Oscar 2017: Com problemas de adaptação, Um Limite Entre Nós se sustenta pelo elenco

Vinicius Machado
Feb 24, 2017 · 4 min read

Há alguns anos, quando as locadoras ainda respiravam, lembro-me de alugar um filme chamado The Sunset Limited, dirigido e estrelado por Tommy Lee Jones, ao lado de Samuel L. Jackson. O filme se resumia em 1h30 de diálogos sobre vida, morte e religião. Ainda que tivesse uma temática interessante, achei o filme um tanto quanto chato e monótono. Dias depois, pesquisando melhor sobre ele, descobri que se tratava de uma peça teatral. Dali em diante, pensei comigo que peças definitivamente não se encaixavam no formato de cinema. Algum tempo depois, confirmei isso com Deus da Carnificina, um filme engraçado, mas que também não funcionou como filme.

Neste ano, Um Limite Entre Nós está concorrendo ao Oscar e me colocou novamente à frente de um filme adaptado de uma peça. A peça chama-se Fences (Cercas em tradução livre, o que faria muito mais sentido pro nome do filme), escrita por August Wilson (que também assina o roteiro), e se nos anos 1950. Troy Maxson, dono de uma personalidade difícil, é um jogador de baseball frustrado por não ter sido profissional e precisa enfrentar sua difícil rotina como recolhedor de lixo, além de não ter muito tato para relações familiares, como com a esposa, Rose, e o filho mais novo, Cory.

Logo no início temos uma longa sequência de diálogo que praticamente deixa claro ao espectador o que ele verá pelas próximas duas horas. Já dá pra perceber que não é um filme fácil de se assistir e o ritmo é completamente lento. Denzel Washington, protagonista tanto no filme, quanto na peça, que lhe rendeu o Tony Awards de 2010 de melhor ator, dirige o filme. Sua direção tende para a veia teatral e, junto ao texto de Wilson, se torna perceptível que há uma coreografia semelhante. No entanto, Washington tenta dar um dinamismo com enquadramentos, closes e outras técnicas.

Ainda assim alguns podem considerá-lo monótono e até mesmo sem muito o que mostrar. E não há mesmo. O foco aqui é a rotina de uma família comum, com problemas comuns, mas é inquestionável o peso e a qualidade da história e de seus diálogos. A trama se passa nos anos 50, mas sua atemporalidade é assustadora. Se o espectador matutar um pouco o filme, verá que provavelmente já presenciou ou conhece situações semelhantes. Há um jogo muito interessante com o nome do filme, que pode ser usado como uma metáfora a tudo que está acontecendo no filme.

Contudo, o elenco é o principal responsável por segurar o filme. Denzel Washington e Viola Davis (também vencedora do Tony em 2010 pelo mesmo papel) conhecem seus personagens muito bem e sabem se aproveitar disso nos dois formatos. Washington interpreta um Troy cheio de convicções, mas que carrega em suas costas todo o rancor pelas injustiças da vida. Este talvez seja um de seus melhores papéis na carreira. Minha dúvida para Oscar de Melhor Ator entre ele e Casey Affleck só aumenta.

Já Davis é responsável pelo ponto mais dramático do filme. Talvez o grande pilar dele. Sua carga emocional é enorme e sua atuação é absurdamente profunda. E difícil dizer que é o melhor papel dela, já que a cada ano ela surge com um mais sensacional que o outro. É inegável que ela seja uma das melhores (se não a) da atualidade. Oscar de Melhor Coadjuvante (que poderia ser facilmente de atriz principal) vencido logo de cara.

Irregular, Um Limite Entre Nós peca por sua adaptação. O formato é diferente e precisava de maior dinamismo, sem tantas coreografias ou jogos de palco. Por sorte, há um elenco de peso e profundo, que carrega uma história à sua altura e nos faz refletir sobre a natureza humana e todos as dificuldade de um indivíduo, se vale a pena ou não abrir mão de seus conceitos ou deixar de quem você é.

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Vinicius Machado

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Jornalista, cinéfilo, fanático por Star Wars e editor do blog Sala Sete. Escreve sobre filmes e não dispensa uma boa conversa sobre o assunto.

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