Ouvi no Uber: encontros e desencontros

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- Tu é a Fernanda?

- Sim. Thiago?

- Isso. Fica a vontade. Aceita uma água ou uma balinha?

- Não, obrigada.

(…)

- Uma vez tentei fazer uma trilha naquele morro, mas a polícia me parou. Disseram que não podia estacionar porque tão roubando carro direto naquela zona. Mas acho que não era verdade.

- Porque tu acha isso? A situação do país tá bem complicada…

- Pior. Ainda bem que to indo morar em Londres no final do ano.

- Humm.

- Tu já pensou em morar fora?

- Acabei de voltar da Itália, na verdade. Eu morava lá.

- Bah, eu não vejo a hora de ir. Vou pra lá morar com a minha outra mãe.

Acho estranho ele dizer “outra mãe”, mas não pergunto nada.

- É que eu sou adotado, sabe? E minha mãe (não entendo o que ele diz) mora lá.

- Tua mãe o quê ? Não ouvi, desculpa.

- Biológica. Mas é uma história que tu não vai acreditar.

- Hoje em dia eu acredito em tudo.

- Eu conheci minha mãe biológica faz 4 anos. Até então ela não sabia que eu existia.

- Como assim?

- É que a minha mãe ficou grávida de mim com 14 anos. Aí quando a mãe dela — minha avó — descobriu, tirou ela da escola, escondeu do resto da família… sumiu, sabe? E me deu para adoção antes da minha mãe conseguir me ver.

- Nossa! Realmente é história de novela.

Ele dá uma risada.

- Não. Espera que tem muito mais.

- A minha mãe biológica ficou tri mal com isso, de não me conhecer. E depois de um tempo ela foi morar em Londres. Faz mais de 10 anos.

Ele segue.

- Eu tinha 18 — agora to com 22 — e tava conversando com uma guria. Eu já sabia o nome e sobrenome da minha mãe biológica. Só nunca tinha ido atrás. Aí a guria me falou que o sobrenome dela era o mesmo da minha mãe. E eu pensei “não pode ser! Será que falo alguma coisa?”.

- E aí?

- Perguntei se ela tinha alguém na família que se chamava Paula. E ela disse que sim. Que era a tia dela. Daí contei toda a história, que eu era adotado, mas que sabia o nome da minha mãe e tal. E ela achou que eu tava mentindo, que eu queria dinheiro, porque nunca tinha ouvido ninguém da família dela falar nada. E me bloqueou de todas as redes sociais.

- Bah!

- Depois eu acho que ela contou pro avô dela que tinha conhecido um guri e tal, e no fim resolveram contar pra minha mãe.

- E ela?

- A guria?

- Não, a tua mãe.

- Ah, ela começou a chorar e disse que nunca tinha contado essa história pra ninguém. Falou pra eles me procurarem de novo que ela tava pegando um avião pra vir me conhecer no Brasil.

- Que legal! Deve ter sido bem emocionante.

- Muito. Eu achei que não ia chorar. Mas busquei ela no aeroporto e me lavei.

- Linda a tua história.

- Calma, tem mais.

- Mais?

- Sim. Minha mãe passou dois meses comigo aqui no Brasil e nesse tempo eu perguntei do meu pai. Curiosidade mesmo. Ela conheceu meu pai no colégio. Perdeu a virgindade numa festa e nunca mais viu o cara… Imagina, 14 anos! Mas ela lembrava o nome dele e disse que ia tentar achar no facebook.

- E achou?

- Achoooou. Encontrei ele também. Foi bem legal. Ele ainda tinha o caneco da festa que ficou com a minha mãe. Me disse “É por causa desse caneco que tu nasceu, guri!”. Me dou tri bem com ele. A gente já saiu pra beber junto. Até uma amiga dele eu já peguei. A véia se agradou de mim, falou pra ele que me achou bonito. Hahaha

- Jesus.

- O mais legal é que todo mundo se deu tri bem, sabe? Porque eu tinha medo que os meus pais adotivos e os meus pais biológicos não se dessem bem. Mas todo mundo ficou amigo. Familião. Inclusive no reveillon desse mesmo ano a gente resolveu passar todo mundo junto em Tramandaí. Foi muito massa.

- Nossa, Thiago. Tô até arrepiada.

- Tem mais.

- Sério?

Olho no Google Maps do celular dele e temos 5 minutos de viagem.

- A gente já tá chegando. Vai rápido porque quero saber como essa história termina.

- Hahaha ta.

- Daí a minha mãe voltou pra Londres e descobriu que tava grávida. Do meu pai.

- O quê???

- Sim, eles ficaram no ano novo. E minha mãe ficou grávida.

- A tua mãe biológica ficou com o teu pai biológico numa festa e ficou grávida de novo depois de 20 anos?

- Aham. Aí meu pai foi morar com ela em Londres e hoje eu tenho duas irmãs de sangue.

Fico sem saber o que dizer. Pensando que nem o Manuel Carlos conseguiria pensar nessa trama.

- Por isso que tô indo pra Londres morar com a minha outra mãe. Eu tenho duas…

Chegamos ao meu destino. Ele encerra a corrida e completa:

- O único problema é que eu já sou pai também. Esqueci de contar… tanta coisa aconteceu nesses quatro anos. A minha ex-namorada engravidou do Matheus. A gente tentou ficar junto, mas não deu certo. Aí eu fico chateado que não vou conseguir ver sempre o guri.

- É, deve ser difícil. Mas com esforço tu consegue visitar ele, né? Tu e a mãe dele se dão bem?

- Ah, sim! Ela é sobrinha da minha mãe adotiva.

Resolvo sair do carro antes que ele me falasse que tem mais.