Oscar 2017: Mesmo com falhas, Até o Último Homem marca a volta por cima de Mel Gibson

Na última década, Mel Gibson viu seu estrelato ruir. Dono de uma personalidade forte e temperamento difícil, ele se afundou nas drogas e no álcool, o que resultou em acusações de violência doméstica e discursos antissemitas. Hollywood não deixou barato e ele perdeu inúmeros contratos e amigos, virou aquilo que se chama de persona non grata na indústria.

Depois de alguns filmes fracassos como ator (Plano de Fuga e O Fim da Escuridão) e dez anos depois de seu último projeto como diretor (o ótimo Apocalypto), o australiano está de volta, disposto a tentar o perdão da galera toda. E parece que conseguiu.

Seu novo trabalho se chama Até o Último Homem, baseado em fatos reais, se passa durante a Segunda Guerra, onde Desmond Doss se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas, porém, durante a Batalha de Okinawa ele trabalha na ala médica e salva mais de 50 homens e é o primeiro Opositor Consciente da história norte-americana a ser condecorado.

Gibson não deixou de lado seu conservadorismo e suas crenças. Mas é perceptível que seu extremismo ficou um tanto quanto mais sutil neste filme. A Paixão de Cristo, por exemplo, exagerava no tratamento aos judeus. Aqui, o protagonista enfrenta seus algozes, mas em nenhum momento eles são tratados como os vilões. Os argumentos usados para criticarem o garoto religioso tem um embasamento.

Outra coisa que Gibson não perdeu foi sua mão ao dirigir. A primeira parte do filme é um drama bem estruturado que demora para se desenrolar, mas é no segundo ato que ele mostra todo seu potencial em uma sequência de guerra absurdamente forte. A imersão no ambiente hostil é completa e faz com que o espectador perca o ar. São planos alternados entre abertos e fechados que mostram tanto a grandeza de um combate, quanto o desespero de se estar ali. Tudo parece ser real e muito cru. As técnicas de mixagem e efeitos visuais ajudam muito no desempenho das cenas.

No entanto, o maior problema do filme está em seu discurso religioso, pró-guerra e nacionalista. Se por um lado ele se baseia em bons argumentos na hora de mostrar seus opositores, por outro, o diretor abusa do discurso positivo do protagonista. Há alguns momentos em que o roteiro quer realizar uma espécie de conversão religiosa ao seu público. Quanto à guerra, há uma entonação um tanto quanto perigosa para os dias atuais. Esse lance de que “Não aguento ver as pessoas lutando por mim enquanto estou em casa” pode até retratar uma época, mas para a atualidade vale também. Intencional ou não, soa bem pretensioso.

O roteiro também conta com alguns problemas estruturais e momentos que forçam a barra. Algumas conclusões e um ponto de virada parece ser preguiçoso, sem contar o fato de ser piegas. A duração do filme influencia diretamente na quebra de ritmo. Dava para diminuir o longa em pelo menos uns vinte minutos.

O elenco por sua vez faz um trabalho muito bom, mas o protagonista Andrew Garfield deixa um pouco a desejar. Suas expressões são sempre as mesmas e até mesmo algumas falas lembram seu Peter Parker/Homem-Aranha, interpretado há uns anos. No mais, os bons destaques são Hugo Weaving num trabalho excelente como pai de Doss e até o surpreendente Vince Vaughn como o Sargento Howell. É interessante vê-lo como um personagem dramático, que consegue transparecer suas emoções com o olhar.

Não fosse a teimosia de Mel Gibson e do roteirista em prevalecer certos discursos, Até o Último Homem poderia ser o melhor filme de guerra da época. Suas sequências são fantásticas e o realismo é assustador, sem contar a história, que é, de fato, muito interessante. Ainda assim, é muito bom ver que ele deu a volta por cima. Mesmo que seu filme não leve nenhuma estatueta, suas seis indicações confirmam: Hollywood pode perdoar quem ela quiser.