Guilherme Fontes Filmes/Reprodução.

Ousado e autoral, ‘Chatô, o Rei do Brasil’ merece ser visto

O filme de Guilherme Fontes, que demorou 20 anos para ser finalizado, surpreende pela qualidade técnica e pelo valor artístico.

Em 1995, aos 28 anos, um galã da TV Globo surpreendeu a todos ao adquirir os direitos de ‘Chatô, o Rei do Brasil’, do biógrafo Fernando Morais. Guilherme Fontes, no auge da fama e da juventude, quis ousar mais do que todos até então haviam ousado no cinema nacional. Para contar a história de Assis Chateaubriand, resolveu montar um filme aos moldes de Hollywood. Era o momento da chamada “retomada do cinema nacional” — Carla Camurati preparava ‘Carlota Joaquina, Princesa do Brazil’. Ele não podia imaginar a epopeia que seria construída em torno de sua ambição.

A inexperiência do diretor estreante, a grande quantidade de dinheiro público captado via Lei Rouanet e Lei do Audiovisual (R$ 8 milhões, dos 12 projetados) e, dizem, a inveja e o boicote de outros grandes diretores que tinham interesse em levar a história de Chateaubriand para a telona, fizeram da produção uma contínua fonte de escândalos, incertezas e até piadas.

Foto: José Lucena.

Fontes chegou a flertar com Francis Ford Coppola, que saltou fora ao perceber o imbróglio que pode ser o envolvimento do Estado com a produção cinematográfica no Brasil. Desta parceria, no entanto, resultou o roteiro final — um dos pontos fortes do filme — , escrito por Mathew Robbins, do time do cineasta americano .

Uma rápida googleada permite a qualquer um encontrar toneladas de reportagens em texto, áudio e vídeo sobre a grande novela que se tornou a produção deste filme. O que importa é que ele saiu, está em exibição em 180 salas de todo o país — distribuídas pelo próprio Guilherme Fontes, pois as distribuidoras não quiseram colocar a mão em um projeto tão polêmico — , e é excelente!

Entenda o drama nesta reportagem de Marcelo Bortoloti:

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Quem espera encontrar remendos por conta do tempo que o filme demorou para ser finalizado, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Simplesmente não há remendos visíveis, os atores estão impecáveis do começo ao fim e a não linearidade do roteiro parece ter sido providencial.

Roteiro

Como a saga de Chatô é narrada toda a partir de suas lembranças e alucinações em um leito de hospital, são retratadas várias épocas sem uma sequência lógica, o que tira a diferença física dos atores do primeiro plano — e, francamente, Andreia Beltrão e Letícia Sabatella parecem não envelhecer nunca.

A linguagem onírica adotada por Fontes inclusive o ajudou a aprofundar polêmicas em torno da vida de Chateaubriand. É como se fosse uma grande sátira, então dá para pesar nas tintas. O personagem, magistralmente interpretado por Marco Ricca, é narcisista e desonesto do começo ao fim (o que é fiel ao relato biográfico lançado em 1994 por Fernando Morais). É tanto maquiavelismo, tratado de uma forma satírica, que chega a ser engraçado.

Elenco

Falando em elenco, ele é de primeira grandeza. Além de Beltrão, Sabatella e Ricca, Paulo Betti (como Getúlio Vargas), Eliane Giardini, Gabriel Braga Nunes, Leandra Leal, Zezé Polessa, José Lewgoy e Walmor Chagas — estes dois últimos, já falecidos — dão um show de interpretação.

As várias interrupções na produção nestes vinte anos não atrapalhou em nada a continuidade do filme e não é possível notar diferenças nas atuações. O Getúlio, de Betti, por exemplo, mantém o sotaque de gaúcho interiorano intacto desde a primeira cena até sair da vida para entrar na história.

Fontes ousou muito nas locações e nos figurinos. Feito antes do surgimento de tecnologias que multiplicam figurantes em cenas de multidão, o diretor também não economizou no elenco de apoio.

Trilha sonora

Fontes optou por uma trilha instrumental, o que dá um ar ainda mais épico ao filme. As raras exceções são apresentadas durante o programa de TV no qual Chatô se vê sendo julgado por todas as pessoas que prejudicou ao longo da vida — nestes momentos, o filme se parece com uma chanchada carnavalesca, pois além da trilha irregular também apresenta uma estética tropicalista, de cores vibrantes, cafona como todo bom programa de auditório tem que ser.

As várias subtramas, que vêm e vão o tempo todo, têm músicas instrumentais bem definidas, o que ajuda o espectador a entender a sequência “picotada”.

Chatô não é só uma biografia. É o retrato de uma época

Outro ponto que merece atenção é não considerar ‘Chatô, o Rei do Brasil’, meramente uma cinebiografia (falemos baixo, pois nossos cineastas podem ressuscitar a moda “dois filhos de francisco e cia” do início dos anos 2000). Não é. Há camadas mais profundas ali do que apenas contar a vida cheia de excessos de um empresário narcisista e egoísta.

A relação perigosa da incipiente mídia corporativa brasileira com o Estado (Chatô teria ajudado Getúlio Vargas com sua Revolução de 1930 e feito um acordo nos moldes “não existe um governo sem mídia aliada e não existe uma mídia forte sem um governo”), é narrada com um realismo cru, quase chocante. A chegada da mídia de massa ao país, tanto com os Diários Associados quanto depois com a popularização do rádio e os primórdios da TV, divide protagonismo com a história que se vê na superfície.

É uma história de poder, midiático e político; um se alimentando do outro. A sequência em que pessoas de todo o país ficam sabendo da morte de Getúlio, ou pelo rádio ou pela TV, é arrepiante. Talvez esta tenha sido a primeira grande má notícia histórica dada em cadeia nacional. Fontes demonstra isso de uma forma quase lúdica.

Gostar ou não gostar de ‘Chatô, o Rei do Brasil’ é só uma questão de preferência pessoal. Não há o que questionar em relação à qualidade técnica e ao mérito artístico da produção. Como Guilherme Fontes sonhou lá no início dos anos 1990, temos um filme de primeiro escalão, grandioso e autoral — resultado raro num país que ousa pouco no cinema.



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