo direito e deve caminhar entre todas as culturas possíveis e que estiverem à sua disposição para que a mente seja bem cultivada. Essa questão de várias culturas e o acesso à elas me trouxe outra questão a se pensar para esses textos:

Afinal, o que é ser culto?

Para o termo “culto”, nossa Wikipédia falha em ter algo mais profundo, dizendo apenas que alguém culto é alguém instruído, que tem cultura, letrado. Em outros lugares, diz-se que uma pessoa culta é alguém que está “num patamar avançado de civilização”. Ora, o que seria estar em um patamar avançado de civilização?

A sociedade é formada de uma variedade enorme de culturas. Dentro de uma sociedade existem várias manifestações sociais, religiosas, artísticas e etc. Dessa forma, não se pode falar que uma pessoa culta é alguém que é apenas instruído em uma cultura. Isso vai de encontro com a ideia de que o culto é avançado em civilização. O culto não necessariamente precisa ter conhecimento profundo sobre algo específico. Mas, para ser, é necessário conhecer de tudo um pouco. Nessa linha de raciocínio estabeleci minha segunda linha de pensamento:

O culto não é necessariamente especializado em uma cultura, mas é alguém que está por dentro de várias culturas diferentes.

A partir destas noções, acredito que moldei o pensamento que desejo para falar sobre acesso a cultura. Cultura existe em todo lugar, seja onde for e seja ela qual for. É algo que corre nas veias da sociedade. Especificando melhor o tema desta temporada da New Order, diria que a questão toda é o acesso a diferentes culturas por diferentes grupos. Isso é válido em ambos os lados: seja o acesso de uma sociedade periférica à uma cultura mais elitista, assim como o acesso da elite à uma cultura mais ligada ao povo da periferia e classe média. O acesso a uma cultura única nos torna especialistas, mas o acesso a culturas diversas nos torna culto. Ser especialista em uma cultura e ignorar a importância e valor das outras pode criar mais ignorantes do que sábios. A verdadeira sabedoria e inteligência vem do multiculturalismo, daqueles que vagueiam por diversas tribos e absorvem, de cada uma, o melhor delas.

“Na curva do futuro muito carro capotou
Talvez por causa disso é que a estrada ali parou
Porém, atrás da curva
Perigosa eu sei que existe
Alguma coisa nova
Mais vibrante e menos triste”
— Raul Seixas